É português, carregou malas no aeroporto e agora leva o Spotify ao mundo

16 set, 2014 • João Carlos Malta

Têm entre 25 e 37 anos. São engenheiros. A Renascença falou com os seis portugueses que trabalham para a Spotify. Uma grande empresa que dispensa atestados médicos e valoriza a socialização.
É português, carregou malas no aeroporto e agora leva o Spotify ao mundo
É português, carregou malas no aeroporto e agora leva o Spotify ao mundo
Pedro Pacheco, um nortenho de 27 anos, foi o último português a chegar ao aeroporto de Estocolmo com destino aos escritórios da Spotify. Identificou imediatamente um ambiente estimulante e hoje é um dos que fazem com que possamos ouvir a música que queremos quando queremos. Pedro conta à Renascença como é trabalhar numa grande empresa que dispensa atestados médicos e valoriza a socialização.
Ricardo carregava malas no aeroporto de Faro para ganhar dinheiro. O mesmo que não teve para acabar o curso no Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

Acreditava no mérito, não na sorte. Era a única coisa a que se podia agarrar. Acabou num avião. Primeiro para Barcelona. Depois para Helsínquia. Até chegar a Estocolmo, sede da Spotify, serviço de música "online" com 40 milhões de utilizadores. Nunca mais parou. Hoje está com um pé em Nova Iorque e outro no mundo.

Este português, de 27 anos, é um dos elementos do departamento de "growth" (expansão) da Spotify. É ele um dos que estuda novos mercados e a estratégia de implementação da Spotify. Foi o primeiro português a entrar para esta multinacional tecnológica.

Parece uma história de encantar, daquelas que não acontecem. Aconteceu. Ricardo dá a sua receita, que diz ser "sua". Pessoal e quase intransmissível e com um momento que a enquadra: depois de ter estado em Estocolmo, onde fez de tudo um pouco, graças a um passado em algumas "start-ups", foi escolhido para implementar o escritório nos Estados Unidos.

Porquê? "Por ser muito polivalente e gostar de diversos desafios", revela. Nem tudo correu como previsto. "Vim para programar, mas acabei por passar mais tempo a construir a equipa", explica.

Foi, aliás, responsável directo ou indirecto pela chegada de quase todos os outros portugueses à Suécia para transformarem os sons em dígitos.

Técnica é importante, mas estes suecos valorizam a socialização 
O universo é aliciante. O Spotify é um serviço digital de música em "streaming" que dá a qualquer utilizador acesso a mais de 20 milhões de faixas. Está em 57 países com mais de 40 milhões de utilizadores activos e mais de dez milhões de subscritores.

Mas como passar de subscritor a trabalhador? O convite pode chegar pelo LinkedIn (o Spotify tem "olheiros" nesta rede social) ou, em versão pró-activa, o candidato pode candidatar-se através do "site" do Spotify. Seguem-se um bloco de quatro ou cinco entrevistas. As primeiras via Skype, as últimas presenciais.

O grupo de portugueses joga matraquilhos no escritório. Foto: DR

Na Spotify, há problemas informáticos complexos para resolver, mas a componente social tem um peso enorme. É o que diz Miguel Durão. Aos 37 anos, este português é um dos que contribui para que este serviço tenha um aspecto visual interessante nos diversos suportes móveis.

"Fui entrevistado por várias pessoas para a área técnica, mas as conversas também incidiram muito na parte social. É muito importante que todos os trabalhadores gostem de trabalhar uns com os outros", explica.

Num universo de quase mil trabalhadores, há apenas seis portugueses. É um número muito pequeno quando quase metade é de fora da Suécia. "Ainda há muita relutância em deixar o país na área de IT [Informação e Tecnologia]. Ainda existem empregos bem pagos nessa área [em Portugal]", aventa o designer Ivo Silva, de 25 anos.

