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Jovens acham normal bater nas namoradas? Então, a Educação falhou

17 mai, 2018 - 11:22 • Ana Carrilho

O tema da violência sobre as mulheres e o impacto que tem no sono é debatido na Conferência Internacional do Sono, em Lisboa.
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Se jovens de 16, 17 ou 18 anos acham normal gritar com as namoradas, dizer como se devem vestir, exercer vários tipos de pressão ou até bater-lhes é porque a Educação falhou, não está a fazer o suficiente para os sensibilizar contra a violência doméstica.

Esta foi uma das ideias que a antiga Secretária de Estado para a Igualdade, Teresa Morais, deixou na sessão de abertura da Conferência Internacional sobre o Sono, Lisbon Sleep Summit, sobre “O sono nas Mulheres”.

O tema da violência sobre as mulheres e o impacto que tem no sono é um dos muitos que vai ser tratado nos próximos três dias na Universidade Católica. Teresa Morais lembrou que já estão em curso no ensino secundário alguns programas de prevenção da violência no namoro mas que ainda não estão a dar os resultados desejados. E que no ensino universitário, a situação não é melhor. “Por exemplo, nas Faculdades de Direito não há disciplinas que abordem de forma aprofundada a violência doméstica e os crimes de violência na família: números, factos, instrumentos de proteção das vítimas. Por isso é temos juízes que não sabem como usar os meios legais que já têm à disposição. Porque não aprenderam na faculdade, frisou a atual deputada social democrata que também já foi professora de Direito.

Teresa Morais defendeu ainda o desenvolvimento dos mecanismos de proteção das vítimas – mais de três quartos, mulheres. “Essa deve ser a nossa maior preocupação porque sabemos que os ciclos de violência na família sucedem-se e com gravidade crescente. Não nos podemos esquecer das dezenas de mulheres assassinadas pelos maridos ou companheiros todos os anos. E está provado que quando as crianças assistem à violência entre os pais, esses comportamentos são repetidos”.

Com tanto trabalho, como é que as mulheres podem ter mais filhos?

Convidada para falar sobre os Desafios das Mulheres. Teresa Morais sublinhou as múltiplas tarefas a que a mulher hoje em dia tem de dar resposta. “Antes não era expectável que as mulheres fizessem tanta coisa para além de educar os filhos, tratar das lides domésticas ou mandar a quem as fizesse, além de ser boa esposa. Já não é assim porque as mulheres querem ter emprego e uma carreira. É uma justiça pelo investimento que fizeram na sua formação. Temos mais licenciadas, mais investigadoras mas continuam a não chegar ao topo das organizações e a fazer, em média, mais cinco horas/dia de trabalho não pago (doméstico), refere a jurista.

E lamentou ainda mais o défice demográfico e a quase impossibilidade das famílias terem mais filhos se não forem adotadas políticas de incentivo à natalidade. Além das dificuldades económicas, as mulheres—mães têm que responder a inúmeras solicitações, incluindo, por vezes, ter mais que um emprego. “Não sou feminista mas não tenho dúvidas que estamos num lugar em que não podemos ter tudo sob controle. As mulheres tentam ter tudo sob controle mas não é possível. É preciso fazer escolhas e se não temos mais crianças é porque não podemos mesmo. Paciência! – desabafou Teresa Morais.

Retratos de super-mulheres e uma confissão

Para mostrar os múltiplos papéis que as mulheres são chamadas a desempenhar e os sacrifícios diários, Teresa Morais propôs um exercício: reparar nas mulheres que saem dos escritórios quando todos os outros chegam. “Levantaram-se às 5 da manhã, passaram 1 ou 2 horas nos transportes porque não ganham o suficiente para viver na cidade onde trabalham. Fazem 2 ou 3 h de limpeza e saem a correr para um segundo emprego que lhes complete o salário. Antes de sair de casa já deixaram a comida feita para a família e os filhos numa ama. Dormem no autocarro, incapazes de dormir na cama onde se deitam depois de cozinhar, lavar e passar a ferro. É o retrato real e dramático de muitas mulheres” – conclui a deputada do PSD.

Mas em níveis superiores, entre as executivas, a vida também não é fácil. Ganham mais mas, regra geral, não o mesmo que os homens; têm que escolher entre a carreira e a família, é-lhes exigida disponibilidade total e contacto permanente. “E no fim, são pessoas que nunca deixam as posições de chefia intermédia; raramente chegam ao topo da organização”. Manifestou, no entanto, alguma esperança “sem muita ambição” da aplicação da lei das quotas.

Teresa Morais revelou ainda que enquanto esteve no governo com a pasta da Igualdade, a batalha mais difícil e dramática que travou foi a de convencer as empresas portuguesas cotadas a aceitar um acordo para terem 30% de mulheres na direção até 2018. “Consegui com 14 mas entre discussões agressivas e atitudes paternalistas, tive respostas que gostava de ter escrito num quadro para nunca me esquecer”, confessou.

E o que é que isto tudo tem a ver com o sono?

Porque é que vemos tantas pessoas a dormir nos transportes, de manhã, à noite ou a qualquer hora do dia? Para Teresa Morais é claro que é porque não dormem o suficiente em casa, porque não têm tempo, sobretudo as mulheres.

Super-mulheres que querem e precisam de fazer o máximo. Mas Teresa Paiva, neurologista especialista no estudo do sono e uma das organizadoras do Lisbon Sleep Summit, deixa o apelo: “não sejam Super-Mulheres porque destroem a saúde e o sono. Durmam bem, tenham saúde”.

O Lisbon Sleep Summit começou ontem na Universidade Católica e prolonga-se até sábado.

“O Sono nas Mulheres”é o tema da Conferência em que vão ser apresentados cerca de meia centena de trabalhos científicos e abordar questões como O Sono das Mães, os Distúrbios do Sono nas Mulheres, nomeadamente as Insónias, O Trabalho e o Sucesso, o Stress e a Memória, a violência ou As coisas estranhas que as Mulheres fazem à noite.

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