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Álvaro Santos Almeida sobre a PT: “Se não é crime, devia ser”

12 out, 2014 • José Bastos

Investimento da PT no grupo Espírito Santo e bloqueio estatal de OPA da Sonae duas das causas da perda de valor do símbolo empresarial português.

Álvaro Santos Almeida sobre a PT: “Se não é crime, devia ser”
Álvaro Santos Almeida sobre a PT: “Se não é crime, devia ser”
Álvaro Santos Almeida identifica, no Conversas Cruzadas, erros políticos e de gestão da PT, talvez até de natureza criminal. “É da responsabilidade da equipa de gestão que cometeu erros de gestão gravíssimos. Que fez coisas que não são meros erros...” sustenta. “Não sendo jurista hesito em qualificar porque não sei qual a qualificação correcta. Mas se não é crime devia ser” defende Álvaro Santos Almeida. "a PT é hoje uma sombra daquilo que foi”, sinaliza Daniel Bessa.
“Hoje nasce uma empresa com raiz nos países de língua portuguesa e um mercado de 200 milhões de pessoas. Uma empresa que está entre as maiores do mundo”. A frase é de Zeinal Bava em Outubro de 2013.

Um ano depois, a compra da TIM no Brasil e a venda da PT levaram à saída, esta semana, do presidente executivo da Oi. Pelo meio, esfumou-se a constituição de um gigante luso-brasileiro.

O investimento suicida da PT no grupo Espírito Santo dinamitou o mandato de Zeinal e agora a empresa vai acabar em mãos espanholas ou francesas. A Altice francesa discute com o Novo Banco a compra da PT e a empresa regista a maior queda de sempre em Bolsa.

Como se chega até aqui numa empresa símbolo do país? Como se chega a tamanha perda de valor? Álvaro Santos Almeida identifica no “Conversas Cruzadas” erros políticos e de gestão, talvez até de natureza criminal. “É da responsabilidade da equipa de gestão que cometeu erros de gestão gravíssimos. Que fez coisas que não são meros erros...”, sustenta.

“Não sendo jurista hesito em qualificar porque não sei qual a qualificação correcta. Mas se não é crime devia ser”, defende Álvaro Santos Almeida.

“Estar a aplicar tesouraria de uma empresa de telecomunicações naquele montante – 900 milhões de euros – em títulos de um determinado grupo é um erro. Qualquer aluno de gestão financeira básica sabe que não se pode fazer”.

“Quem tem responsabilidade nisso devia ser fortemente penalizado. Até criminalmente”, advoga o professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

Interferências políticas também contribuíram para o desenlace, defende o ex-quadro do FMI. “O futuro da PT começou a ser condicionado pelo facto de ter sido mal gerido o processo de privatização, por um lado, mas sobretudo pelo bloqueio à OPA da Sonae”.

“A OPA poderia ter dado um destino diferente à empresa. O processo foi bloqueado no interesse de um grupo minoritário de accionistas que está na origem de todos estes problemas recentes”, afirma Álvaro Santos Almeida.

“A falta de controlo, o problema da falta de gestão resulta do facto de um grupo minoritário ter conseguido usar a PT a seu favor”, sustenta.

Daniel Bessa: “PT é sombra do que foi”
“A PT é detentora de uma enorme infra-estrutura é a empresa líder numa área de negócio, as telecomunicações”, reconhece Daniel Bessa, director geral da Cotec Portugal.

“Já quanto à ambição de uma empresa global faz parte do filme que nos contaram. Às vezes, somos demasiado crédulos e vamos atrás dessas coisas. Mas, enfim, a PT é hoje uma sombra daquilo que foi. Já não digo daquilo que parecia poder ser”, sinaliza o ex-ministro da economia.

“Para além da desvalorização e dessas desgraças a questão central da PT é hoje a questão do controlo accionista”, alerta Bessa.

“Nós não sabemos de quem vai ser a PT dentro de dias. Nem sabemos bem de quem é que ela é agora. Mas de quem ela vai ser é que não sabemos”, argumenta.

“Alguém dizia que o melhor que pode acontecer á PT é ser adquirida pela Telefónica. É talvez o grande operador que pode dar impulso”, sugere Daniel Bessa.

“No meio dos potenciais compradores parece ser o que daria um pouco mais de sentido e de consistência. Portugal seria uma região da Espanha para esses efeitos, mas há pior. Há destinos piores que esse”, conclui.

“Se Estado não bloqueasse OPA da SONAE não haveria esta desgraça
“A história da Portugal Telecom depois da OPA (da Sonaecom, em 2006) tem de ser investigada pelos jornalistas”, afirmou, esta semana, Belmiro de Azevedo.

“Eu não posso dizer nada porque sou parte do problema e fui muito activo naquela história”, insistiu o empresário recusando entrar em pormenores sobre o estado actual da PT.

Desde a década de 80 que o empresário do Marco de Canaveses viu frustradas as tentativas de controlar a PT “Derrota estratégica, vitória financeira. Fui sempre um derrotado, mas sempre ganhei dinheiro o que, para já, não é mau”, afirma Belmiro.
 
Álvaro Santos Almeida interpreta o discurso do líder histórico da Sonae de que cabe agora aos jornalistas contar toda a história da PT, no pós-OPA da Sonaecom.

“O que está aqui em causa – e deve ser a isso que o engenheiro Belmiro se refere – é que se chegou a esta situação porque era do interesse de um conjunto minoritário de accionistas. Accionistas a quem as decisões da administração beneficiaram claramente” defende Álvaro Santos Almeida.

“Esse conjunto minoritário de accionistas usou as ligações ao poder político para bloquear a OPA da Sonae”, constata o prof.de economia da Universidade do Porto.

“Se, nessa altura, não tivesse havido intervenção do Estado, se calhar, hoje a PT seria muito diferente. Não estaríamos a assistir a esta desgraça para a empresa, accionistas e economia portuguesa”.