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Ronaldo vai ganhar mil vezes mais do que a média dos italianos. Temos de nos conformar com a desigualdade?

12 jul, 2018 - 07:00 • João Carlos Malta

A contratação de CR7 pela Juventus e o anúncio de greve dos trabalhadores da Fiat face aos 220 milhões pagos na operação voltaram a fazer emergir a discussão sobre as desigualdades de rendimentos entre as 'estrelas' do sistema e o trabalhador comum.
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Trinta milhões de euros por ano contra 29 mil euros anuais. Ronaldo ganhará, durante quatro anos de contrato, mil vezes mais do que o salário médio em Itália (1.500 euros por mês). De qualquer das maneiras que se olhe para os números, não deixam de impressionar. CR7 vai auferir na "Vecchia Signora" 82 mil euros por dia, ou seja, três vezes mais do que o salário anual médio dos italianos.

Em Itália, os trabalhadores da Fiat, grupo automóvel que patrocina a Juventus e que é propriedade da família Agnelli, tendo sido um dos principais financiadores da transferência de Cristiano para o clube italiano, foram os primeiros a reagir aos valores astronómicos da contratação que promete voltar a colocar o Calcio no topo do futebol mundial. Face a esses valores, marcaramtrês dias de greve, entre 15 a 17 de julho.

Domenico De Stradis, trabalhador da FIAT e dirigente sindical, oferece um ponto de análise para o impacto da contratação da estrela português. Em declarações exclusivas à Renascença, De Stradis garante que “o que pagam a Ronaldo serviria para pagar a 1.640 operários da FIAT”, o que, curiosamente, “por coincidência matemática”, é exatamente o número de trabalhadores da FIAT que estão provisoriamente em casa, indicador da “desigualdade social” existente.

Gerardo Giannone, operário com uma carreira de 18 anos na fábrica da Fiat em Pomigliano D’Arco, no sul de Itália (onde atualmente é produzido o Fiat Panda), considera que os números da contratação do astro luso são “uma vergonha”.

“[Os trabalhadores] não têm um aumento salarial há 10 anos. Com o seu salário [previsto] todos os trabalhadores [em Itália] poderiam receber um aumento de 200 euros”, defende o trabalhador.

Um sistema que cria desigualdades

O professor do ISCTE e especialista no estudo das desigualdades Renato Carmo olha para este caso como mais uma manifestação do capitalismo global “que se organiza na financeirização de um conjunto de setores de atividade económica a que o deporto não é alheio”.

O sociólogo enquadra o caso de Ronaldo num sistema em que “determinado tipo de grupos sociais acaba por ganhar muito”, como são exemplo, além dos futebolistas, os CEO das multinacionais e outras grandes empresas que atingem valores salariais exorbitantes. “Depois percebemos que as diferenças são astronómicas”, sublinha.

Podemos combater localmente o que é global?

Questionado sobre se temos de nos resignar a esta dinâmica que promove diferenças tão grandes entre o topo e a base, o professor do ISCTE começa por soltar um sorriso, para depois afirmar que o sistema em que vivemos “produz fortes desigualdades e disparidades”.

Renato Carmo fala de “processos globais” em que não há um sistema que consiga regular transações nem dinâmicas transnacionais. “Ultrapassam os perímetros dos Estados”, concretiza.

Os trabalhadores da Fiat, que não têm aumentos há mais de dez anos, não se resignaram ao que consideram um ataque “inaceitável de quem pede tantos sacrifícios económicos durante anos, e depois decide gastar tantos milhões num jogador”.

Domenico De Stradis está consciente de que a greve da próxima semana é mais simbólica, mas que nem por isso deixa de fazer sentido. “Sabemos que não ganhamos nada com a greve, mas isso é igual em França, Espanha, Portugal ou na Grécia. Contudo, somos escutados e temos a oportunidade de sensibilizar para a necessidade de uma consciência solidária.”

Gastar fortunas com craques e trocos com operários

Em Portugal, e com muitos anos de luta sindical na indústria automóvel, o elemento da comissão de trabalhadores da Peugeot Citröen em Mangualde, Jorge Abreu, critica os donos de empresas que são capazes de gastar fortunas em jogadores de futebol ao mesmo tempo que “mantêm políticas de não aumento de salários e de precarização”.

Abreu diz que não se resigna e garante que a luta dos trabalhadores é o combustível necessário para que haja mudanças. O sindicalista usa uma imagem. “No mundo laboral o balão está cada vez mais cheio de ar e qualquer dia rebenta. É a força da massa que trabalha no dia-a-dia que vai encher esse balão e fazer com que ele rebente."

Paradoxos

O futebol é um dos espetáculos mais vistos em todo o mundo e dos que mais dinheiro faz movimentar, sendo que se alimenta da paixão do cidadão comum que vai ao estádio, apoia a equipa e vê jogos na televisão. Não contribuiremos todos um sistema que cria e torna evidentes estas diferenças abissais?

“É um paradoxo, e é importante haver uma autocrítica, uma certa autorreflexão sobre isso. O futebol é um desporto de massas, mas de facto são também essas pessoas que estão a consumir o futebol que vivem situações desfavoráveis, e isso é um paradoxo. É algo que merece uma forte discussão e debate”, argumenta o sociólogo.

Há também quem defenda que a compra de Ronaldo não pode ser vista como um custo, mas como um investimento da Fiat que terá retorno e que fará com que o grupo ganhe mais dinheiro no futuro.

Renato Carmo não desvaloriza o racional desse pensamento, mas aponta-lhe um problema. “O que é interessante é que depois não se aplica noutras situações. Aumentar a média salarial de uma determinada indústria é, a prazo, gerar lucro para a empresa, porque as pessoas têm melhores condições de vida, vão consumir mais, vão ter uma relação mais estável com a empresa e daí virá maior retorno. É interessante como não se fala de investimento quando se fala de aumento do salário mínimo”, remata.

Comentários
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  • VICTOR MARQUES
    16 jul, 2018 Matosinhos 18:03
    Há tipos que nascem com o ânus virado para a Lua!!!... Ele, se calhar, nem queria "ganhar" tanto!!!... Mama mia qui cosa miraculosa!!!...