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Festival de Curtas de Vila do Conde vai de um mundo ao outro, entre cinema, música e artes plásticas

27 jun, 2018 - 11:23

A 26.ª edição do Festival de Curtas de Vila do Conde tem filmes-concerto de Black Bombaim e Linda Martini, competições nacionais e internacionais e até oficinas para os mais novos.
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Em época de Mundial, o Festival de Curtas de Vila do Conde abre as hostilidades com uma longa-metragem de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, "Diamantino". Depois de premiado em Cannes, o filme marca a abertura oficial do “Curtas”, no dia 14 de julho. “É um filme que se foca no universo do futebol e certamente terá muitas semelhanças com a história do melhor jogador em Portugal e no mundo", avança Hugo Lemos.

Mas Mário Micaelo, também da organização do evento, destaca o filme-concerto do João Pais Filipe e dos Black Bombaim como um dos pontos altos da inauguração do festival. “É um rock distinto, que é só deles. Não é um filme-concerto tradicional, uma vez que não vamos ver um daqueles filmes mudos antigos. Não é a fórmula mais comum. É um filme muito recente, de um realizador alemão radicado na Suécia, que vai garantir um espetáculo realmente extraordinário", garante a organização.

Esta é uma das apostas do 26º. Festival de Curtas de Vila do Conde, um arquivo mundial com os olhos postos em diferentes universos e que conjuga uma mescla perfeitamente simbiótica entre cinema, música e artes plásticas.

Uma competição internacional para aproximar realidades

Queimar pestanas para analisar “centenas de filmes de festivais de cinema internacionais, de onde importamos, em primeira mão, o que de melhor vai sendo apresentado lá fora" não é o típico “one man show”, mas um trabalho coletivo e árduo de 15 membros do júri.

Mário Micaelo revela que, mais do que uma simples ode à sétima arte, os trabalhos apresentados oferecem uma visão privilegiada sobre o mundo, no parapeito das janelas mais importantes da atualidade. "São filmes muito heterogéneos que contêm visões muito pessoais sobre algumas questões, como a das mulheres, dos desprotegidos, dos meios em que o poder faz tudo, menos lembrar-se daqueles que são desfavorecidos", completou o organizador.

"As questões políticas estão sempre patentes. Os filmes não surgem do nada, surgem dum ambiente e isso acaba sempre por se refletir. Há filmes documentais sobre países longínquos, dos quais nem ouvimos falar na televisão, onde as realidades são difíceis", por isso, haverá um mergulho do público em problemas sobre os quais o cinema comercial não se propõe falar.

Um dos critérios que o júri teve em consideração foi a diversidade, de forma a oferecer, mais do que uma panóplia cultural, uma revisão ao estado da arte tão vasta quanto o horizonte torna possível. "Nós não somos um festival que tenha propriamente a preocupação de fazer a copa do mundo em curta-metragem. O nosso critério principal tem que ver com a diversidade na linguagem, nas abordagens e géneros", explica Mário Micaelo, em declarações à Renascença.

Os filmes escolhidos para a competição internacional fazem parte de uma síntese “quanto a nós, perfeita” de 31 obras, que representam 22 países.

Stereo: A música e a imagem em movimento de mãos dadas

"O Stereo é um ponto em que o festival se tem revelado distinto de todos os outros, porque trabalha, de um ponto de vista artístico e criativo, duma forma bastante inusitada, tentando fazer casamentos quase impossíveis entre tipologias de obras de cinema e abordagens de músicos que, muitas vezes, são, de facto, surpreendentes”, assevera Mário Micaelo.

Os filmes-concerto são um dos grandes destaques deste ano no “Curtas”. Numa abordagem dialética em que música e cinema conversam bem, ou não conversam de todo, criando diálogos paralelos, o público vai poder deleitar-se com espetáculos de Joana Gama, Luís Fernandes e mais 14 músicos.

Mário Micaelo realça a parceria entre Moor Mother e Jonathan Saldanha: “O Jonathan Saldanha é dos artistas mais badalados ao nível não só da criação musical mas também performativo. Já a Moor Mother é uma cantora norte-americana de intervenção contemporaneizada, portanto trabalha muito com o hip-hop e a spoken word.”

Mas há ainda para ver e ouvir a participação de B Fachada, “que é um "criador musical, um compositor que trabalha muito a música eletrónica" num filme-concerto a partir de uma curta-metragem de 1928. Também os Linda Martini, "que dispensam apresentações", afinarão com um filme surrealista, “Infocus”, de Nadav Lapid, um realizador israelita, vencedor do festival em 2016.

Navad Lapid, que também integrará o júri, trará, com este filme, uma abordagem polar "muito criativa" entre "o certo e o errado", "o bom e o mau", "o pró-Israel e o pró-mundo", que interroga o espectador e "propõe uma reflexão constante sobre os temas".

O que de melhor se faz por cá em competição

"O Curtas recebeu 3.241 filmes, candidatos em todas as competições, dos quais apresentará cerca de 230 filmes. Estas obras têm proveniência de 43 países e Portugal será o mais representado", assegura Hugo Lemos.

Desse repertório de filmes nacionais, 17 estão em competição e serão apresentados ao público numa estreia nacional e alguns até em estreia mundial. Mas Miguel Dias salienta que alguns dos melhores filmes portugueses do último ano não poderiam ficar de fora: "Tradicionalmente apresentamos alguns dos filmes mais interessantes produzidos no último ano. Não podendo integrar a competição nacional, não queríamos deixar de os apresentar. É uma sessão com 3 filmes, o "Russa", o "Anjo", de Miguel Nunes e "Os Mortos", de Gonçalo Robalo."

Curtinhas. É de pequenino que se aprende a gostar de cinema

Para os pais que querem assistir ao festival mas não sabem onde deixar os filhos, surge o “Curtinhas” e outras iniciativas para incutir o “amor ao cinema” nos mais novos, como referiu Nuno Rodrigues.

O organizador fez questão de sublinhar que haverá “filmes para maiores de três, para maiores de seis e de nove, muitos filmes de animação, documentário e imagem real e oficinas para os mais novos".

O grande destaque deste ano vai para “The Incredibles 2” e para “O Cientista Curtinhas”, um laboratório que vem ensinar aos mais pequenos que também se pode brincar ao cinema.

Para Mário Micaelo, o caminho que o “Curtas” quer trilhar não passa pelo número de bilhetes vendidos, mas pela relação que se estabelece com um público ávido de apreender cinema, música e artes plásticas. "A black box do cinema, por vezes, não resolve tudo o que a obra quer dizer. É preciso criar uma relação de proximidade, de "tu e eu", ao contrário da relação coletiva que acontece numa grande sala de cinema", refletiu o organizador.

O certame que une paisagens verosímeis e inverosímeis através de uma linguagem que apela a cinéfilos decorre entre 14 e 22 de julho no Teatro Municipal de Vila do Conde.

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