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Web Summit e Lis Summit são onde a magia dos negócios acontece. Mas como?

12 jun, 2018 - 07:15 • Cristina Nascimento

A Renascença perguntou a quem sabe como tudo se desenrola em eventos de empreendedorismo como estes. Andrew Hughes, investidor britânico que apostou as fichas na capital portuguesa, partilhou alguns segredos.
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Andrew Hughes é britânico, mas mora em Lisboa há cinco anos. No início de junho, passou dois dias intensos na Lisbon Investment Summit em sucessivas reuniões. Pelo meio arranjou tempo para falar com a Renascença.

A entrevista começou com uma explicação: em eventos como este, há sobretudo muitas conversas para conhecer "a magia das startups”, fator decisivo para investidores como ele decidirem apostar dinheiro nesta ou naquela ideia, nesta ou naquela startup.

Foi ao encontro internacional com vontade de investir, mas sem saber à partida se o ia fazer, em particular porque “há startups que ainda não estão prontas para receber investimento”, explica.

“O que levo daqui", reconheceria já no final da conversa, "é que é mesmo encorajador ver como Lisboa e Portugal estão a apoiar os empreendedores. Estão no bom caminho.”

O que é que estes eventos trazem aos investidores?

Antes de mais isto é um ecossistema onde os investidores têm oportunidade de aprender, de perceber o que está a acontecer no mundo dos negócios, que empresas estão a crescer, que empresas estão a criar novas ideias, que equipas estão a ser formadas em torno dessas ideias... De todas essas pessoas vem magia e eu venho ver essa magia. Há muita magia nas startups. Estão a criar coisas do nada, possivelmente estão a criar emprego ou a fazer crescer um novo setor de negócios com o qual ainda não me tinha cruzado. Estou a aprender com tudo isto.

Vim aqui como investidor, para ver se há oportunidades para eu aumentar os meus investimentos, mas não se chega aqui e não se investe em tudo o que se vê. Há todo um processo, que é o que eu mais gosto.

Como é que isto funciona? Vê uma ideia que acha que pode ser a próxima grande ideia e dá-lhes dinheiro?

O processo é muito simples. Começa com conversas mas depois o principal é olhar para como a tecnologia é criada, se é uma forma eficiente de construir um software, qual é a estratégia de marketing, quais é que são os resultados até agora vindos dessa estratégia, se já estão a gerar receitas... Temos de olhar para isto tudo e ver em que ponto está a empresa. Isto é parte do que estamos aqui a fazer, analisar se as empresas já estão prontas para receber investimento. Muitas das empresas com que falei aqui estão a pedir dinheiro mas ainda não estão prontas para receber investimento. Essas empresas também aprendem connosco, investidores, aprendem com as outras empresas. Estamos aqui todos a partilhar experiências e conhecimento.

Porque é que há empresas que não estão prontas para receber investimento?

Se se puser dinheiro cedo demais, esse dinheiro vai ser usado para aprender como é que se fica pronto para ir para o mercado e vai esgotar-se. É por isso que se se puser dinheiro demasiado cedo das duas uma: ou vais ter de pôr mais dinheiro mais tarde ou então o projeto vai falhar. Isso é uma estratégia de alto risco. Se a empresa já está a conseguir algumas receitas e a ganhar algum dinheiro, qualquer investimento vai acelerar esse processo, uma vez que eles já aprenderam como fazer, como chegar ao mercado.

O que é isso de acelerar empresas?

Acelerar empresas significa fazer o negócio andar mais depressa.

Mas isso não depende dos clientes?

Sim, mas para andar mais depressa temos de estar em mais cidades, em mais países, expor o produto à frente de mais pessoas, mais depressa. Isso é o que o investimento faz, é por isso que os investidores estão aqui.

Não há o risco de um investidor encontrar uma boa ideia, pegar nela e fazer igual noutro lado?

