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“Posso ver o pálio de Cidadelhe”? A pergunta vai passar a ter resposta afirmativa

09 ago, 2018 - 12:00 • Liliana Carona

Guardado secretamente durante 311 anos, num misterioso ritual que envolve a população de Cidadelhe, no concelho de Pinhel, este pálio bordado a ouro vai ficar em exposição permanente, numa casa-forte, a inaugurar a 12 de agosto. Fomos conhecer a peça, numa visita privilegiada.
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A aldeia mais a norte do concelho de Pinhel, a porta sul do Parque Arqueológico do Vale do Côa, com painéis alusivos às pinturas rupestres, recebe muitos turistas, todos, com a mesma pergunta: “Posso ver o pálio?" A resposta é quase sempre negativa. Porque a peça valiosa, só saía em dias festivos, na Páscoa e no Corpo de Deus.

“É uma peça que se encontra em condições de preservação muito boas. Era o manto onde ia por baixo o Senhor Padre com a Sagrada Custódia”, conta o secretário da Junta de Freguesia de Vale do Côa, Rui Marques, que relembra que Cidadelhe, "já foi cidade, até com tribunal".

Pedem-nos segredo… É necessário assim tanto segredo? “Claro que sim, porque há gente má que nos pode roubar”, diz, sem rodeios, Maria Duartina, 77 anos, está sentada na única esplanada de Cidadelhe, uma povoação de 30 habitantes que se orgulha de ter um pálio com 311 anos.

“Todo bordadinho a ouro, já tão antigo. É o único no distrito.” A peça valiosa, contam os habitantes, foi mandada fazer em 1707 pelos agricultores mais abastados da aldeia.

"Queremos ver o pálio", pedimos. “Não será muito fácil, o segredo vai manter-se até ao final", ou seja, até dia 12 de agosto, data da inauguração da casa-forte que o vai passar a expor. Mas insistimos e, depois de algum tempo de espera, o pálio chegou até nós, com a promessa de não revelarmos onde o vimos.

“Neste caso, a Renascença vai ser privilegiada. É um caso especial”, diz o autarca Rui Marques, acrescentando que houve muita gente a querer ver e não conseguiu. "José Saramago, a primeira vez que visitou Cidadelhe, não conseguiu ver o pálio. Hoje foi um caso especial”, reitera.

Em veludo carmesim, vermelho, bordado a ouro, o pálio de 1707 passou de mão em mão, de casa, em casa, num ritual que lhe trouxe fama. “Eu vou tentar saber onde está o pálio, nos dias festivos. De seguida, vou entregá-lo a outra pessoa e essa pessoa entrega a outra pessoa. E assim se guardou durante anos, nunca se perdeu”, explica Rui Marques.

Alberto Aguiar, 76 anos, afirma que é uma memória “mesmo muito importante para o povo de Cidadelhe", porser "uma coisa que vem dos antepassados".

"Toda a gente tem muito orgulho, é muito invejado por todo o mundo. Não queremos que se perca. Quando era jovem, ainda o levei uma vez ou duas. São necessários oito homens para o carregar”, recorda Aguiar, com emoção.

Mas o pálio vai poder passar a ser visitado por todos quanto o queiram ver. Foi construída uma casa-forte só para ele, "uma casa-gorte feita a partir de uma casa em ruína. O edifício, em betão, destina-se exclusivamente ao pálio, porque é uma peça histórica, de valor incalculável”, sublinha Rui Marques.

A vice-presidente da Câmara de Pinhel, Daniela Capelo, revela que a casa-forte é um investimento na ordem dos 105 mil euros. “Um projeto apoiado pelo PDR 2020 e com um envolvimento muito significativo da autarquia. O objetivo é valorizar a nossa identidade, contruída há 300 anos e que se mantém como testemunho de entreajuda e preservação pela comunidade. Tem um valor afetivo muito grande e finalmente vai ter condições de exposição”, declara.

A população de Cidadelhe reza agora para que a casa-forte seja tão segura como as milhares de mãos e de casas por onde o pálio passou ao longo de mais de 300 anos. "Por um lado, gostava que todos o vissem, mas, por outro... E se há gente má e que nos rouba?”, questiona Duartina.

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