A+ / A-

Freixo de Espada à Cinta quer produzir seda para todo o mundo

12 jul, 2018 - 13:11 • Olímpia Mairos

Na vila mais manuelina de Portugal ainda há quem se dedique à criação do bicho da seda e à extração do material através de processos artesanais. A autarquia quer revitalizar a atividade e já há quem esteja a aprender para se lançar na arte.
A+ / A-

A arte é ancestral, inédita na Península Ibérica e praticamente única na Europa. E pode bem ser a chave do desenvolvimento de Freixo de Espada à Cinta. A criação do bicho-da-seda e a sua extração através de processos artesanais está a ganhar novos adeptos e conta com um forte incentivo e apoio da Câmara Municipal.

Quando chegou à presidência da autarquia, Maria do Céu Quintas tratou de mudar a imagem de marca do concelho para “Freixo de Espada à Cinta - Terras de Seda”.

A ideia subjacente à estratégia é mostrar que “tudo o que existe no concelho é muito bom, porque se é uma terra que tem seda, tudo quanto cá existe, todos os produtos de Freixo, têm que ser bons, porque a seda é algo demasiado fino, precioso”, explica a autarca.

O seu grande objetivo é recuperar a atividade de tecelão e tecedeira para dar vitalidade ao ciclo da seda, um produto considerado “rentável e emblemático” na economia do Douro Superior. Foi nesse sentido que desafiou o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) a realizar um Curso de Formação Profissional de Tecelão e Tecedeira, que já está a decorrer e que conta com 21 formandos.

“O objetivo é formar pessoas para que fiquem aptas a trabalhar na tecelagem e produção de seda, impulsionar o trabalho de artesanato em seda, associado à empregabilidade, e fortalecer a sua ligação identitária a Freixo de Espada à Cinta, único território peninsular onde, ainda, se trabalha a seda de forma 100% artesanal”, esclarece a presidente da Câmara de Freixo de Espada à Cinta.

E é com orgulho que a autarca constata que “no seio dos formandos há pessoas com intenção de se porem a trabalhar, de poderem usufruir de ajudas e serem empreendedores”, revelando que até “o diretor do centro de emprego afirmou que o curso está a ser um exemplo para os concelhos limítrofes, porque não há abandonos”.

A autarquia não navega em dinheiro, bem pelo contrário, mas está disponível para apoiar os projetos que venham a surgir ligados à seda.

“Somos os únicos que ainda apostamos na produção de seda artesanal, por este motivo, temos que aproveitar e fazer renascer esta mais-valia e transformá-la num produto capaz de ajudar a potenciar a economia local e regional e, na medida das nossas possibilidades, estamos disponíveis para apoiar a criação de negócios que criem empregos e ajudem a fixar os jovens”, refere Maria do Céu Quintas.

A autarca mostra-se convicta de que a seda será “a muito breve prazo um verdadeiro símbolo de Freixo de Espada à Cinta”, que se junta, assim, à arquitetura Manuelina da vila transmontana e aos produtos locais como o vinho, a amêndoa, a azeitona ou as laranjas, para atrair mais visitantes e investidores ao concelho.

Trabalhar a seda não se faz com pressas

Susana Martins, de 43 anos, é a formadora do curso de tecedeira e tecelão. Verdadeiramente apaixonada pela arte, que pratica há mais de 15 anos, tenta incutir essa mesma paixão às suas formandas, para que em Freixo se volte a produzir seda para todo o mundo.

“Trabalhar a seda requer muita paixão e dedicação, porque é algo que não se faz com pressas. A pessoa tem que se dedicar com carinho, porque é uma coisa muito minuciosa e que requer este sentimento de estar a trabalhar com um produto muito delicado”, explica à Renascença.

Atualmente, as únicas tecedeiras a laborar o ciclo da seda encontram-se num espaço dedicado para o efeito, localizado no Museu da Seda, onde o trabalho ao vivo se alia à venda e exposição de acessórios, como echarpes, carteiras de senhora, gravatas ou colchas, entre outras peças concebidas por encomenda.

E “há compradores para todas as peças, mesmo para as mais caras, mas não há seda suficiente. Por isso é que estamos a apostar na formação de novas pessoas. Somos as terras de seda. Aqui nunca se deixou de fazer seda. Temos apoio para isso e há que formar novas pessoas”, diz Susana Martins.

A formadora e artesã revela que “uma colcha de seda de primeira ronda os dez mil euros, um jogo de quarto vai para os 600 euros e as echarpes custam cerca de 500 euros”. As toalhas de batismo também têm “muita procura”, sobretudo de “pessoas da terra que já conhecem” este tipo de trabalho; cada uma ronda os 160 euros.

