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​Cónego Arnaldo de Pinho

D. António Ferreira Gomes, o bispo que fez frente a Salazar. “Teve razão no seu tempo”

12 jul, 2018 - 17:08 • Henrique Cunha

Faz este ano 60 anos que o antigo bispo do Porto escreveu uma carta a Salazar com denúncias sociais e questões de ordem política.
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O cónego Arnaldo de Pinho, professor jubilado da Universidade Católica denuncia "farisaísmos" sobre D. António Ferreira Gomes. Arnaldo de Pinho garante que não foi o bispo do Porto a divulgar a carta a Salazar e afirma que "o bispo teve razão no tempo" e não antes do tempo.

Revisitando a carta de 13 de julho de 1958, o antigo professor da faculdade de teologia da Universidade Católica advoga que D. António apenas pode ser acusado de ter defendido a doutrina social da Igreja.

Arnaldo de Pinho é um dos participantes na homenagem a D. António Ferreira Gomes, no dia em que passam 60 anos da carta a Salazar.

Em entrevista à Renascença, revela alguns episódios a envolver o episcopado da época e lembra os 10 anos em que a Diocese do Porto estive sem bispo e ainda assim se manteve unida.

O professor jubilado cita Jaime Cortesão que diz que "o Porto é a única democracia urbana que existe em Portugal", para sustentar que todos os bispos que romperam com Salazar eram oriundos da Diocese.

A homenagem a D. António Ferreira Gomes, uma iniciativa da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, conta ainda com a presença do teólogo Anselmo Borges e do atual Bispo do Porto, D. Manuel Linda.

D. António escreve esta carta (pró-memória) a Salazar para deixar alguns dos temas que gostaria de discutir com o Presidente do Conselho, num encontro que teria sido prometido pelo próprio Salazar no caso de D. António terminar a sua ausência temporária do país e vir a Portugal votar. Na sua opinião, porque é que um roteiro de sugestões para um encontro em que Salazar prometia discutir, tudo o que D. António entendesse culmina no exilio do Bispo?

Há um discurso de Salazar à União Nacional - que era o partido da época - creio que em maio desse ano, ano das eleições. Nas eleições havia sempre uma pequena aberta à oposição, mas nesse ano a aberta foi mais complicada porque concorreu o General Humberto Delgado, e portanto, houve uma espécie de terramoto politico. Também há na altura um pequeno boato com fundamento, de que poderia haver a hipótese de haver um partido democrata cristão em Portugal, a partir da Ação Católica. Ora, Salazar, que nunca se tinha referido a isso, num discurso à União Nacional, diz que não admitiria nunca um partido democrata cristão em Portugal e afirma que se a Ação Católica por ventura se orientasse nesse sentido teria de rever a situação da Ação Católica. Ora, o D. António no "Pró-memória" pergunta exatamente se há alguma objeção.

Precisamente, essa é uma das quatro questões que D. António faz a Salazar; o bispo do Porto pergunta se “tem o Estado qualquer objeção a que os católicos se organizem, a fim de estarem aptos, nas próximas eleições legislativas a concorrer ao sufrágio com programa definido e com os candidatos que preferirem. Era isso que preocupava Salazar?

Evidentemente que preocupava. E Salazar diz nesse discurso que isso era contrário à Constituição Portuguesa. Como sabe, a Constituição de 1933 não admitia os partidos políticos.

Há várias versões sobre a divulgação de um documento privado, como o texto de D. António. Há quem diga que foi o próprio Salazar a torna-lo público. Há também quem admita como provável que se tenha devido a descuidos do Gabinete de D. António. Independentemente de se saber quem divulgou, é importante perceber quem beneficiou com a divulgação?

Quem beneficiou não sei. D. António diz nas "Cartas ao Papa" que mandou a carta a Salazar a duas pessoas. Penso que um era um professor universitário e o outro um bispo. Há suspeitas de quem eram. Todavia, ele foi acusado farisaicamente de que foi ele a divulgar a carta, mas eu não tenho razões para duvidar da palavra de D. António. Agora, quem fez a divulgação no contexto das eleições foi efetivamente o promotor da campanha de Humberto Delgado. E depois, evidentemente houve diversas formas de divulgação.

Há quem diga, embora careça de rigor histórico, que a carta foi aparecendo debaixo de algumas portas, sobretudo de casas de instituições religiosas da cidade do Porto....

Sim, sim. A divulgação foi toda clandestina. A primeira publicação não clandestina foi em 1993, no texto que eu publiquei, que foi publicado pela fundação António de Almeida, uma antologia em três volumes do pensamento de D. António. Aparece pela primeira vez uma carta não clandestina. Teve uma grande divulgação, eu li-a logo, em 1958, ainda era novito. O texto não era policopiado, foi divulgado de diversas maneiras, era ótimo, porque, nessa altura tinha 17 anos, li-a logo e percebi o que lá dizia.

Quanto ao conteúdo da carta, podemos entendê-lo como um conjunto de denúncias das injustiças sociais que o país vivia?

Houve duas coisas que se disseram farisaicas que convém denunciar. Uma é que o D. António teve razão antes do tempo, que é um farisaísmo usado pelos bispos da época, muita gente da época e bem depois, pelos bispos, pelos padres, sobretudo fora da diocese do Porto, pelos leigos, etc. Outra é que, o bispo do Porto não a devia ter divulgado. São ambas falsas. A primeira é que o bispo teve razão no tempo e a segunda, é que, de facto não foi o bispo do Porto que a divulgou. Embora, isso aparece inclusivé nas memórias do bispo de Aveiro, que foi ele que a divulgou. Não tenho nenhum fundamento para isso.