Voltemos a Ricardo, ele que agora viaja pelo mundo, mas, de pés na terra, já foi responsável pelo recrutamento. Diz que é preciso acreditar, acreditar, acreditar. E recorre à estatística: "Se só tens 10% de hipóteses tenta dez vezes".

100% de liberdade, 100% de responsabilidade
O processo de selecção é apertado. Mas as surpresas continuam ao aterrar num dos escritórios desta empresa. Principalmente a quem chega de um país latino. O espirito Google e Facebook está nos corredores (joga-se ping pong e videojogos). Ou não houvesse muitos que de lá vieram.

Voz a Daniel Prata Almeida que, aos 29, tem como missão fazer com que a música não pare e o serviço não tenha quebras. "O equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal é altamente valorizado. Só assim se conseguem atingir níveis de produtividade elevados", enuncia.

Mas o que é que isso quer dizer? "Se dormiste mal ou te sentes mal disposto podes ir trabalhar mais tarde ou ficar em casa, não precisas de entregar um atestado médico. Picar o ponto e cumprir escrupulosamente um horário não se traduz em produtividade", responde. E, por fim, enfatiza, "em alguns sítios as pessoas passam demasiado tempo no trabalho".


Ivo Silva em acção. Foto: DR

João Lopes, 37 anos, também identificou automaticamente esta forma de estar. "Quando alguém tem de sair mais cedo para ir buscar um filho ao infantário, nem se põe a hipótese de dizer que não", sublinha. "É estranho para nós mas não devia ser".

Desengane-se quem pense que a liberdade equivale a menos trabalho. "Toda a gente trabalha mais de 40 horas [por semana]", dizem.

As diferenças não ficam por aqui. Pedro Pacheco, um nortenho de 27 anos, foi o último português a chegar ao aeroporto de Estocolmo com destino aos escritórios da Spotify. E identificou imediatamente um ambiente estimulante.

"É muito difícil vir uma decisão de topo de 'management' [gestão] que nós não possamos como engenheiros de 'software' questionar. Sentimos que temos bastante autonomia", diz o engenheiro que recebe as músicas das editoras e as coloca disponíveis para serem ouvidas.

A criatividade também não fica presa dentro de cada um. Ela é trabalhada para ser solta. "Há 10% do tempo que temos em que somos livres para trabalharmos no que quisermos", explica Pacheco.

"Dá cá uma continha 'premium'"
Trabalhar numa empresa que faz um serviço que quase todos os amigos usam massaja o ego. Mas, noutros momentos, obrigatoriamente provoca-se a decepção nos outros.

O Spotify tem um serviço pago e outro gratuito. Este último tem interrupções com publicidade. Por isso, há sempre o desejo de conseguir uma conta "premium". Mas muitos não querem pagar. "Uma das reacções que muitas vezes tenho é mesmo essa: 'Não me arranjas uma conta 'premium'?’", diz Pedro Pacheco.

A resposta, dizem todos, é invariavelmente: "Não". Durão lembra: "Não estamos autorizados a criar contas para amigos".

Mas há outras reacções: "Umas pessoas dizem que é excelente. Mas há outras que perguntam: 'Mas o que fazes lá? O produto já está feito'". "É bastante comum as pessoas não perceberem que o produto está em constante mudança", assegura Miguel.

Dos 100 aos 1.000
A transformação tem sido uma constante na Spotify. Ricardo é o que melhor pode falar das alterações da empresa que nasceu em 2008. Entrou dois anos depois, quando esta tinha 100 trabalhadores. Agora são dez vezes mais.  "Isso mudou tudo. Uns gostaram outros não".

Tudo se alterou na empresa, mas também na vida deste "globetrotter". Das malas de Faro, à programação, chega agora à estratégia.

Ricardo valoriza a "paixão" pelo que se faz. E é isso que tentava identificar quando foi "porteiro de entrada" na empresa.

Ouvindo Miguel Durão, este é um sentimento que passa. "Não me vejo a trabalhar em mais lado nenhum. Não é uma 'start-up', mas também não é uma Google ou uma Microsoft."