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Sim, o envelope estava certo: "A Forma da Água" é o melhor filme

05 mar, 2018 - 04:17 • Catarina Santos

O filme de Guillermo del Toro​ partia em clara vantagem, com 13 nomeações, e sai da cerimónia com quatro estatuetas. Entre os atores, tudo como esperado. O movimento Time's Up e as políticas de imigração de Donald Trump marcaram uma cerimónia morna e sem surpresas.
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Sim, o envelope estava certo: "A Forma da Água" é o melhor filme
Sim, o envelope estava certo: "A Forma da Água" é o melhor filme

Depois do gigantesco fiasco da cerimónia do ano passado, com a troca de envelopes que baralhou o anúncio de melhor filme, a Academia de Hollywood decidiu dar uma segunda hipótese aos atores Warren Beatty e Faye Dunaway, que voltaram a apresentar a categoria mais aguardada da noite. E desta vez correu tudo bem: o próprio Guillermo del Toro fez questão de expôr bem alto o envelope onde se lia que “A Forma da Água” é o grande vencedor desta 90ª edição dos Óscares.

Além de melhor filme, esta fábula de um amor para lá de atípico deu ainda o Óscar de realização a del Toro, bem como o de direção artística e o de banda-sonora original - garantindo a Alexandre Desplat a segunda estatueta dourada da carreira, depois de ter vencido com “Grand Budapest Hotel”, em 2015.

Nas interpretações não houve surpresas: Gary Oldman leva o óscar de melhor ator pelo filme “A Hora mais Negra”, Frances McDormand é a melhor atriz pela mulher furacão que interpreta em “Três Cartazes à Beira da Estrada”, Sam Rockwell leva a estatueta pelo papel secundário no mesmo filme e Allison Janney é a atriz secundária eleita por “Eu, Tonya”.

“Dunkirk” tinha oito hipóteses de marcar pontos e conseguiu três estatuetas (montagem, edição de som e mistura de som), “Três Cartazes à Beira da Estrada” partia com sete nomeações e conseguiu duas (atriz e ator secundário).

O discurso da inclusão que levantou a sala

Numa cerimónia morna e algo contida, o tema da igualdade de género e dos protestos contra o assédio sexual na indústria do cinema, simbolizados pelos movimentos Time's Up e #MeToo, foram a tecla mais premida. O pico da mordacidade subiu ao palco com Frances McDormand. Na hora de receber o óscar de melhor atriz, agradeceu ao seu “clã” - o marido Joel Coen e os dois filhos “bem criados pela sua mãe feminista”. Depois, pousou a estatueta no chão “para ter alguma perspetiva” e pediu a todas as mulheres nomeadas que se levantassem.

A cavaleira da inclusão. Como Frances McDormand levantou toda a plateia feminina
A cavaleira da inclusão. Como Frances McDormand levantou toda a plateia feminina

“Olhem à vossa volta, senhoras e senhores, porque todas temos histórias para contar e projetos que precisam de financiamento”, vociferou, com o tom sarcástico que poderia muito bem ter saído da personagem que lhe valeu o Óscar. “Convidem-nos para os vossos escritórios nos próximos dias - ou venham aos nossos, como preferirem - e vamos contar-vos tudo”. E terminou com um misto de promessa e aviso: “Tenho duas palavras para vos deixar esta noite: 'inclusion rider'” - um termo que se refere a uma espécie de cláusula que permite exigir certas condições quando um actor assina um contrato (maior inclusão de mulheres ou minorias, por exemplo).

Donald Trump: o nome-não-dito nas entrelinhas da noite

Antes, o assunto tinha já atravessado toda a cerimónia, ramificando-se para tópicos vizinhos, como a “raça” e “etnia”, compondo um ramalhete de permanente apelo à diversidade e repúdio da exclusão - incluindo a exclusão dos “dreamers”, os imigrantes em risco de serem deportados na sequência das políticas de Donald Trump.

O nome do presidente norte-americano nunca foi referido, mas o seu fantasma pairou na sala do Dolby Theatre de Los Angeles. Das tiradas do anfitrião Jimmy Kimmel a vários discursos ao longo de toda a noite.

