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Entrevista

Javier Cercas. Os independentistas catalães “são separatistas”

19 mar, 2018 - 08:36 • Maria João Costa

O escritor espanhol, candidato ao Man Booker Prize com o livro “O Impostor” fala do prémio, da Catalunha, dos seus leitores e do último livro “O Monarca das Sombras”.

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Javier Cercas não nasceu em Barcelona, mas é nesta cidade catalã que vive e escreve os seus livros. O autor diz que os independentistas catalães, “são separatistas” e que a questão catalã “é um problema europeu”. Cercas que está nomeado para o Man Booker Prize com o livro “O Impostor”, considera que os prémios “não tornam o livro melhor”. O autor que compara o livro a “uma partitura” e que diz que os “leitores são os intérpretes” participou no Festival Literário da Madeira onde conversou com a Renascença sobre o seu mais recente livro, “O Monarcas das Sombras”. A obra desenterra do passado a história de um tio-avô que combateu pelas tropas de Franco na Guerra Civil espanhola.


Escreve no “O Impostor” que “é incapaz escrever um livro sem que ele se torne uma obsessão”. A história que conta no seu último livro, “O Monarca das Sombras” é da sua família, era também uma obsessão antiga?

É a obsessão fundamental na minha vida. Esta história sempre me foi contada desde que era pequeno. É a história de um tio da minha mamã, era meu tio avô. Era como se fosse um irmão da minha mamã porque vivíamos juntos. Em 1936 quando tinha 17 anos alistou-se. Pertencia a uma família de pequenos proprietários rurais, gente humilde, era um rapaz com ambições intelectuais, foi o primeiro da família e da aldeia a estudar. Quando rebenta a guerra, o golpe de Estado do General Franco, este rapaz alista-se nas tropas de Franco e morre dois anos depois na batalha de Ebro que foi a mais violenta e dura de todas as guerras em Espanha. Esta história sempre me foi contada pela minha mãe. Quando ele morreu, a minha mãe tinha 7 anos. Para ela, este homem era um herói, um homem valente que tinha ido para a guerra para defender a família, a religião e a pátria.

Precisava contar esta história da sua familia?

Sempre tive esta história na minha cabeça, todos nós temos histórias destas. Este livro fala disto: todos temos uma herança boa e uma herança má.

Mas era difícil falar desta herança, o seu tio-avô combateu por Franco...

Esta é a pior herança, mas todos as temos. Em Espanha é a guerra civil, em Portugal haverá outras. A pergunta que este livro faz é “o que fazemos com esta herança?” Ignoramos? Separamos? Adoçamos? Inventamos uma herança diferente como fazia a personagem Enric Marco em “O Impostor”? Ou assumimos? Tentamos entender? Entender, não significa justificar; é exactamente o contrário. Significa encontrar os argumentos para não voltar a cometer os mesmos erros. Eu quis assumir a minha própria herança para não repetir os erros. Essa herança vive connosco e não a podemos ignorar.

Foi uma forma de saber mais de si, e fazer um diálogo com a sua mãe.

Acho que a verdadeira protagonista do livro é a minha mãe porque é ela que me liga a esta herança. Claro que fiquei a saber mais de mim, porque eu sou os meus antepassados. Vivem em nós. Eu sou o meu pai e a minha mãe. Mas não o sou de maneira simbólica, sou de maneira física. Perante isto, só podemos assumir essa herança e procurar corrigir os erros que cometeram. Somos responsáveis por esses erros.

Para si, neste livro era importante abordar a guerra civil, o Franquismo e pegar nesta história de um tio-avô que, aos olhos de hoje, combateu no lado errado da guerra.

Essa é a questão. A minha pior herança era para mim uma herança errada ideologicamente. Isso foi o que tentei perceber. Porque é que este rapaz se enganou? Sobre a nossa pior herança há uma névoa. Nós não sabemos o que fizeram os nossos pais, os nossos avós. Quem viveu histórias terríveis como a guerra, não conta o que se passou. Quem conta, por vezes mente, como fazia Enric Marco, o protagonista de “O Impostor”. Eles têm o direito ao silêncio, mas nós temos a obrigação de saber. Se conhecermos e entendermos a nossa herança, podemos manipula-la. Caso contrário, é ela que nos manipula. Este é o tema do livro: precisamos conhecer a nossa pior herança porque senão somos escravos dessa herança. Há políticos que dizem que o melhor é não olhar para o passado, o importante é o presente e o futuro. Quem diz isto ou se engana ou tenta enganar-nos.

Precisamos do passado?