O preço de cada peça depende do tamanho e do tempo de laboração, entre outros fatores de produção. “A colcha, por exemplo, sem contar o processo anterior, só no tear leva um mês a tecer.” Em Freixo de Espada à Cinta, “faz-se tudo em seda por encomenda: cortinas, tecidos a metro, o que a pessoa desejar”.

Do bichinho da seda ao bichinho do negócio

Fátima Eusébio, de 44 anos, conta à Renascença que está a frequentar o curso de tecedeira e tecelão porque, “além de se tratar do bichinho da seda, havia um bichinho de querer aprender”. Desde que entrou no ciclo da seda, já percebeu que se trata “de um processo bonito que gostava de continuar, para não deixar morrer a tradição e também porque será rentável”.

“O meu bichinho, com o bicho da seda, pode vir a dar lugar a outro bichinho, a um negócio ligado à seda”, revela Fátima, adiantando que já falou com algumas colegas e que também elas estão com vontade de avançar com “um projeto, talvez em sociedade”.

À medida que vai dobando a seda, Fátima contempla o fio e vai dizendo que “é fio muito precioso, tão precioso como o ouro ou ainda mais”, que dá “peças bonitas e valiosas e até quadros” como os que elaborou durante a formação. Fala com orgulho porque a “seda é o símbolo do concelho” e também porque tem aprendido com paixão “uma arte valiosa”, que pode passar a ser a sua “forma de vida”.

Sónia Lopes, de 41 anos, também veio para o curso “pelo gosto de aprender” e também manifesta “gosto em prosseguir com a atividade”. “Nunca tinha contactado com a seda e tudo tem sido uma novidade, porque, uma coisa é ver no museu e outra é fazer, extrair a seda, com as próprias mãos”, diz à Renascença.

Sónia manifesta vontade em ser tecedeira e contribuir para “fazer de Freixo de Espada à Cinta um concelho produtor de seda, capaz de atrair visitantes e criar riqueza”. Atitude idêntica manifesta Ana Isabel, de 44 anos, que decidiu fazer o curso porque gosta da atividade e, por isso, pondera dedicar-se “à arte” que lhe pode “proporcionar algum rendimento”.

Da criação do bicho até ao tear. O ciclo da seda

Susana Martins conhece o ciclo da seda como poucos. O processo é moroso, mas “cheio de encanto”, descreve à Renascença.

“Primeiro que tudo, temos que fazer a criação do bicho da seda, que é a matéria prima, para, depois, trabalharmos a seda. Esse processo é no mês de abril, maio e junho, que é quando a folha está em condições para fazermos a criação e demora há volta de 45 dias. Implica que já tenhamos os ovinhos do ano anterior”.

“É um ciclo que se repete todos os anos e que vamos dar continuidade nesse ano”, diz Susana. E continua: “Em abril, quando vemos que as amoreiras já têm folha, retiramos os ovos do sítio fresco onde os temos e pomo-los a eclodir. Depois faz-se todo o processo de alimentação. Eles nascem do tamanho da ponta de um alfinete, comem 70 % do seu peso por dia – quer dizer que comem muito – quanto mais comerem, melhor é a qualidade da seda. Ao fim dos 45 dias, a larva vai construir o casulo. Tudo aquilo que ele comeu vai largar como uma baba para fazer o casulo, que é a seda. Deixamos nascer aquelas borboletas que queremos para fazer o ciclo do ano seguinte e o resto temos que interromper, para fazer a seda de qualidade. Essa interrupção consiste num choque térmico para que a borboleta morra dentro do casulo e não perfure o casulo, para não perder a qualidade da seda”.

“A partir daí vamos começar a trabalhar os casulos e a extrair a seda. O primeiro processo consiste no sarilho, com uma caldeira de cobre, em que a água tem que estar a 90 graus. Não pode ferver, mas tem que estar sempre naquela temperatura. Os casulos inteiros, que é a seda de primeira qualidade, são postos em água quente e, depois de amolecidos, vão soltar o fio. Um fio representa 20 casulos puxados ao mesmo tempo. À medida que faz este percurso, seca e cola. Daqui, a meada vai para a dobadoura, onde é dobada em cartões. Depois de selecionada a grossura do fio, para ir todo igual, é feito o cubilho, que é a junção de 12 fios (12 vezes os 20 fios) para fazer um só. Esse fio vai para o fuso, que é torcido metro a metro, para fazer a meada que vai ser cozida em água e sabão, que é o branquear ou degomar a seda. Assim, a seda fica pronta a ir para o tear para começar o processo da tecelagem”, conclui Susana Martins.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.