Quando recebeu o prémio pela realização de “A Forma da Água”, o mexicano Guillermo del Toro apresentou-se como “um imigrante” que nos últimos 25 anos viveu por todo o lado. “Acredito que o melhor que a nossa arte e a nossa indústria fazem é apagar as linhas na areia. Devemos continuar a fazê-lo, quando o mundo nos diz para as tornar mais profundas”.

Pouco depois havia de subir ao palco novamente para receber o prémio maior da noite e voltaria ao tema. “Eu era um miúdo apaixonado pelo cinema, enquanto crescia no México. Julguei que isto nunca poderia acontecer e aconteceu. Quero dizer a todos os que sonham com uma parábola, com o uso da fantasia para contar histórias de coisas que são reais: vocês conseguem. Esta é uma porta: mantenham-na aberta e entrem.”

Na apresentação do Óscar para melhor direção artística, também a queniana Lupita Nyong’o e o paquistanês Kumail Nanjiani fizeram questão de sublinhar as suas origens - “somos de países que a maioria dos americanos nem consegue localizar no mapa”, alfinetaram - para dizer que “os sonhos são a base da América” e deixarem uma palavra de solidariedade a “todos os ‘dreamers’ [sonhadores]”.

Estrelas a distribuir cachorros quentes

Óscares. Estrelas distribuem doces e cachorros quentes a espetadores de cinema
Óscares. Estrelas distribuem doces e cachorros quentes a espetadores de cinema

Cerimónia que se preze é fértil em agradecimentos e esta não foi exceção. O anfitrião Jimmy Kimmel levou a intenção ao extremo. Recrutou atores e realizadores voluntários, invadiu o TCL Chinese Theatre, ali ao lado, e surpreendeu um grupo de pessoas que se preparavam para ver um filme.

Munido de cabazes com doces, fez a plateia levantar-se, eufórica, quando lhes anunciou que estavam em direto na cerimónia. O objetivo era agradecer a todos os espetadores de cinema, sem os quais os filmes não fariam sentido.

Pela sala foram disparados cachorros quentes gigantes e voaram doces. Kimmel identificou “um forte cheiro a marijuana” na sala e deduziu que a comida seria bem-vinda. Entre as estrelas que distribuíram os “snacks” estavam Lupita Nyong’o, Emily Blunt ou Guillermo del Toro.

Foi um dos poucos momentos extravagantes de uma cerimónia de pouco mais de três horas sem grandes surpresas, mas também sem acidentes. Depois da bronca do ano passado, a Academia estará certamente mais tranquila assim.

Gary Oldman. Um óscar dedicado a Churchill
Gary Oldman. Um óscar dedicado a Churchill

Lista completa dos premiados:

Filme: “A Forma da Água”

Realizador: “A Forma da Água”, Guillermo del Toro

Ator: Gary Oldman, “A Hora mais Negra”

Atriz: Frances McDormand, “Três Cartazes à Beira da Estrada”

Ator secundário: Sam Rockwell, “Três Cartazes à Beira da Estrada”

Atriz secundária: Allison Janney, “Eu, Tonya”

Argumento original: “Foge/ Get Out”

Argumento adaptado: “Chama-me Pelo Teu Nome”, James Ivory

Direção artística: “A Forma da Água”

Fotografia: “Blade Runner 2049”, Roger A. Deakins

Banda-sonora original: “A Forma da Água”, Alexandre Desplat

Canção original: “Remember Me”, de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez, do filme “Coco”

Caracterização: “A Hora mais Negra”

Guarda-roupa: “Linha Fantasma”

Edição de som: “Dunkirk”

Mistura de som: “Dunkirk”

Efeitos visuais: “Blade Runner 2049”

Montagem: “Dunkirk”

Animação - longa-metragem: “Coco”, de Lee Unkrich e Adrian Molina, Disney Pixar

Animação - curta-metragem: “Dear Basketball”

Filme em língua estrangeira: “Uma Mulher Fantástica”, Sebastián Lelio, Chile

Documentário - longa-metragem: “Icarus”

Documentário - curta-metragem: “Heaven is a Traffic Jam on the 405”

Curta-metragem: “The Silent Child”

[Notícia actualizada com a explicação do termo "inclusion rider", do dircurso de Frances McDormand]

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