O passado de que há memória e testemunhas ainda não passou. É uma dimensão do presente, sem a qual o presente está mutilado. Necessitamos digerir esse passado. A única forma de fazer algo útil com o futuro é ter o passado sempre presente. Se não conheces o passado estás condenamos a repeti-lo.

Nos seus livros relata sempre a aventura literária, a aventura da escrita do próprio livro. É a forma de envolver mais o leitor?

Absolutamente, sim. São os leitores que acabam o livro. Eu só ponho lá metade do livro, a outra metade são os leitores que põem. Um livro é como uma partitura, e o leitor é quem a interpreta. Cada leitor, se o livro é bom interpreta de forma diferente. Nós os escritores precisamos da colaboração dos leitores. O Paul Valery dizia que “As obras-primas não são escritas pelos escritores, são escritas pelos leitores”, leitores teimosos, capazes de descobrir no livro coisas que nem o escritor tem consciência que colocou. E sim, eu dou a conhecer ao leitor o mecanismo, as minhas dúvidas, todo o processo de construir o romance. Eu escrevo livros de aventuras sobre a aventura de escrever romances. Isso é tão importante ou mais, do que a história.

Isso acontece em “O Monarca das Sombras”

O que conta “O Monarca das Sombras” não é só a história de Manuel Mena, é também a história da minha relação com Manuel Mena. Porque é que levei tanto tempo a escrevê-la? O que é que faço com essa herança? Porque tenho tanto medo de escrevê-la?

Agora está entre os candidatos ao Man Booker Prize com o livro anterior, “O Impostor”

Bom, se ganhas prémios é bonito, mas não tornam os livros melhor. Os meus livros têm tido sorte, já ganhei muitos prémios, também aqui em Portugal. Tenho mais prémios fora de Espanha do que em Espanha, talvez porque os meus livros são melhor compreendidos fora de Espanha do que em Espanha. Mas não me queixo, tenho muitos leitores espanhóis.

Qual é a explicação para dizer que os seus livros são mais compreendidos fora de Espanha?

Espanha continua a ser o país onde vendo mais, mas os meus livros abordam temas muito duros e difíceis para Espanha. Provocam reações viscerais. As pessoas querem saber se estou a favor ou contra, mas a literatura não funciona assim. A literatura não procura verdades claras, nítidas, taxativa, unívocas. Não procura dizer este é o bom e este é o mau. A literatura procura a complexidade, ambiguidade e todas as contradições e questões do ser humano. Isto provoca nervos aos fanáticos, aqueles que querem as coisas claras. Há gente chateada comigo em Espanha e isso satisfaz-me, ainda bem que a literatura incomoda.

Vive em Barcelona, como está a cidade, as pessoas depois do referendo e de toda a situação vivida nos últimos meses?

Está mais tranquilo, mas não acabou ainda. O que aconteceu no outono foi terrível.

Há feridas?

Claro, e haverá durante muito tempo. O que fizeram os políticos catalães independentistas foi terrível e estamos dependentes dos julgamentos. Eles estão acusados de delitos gravíssimos. Não só usaram milhões de dinheiros públicos para coisas ilegais, como coisas piores. É uma situação difícil, está melhor mas espero que não voltemos ao que aconteceu. A questão é que a sociedade espanhola está dividida quanto á questão catalã. O problema é que uma das muitas mentiras que os independentistas contaram é que todos os catalães eram independentistas. Não é verdade! São menos da metade e mesmo desses nem todos o são, é uma situação muito especifica. Para mim, não é uma questão apenas da Espanha ou da Catalunha, é um problema europeu, sem dúvida. É algo muito perigoso para o único projeto político realmente valioso que temos, o grande projeto político do século XXI, que é a União Europeia. A minha ambição é transformar a Europa num Estado Federal. Seria um projeto único na História. Difícil, mas creio que é a única utopia razoável que temos e acho que a pior maneira de a começar seria separamo-nos. Não são independentistas, são separatistas! É uma ideia muito má.

Comentários
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  • Anónimo
    19 mar, 2018 20:28
    Claro, a culpa é dos políticos independentistas por cumprirem o que prometeram ao povo (quando foi a última vez que isso aconteceu no Estado Espanhol ou até mesmo em Portugal?) e não da corja da Guarda Civil que feriu 900 catalães pelo "crime" de quererem votar. Não apoiar a independência da Catalunha é legítimo. O que não é legítimo é negar ao povo catalão o direito a decidir e menosprezar a brutalidade policial na Catalunha e a existência de presos políticos no Estado Espanhol. Quando à acusação do uso de "dinheiros públicos para coisas ilegais", só pode ser piada tendo em conta que quem governa o Estado Espanhol é o PP.