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​A arte ajuda a combater "ignorância religiosa"

31 dez, 2017 - 23:59 • Ângela Roque

Santuário do Cristo Rei, em Almada, mostra 20 quadros dedicados aos Mistérios do Rosário.
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Foram 20 as pinturas alusivas aos Mistérios do Rosário encomendadas ao francês Serge Nouailhat, que trabalhou nelas durante dois anos. Os quadros vão ser inaugurados esta segunda-feira, na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus.

Os quadros estão expostos no Pavilhão do Rosário, no Santuário do Cristo Rei, em Almada.

Em entrevista à Renascença, o reitor do Santuário, o padre Sezinando Alberto, fala com orgulho da aposta que tem feito nos últimos anos em obras de arte sacra que ajudem os peregrinos a compreender melhor “os mistérios da fé”. Porque, diz, o mundo está mais letrado do que na Idade Média, mas isso não significa que tenha mais conhecimento nesta área. As imagens ajudam a combater a “ignorância religiosa”, diz em entrevista.

Que quadros são estes?

São quadros que estão a ser pintados há dois anos. Foram encomendados a um pintor francês católico, que é o Serge Nouailhat, que pinta muitos vitrais para o estrangeiro. E achámos que este pavilhão que inaugurámos há dois anos necessitava de ter um nome, neste caso Pavilhão do Rosário. Então, os quadros são uma catequese viva dos mistérios do terço. As pessoas que visitem o pavilhão ficam a perceber o que é que o terço significa para nós, os católicos.

Tem encomendado várias obras de arte para o Santuário do Cristo Rei. Porquê?

Sim, tenho feito essa aposta, e não só pintura. Também estou em contacto com um escultor espanhol, Marco Augusto, da diocese de Cádiz, que é extraordinário, tem algumas obras na Basílica de São Pedro em Roma, o que prova a sua qualidade. Eu, se calhar, vou um bocadinho contra a corrente. Porque há quem critique. Nós estamos na época do despojamento, do vazio, do liso, do branco, da pouca coisa, do simples, mas eu se calhar sou da velha guarda, e entendo que a ignorância religiosa, a falta de formação é muito grande, e que tal como a Idade Média temos que voltar à imagem, voltar à arte para falar dos mistérios da fé. O mundo é hoje mais letrado do que era o da Idade Média, mas isso não quer dizer que tenha mais conhecimento da fé que o da Idade Média. E através da arte as pessoas contemplam os mistérios da Fé. fste é o meu programa, que tracei há anos, e que se tem manifestado certo, tem dado frutos.

É uma aposta para continuar?

Estamos com trabalho grande que vai até 2019, para os 60 anos do Cristo Rei, e temos algumas coisas que queremos implementar até lá. E vai tudo à volta da arte. Agora em Janeiro inauguramos estes quadros e vamos inaugurar também um frontal que é uma das portas da capela alusivas ao credo. É uma porta em bronze, toda trabalhada em alto relevo, onde tem o credo.

A nossa fé assenta em quatros pilares: os sacramentos, a oração, os mandamentos e o credo. O Cristo Rei nos seus quatro pilares tem estes quatro motivos. Esta catequese irá se embelezada com quatro grandes estátuas em mármore dos quatro evangelistas para dizer que aquilo que a Igreja professa, a sua fé, assenta não na tradição humana, mas na Palavra de Deus que está escrita e contida na Sagrada Escritura e é reflectida nos quatro evangelistas. Essa catequese tem de ser dada.

Encontrou um pintor alentejano a quem vai em breve encomendar outra obra. Esta é uma preocupação permanente, ter a arte como instrumento de evangelização?

É. E é curioso que tanto o pintor francês que pintou os quadros dedicados ao Rosário como o escultor espanhol me agradeceram. Disseram-me: “obrigado, precisamos de mais padres com a sua sensibilidade”. Os artistas cristãos não são muitos e se não lhes dão trabalho não podem exprimir a sua arte ao serviço da evangelização. Eu fiquei impressionado com isso. Este pintor alentejano que eu agora descobri pinta de uma forma muito diferente… julgo que nem é católico, mas também quero atrair estas pessoas para a fé.

E já o desafiou?

Sim, já combinámos um encontro, e vou lançar-lhe um desafio que já tenho na cabeça. Pela forma como pinta penso que o que tenho na cabeça vai ficar muito interessante.

A Igreja devia apostar mais nesta evangelização através da arte?

Com certeza que a Igreja tem de ter sensibilidade com os pobres, com os necessitados. E tem, e temos. Mas não devemos deixar de ser portadores e veículos de cultura. Isso é muito importante. Eu quando encomendo uma obra de arte, penso sempre que à volta dessa obra há muita gente que trabalha. Por exemplo, quando vemos uma escultura em bronze, há muita gente que trabalhou para a escultura, portanto, a economia gira, também é uma forma de contribuirmos para a dimensão social das pessoas. É por aqui.

No Cristo Rei esse é um desafio permanente?

É. Em Portugal há santuários construídos há séculos, mas no Cristo Rei temos este desafio, que é com os tempos novos fazer um santuário, e isso é gratificante. Brevemente vou entregar ao bispo de Setúbal o projecto grande para o Cristo Rei, que há-de ser alvo de uma discussão ampla e há-de ser aprovado pela diocese, mas já tenho aquilo que será o Cristo Rei no futuro, todos os edifícios, todas as construções, para que seja um local cada vez mais acolhedor. Porque quanto mais tivermos aqui de conteúdo, mais visitas teremos e mais procura, e acho que o caminho é por aqui.

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