Isso é parte da magia. Não é só a ideia em que se investe, é também na equipa que a desenvolveu, nessa equipa que desenvolveu a ideia e que a pode tornar melhor. Eu também já fui empreendedor. Já criei empresas e vendi-as. É um caminho muito interessante, mas muito duro. Não é fácil criar uma empresa, conseguir investimento e fazê-la crescer, até chegar ao ponto em que é comprada por outra empresa. É muito difícil. Por isso, por um lado investir é muito mais fácil, porque estás a pôr dinheiro numa equipa que consideras ter a magia certa e a combinação certa para o fazer. Sim, eu podia pegar na ideia e desenvolvê-la eu mas eu posso não ser a melhor pessoa para desenvolver essa ideia. É por isso que os investidores e as empresas se juntam, para ver se a combinação desta equipa com este dinheiro dá certo.

Legalmente como é que isso funciona? Os investidores passam a deter uma parte da empresa?

Sim. O que nós compramos são ações. Imaginemos uma empresa composta por 100 ações. Não são ações em bolsa, mas quando se cria uma empresa, legalmente, a empresa traduz-se em ações. Pode ser uma ação, três ações, 100 ações, não importa. Como investidor, compras uma percentagem das ações, ou seja, da empresa. Os donos da empresa fixam um valor para a empresa – por exemplo, um milhão de euros. Se eu decidir investir 100 mil euros nessa empresa, fico com 10% das ações.

E os investidores ganham o quê? 10% dos lucros?

Sim, mas nesta fase muitas vezes não há lucros e muitas chegam a não ter lucro. É um risco. Nós não sabemos. Os investidores assumem um risco calculado, quando achamos que a ideia é boa e que a equipa é especial e acreditamos nela o suficiente para investir o nosso dinheiro nessa empresa e fazê-la crescer, elevá-la ao próximo nível. Muito possivelmente eu não serei o único investidor, provavelmente vão entrar outros investidores ao mesmo tempo, o que diminui o risco para cada um dos investidores.

Nestes dois dias de Lisbon Investment Summit, em quantas empresas já decidiu apostar?

Ainda não decidi e até agora ainda não investi em nenhuma. O que eu levo daqui é que é mesmo encorajador ver como Lisboa e Portugal estão a apoiar os empreendedores, ver o tipo de empresas que estão a ser atraídas para Lisboa, que vêm a eventos como este apresentar-se, algumas mudam-se mesmo para Lisboa. É muito importante para Portugal e para as gerações mais jovens.

Essa é uma das mensagens que tem sido transmitida pelo Governo, que Portugal se tem tornado na capital do empreendedorismo. Isto é mesmo verdade?

Eu não vou entrar no campo político. Tudo o que eu sei é que eu invisto em empresas, trabalho com empresas e aconselho empresas aqui, no Reino Unido e em Itália. Tenho visto a mudança com os meus próprios olhos, tenho visto empresas instalarem-se cá, tenho visto estrangeiros de vários pontos da Europa instalarem-se cá e o reconhecimento de que o ecossistema que existe aqui é muito benéfico. E o que é que faz a diferença? Há aqui uma grande juventude qualificada e que fala inglês, o que a torna internacional. Se olharmos para outros países na Europa, nem todos têm a mesma capacidade que Portugal, o que o faz destacar-se. A política fiscal para as startups pode ser melhor mas já está a ser melhorada. O mundo fala de Lisboa, é verdade. No mundo do empreendedorismo, o que me dizem é “oiço tanto falar de coisas boas sobre Lisboa, quero ir lá ver com os meus olhos”. E foi o que se passou aqui nestes dois dias, pessoas de todas as partes do mundo a quererem vir ver o que se passa nesta afamada Lisboa. Esperemos é que seja sustentável.

Essa é uma questão premente. Isto é sustentável ou isto é uma moda e daqui a dois anos estamos de volta à velha Lisboa?

Veremos. Não posso prever isso. Qualquer coisa pode acontecer. Veja só o que está acontecer no Reino Unido com o “Brexit”. Tudo pode acontecer. O “Brexit” está a destruir as oportunidades do Reino Unido e quando um país desce, outro emerge. Acho que Portugal está no bom caminho.

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