Em segundo lugar, há outra coisa que quero dizer. O bispo do Porto já em 1955, três anos antes de publicar a carta, pediu na conferência episcopal, e isso está nas atas da conferência episcopal. Embora, ao cardeal patriarca para publicar um texto sobre a condição dos operários. O cardeal patriarca [Cardeal Cerejeira] disse-lhe que sim. Só que o senhor cardeal patriarca, que era um homem muito sábio, mandou analisar esse texto por dois bispos que eram mais salazaristas, creio eu, que o próprio Salazar. Um era o bispo de Braga, na altura D. António Bento Martins Júnior, creio eu, e outro, era o bispo de Beja, creio eu, D. Manuel dos Santos Rocha. Eles acharam que o texto não era da missão da igreja, etc.

Só a partir daí o bispo começou a doutrinar sobre a doutrina social da igreja. D. António doutrinou o que aparece na Carta ao Salazar de outra maneira. É mais ou menos isto, " A igreja comprometeu-se com a Ordem Corporativa da Sociedade, mas não com o cooperativismo do Estado", isto diz tudo.

Transportando para o nosso tempo o acontecimento, revisitando as preocupações sociais do bispo do Porto - e sabendo nós das dificuldades que o país continua a viver - que tipo de comportamento podemos esperar da Igreja?

Eu penso que a doutrina social da igreja evoluiu, a sociedade também evoluiu, mas, os princípios são praticamente os mesmos.

O Papa Francisco não se cansa de denunciar a "economia que mata!”…

Sim, os princípios são os mesmos. Quer dizer, a doutrina social da igreja está equidistante digamos, não é abstrata, mas está tão equidistante do capitalismo, como está equidistante do coletivismo. Portanto, evidentemente, nós vivemos atualmente uma economia comata, como diz o Papa Francisco, precisamente porque é uma economia que não está ao serviço da pessoa humana e que atualmente, tem desafios muito grandes, porque é uma economia difícil de controlar por causa da globalização.

D. António teve razão naquele tempo e que continua a ter razão neste tempo.

Só se tem razão no nosso tempo porque depois ninguém tem razão. Quem não tiver razão no nosso tempo, nem o tem antes ou depois.

Seguiu-se um longo exílio para D. António Ferreira Gomes. É um período muito difícil para a igreja do Porto?

No ano passado encontrei um padre de Coimbra, fui lá a umas bodas de ouro, e disse-me que a diocese do Porto tem imensas dificuldades. Eu respondi-lhe assim " oiça lá, qual era a diocese que estava dez anos com o bispo fora da diocese e se mantinha unida", e ele ficou sem reposta. Porque a diocese do Porto, embora o administrador apostólico devesse ser ele a estar à frente da união da diocese com o bispo, que não era ele e não o fez, a diocese do Porto manteve-se unida ao seu Bispo e manteve-se unida no trabalho pastoral. Muitos visitavam o bispo e os que não visitavam sabiam bem quem era o senhor bispo, e deram o exemplo que só a diocese do Porto era capaz de fazer.

Repare numa coisa, os bispos que se portaram de acordo com a doutrina, não quer dizer que os outros fossem contra, deram um exemplo de fidelidade à doutrina social da Igreja e que romperam com o salazarismo. Não quero criticar os outros, mas eram todos do Porto. D. Moisés Alves de Pinho, que é um bispo esquecido em Angola; D. Manuel Vieira Pinto e D. Sebastião Resende em Moçambique, o D. António Ferreira Gomes no Porto, eram todos do Porto. Eu acho que o Porto deve orgulhar-se por isso mesmo, por essa sua herança e deve orgulhar-se porque, o Porto como dizia o Jaime Cortesão é a única democracia urbana que existe em Portugal, faz parte da tradição do Porto.

Não é um discurso demasiado bairrista?

Não, quem o diz são os fatores democráticos da formação de Portugal, quem o diz é Jaime Cortesão. Oxalá que haja mais exemplos. Mas, de facto isto é história. Aliás, D. António referiu-se muitas vezes à tradição da igreja do Porto. Esta história ainda está por fazer, há coisas publicadas e nomeadamente, Dr. José Barreto, do centro de estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, irmão de António Barreto, e o Dr. Manuel Braga da Cruz, que escreveu um ótimo livro sobre a igreja e o estado de Portugal durante o Salazarismo, são obras que já tem estudo sobre os arquivos da PIDE e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, estes trabalhos é que deviam continuar a ser feitos.

Comentários
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  • Fernando de Almeida
    13 jul, 2018 Porto 00:41
    Tenho 74 anos não vivi a questão no principio, mas lembro-me bem dos tempos que se seguiram. Não a considero relevante, apenas uma questão entre dois ex-seminaristas em que um, chegado a governante, protegeu a Igreja, mesmo contra vontade de muitos;. o outro, com responsabilidades na mesma, deu voz à eterna mania da Igreja se intrometer nos assuntos do Estado. Notei que o Bispo, ao contra'rio de muitos, foi poupado à prisão ao ser-lhe negada a entrada no pai's.