Uma limousine Packard de 1954 e dezenas de pessoas com roupas de outra época enchem o adro da Igreja da Cartuxa, em Caxias. Quem por ali passasse ao engano poderia ficar confuso, não fosse a parafernália de câmaras e adereços que compõem o cenário. Ao centro está Bille August, a comer pastéis de nata no intervalo das filmagens de "Comboio Nocturno para Lisboa".
Vinte anos depois da "Casa dos Espíritos", o realizador dinamarquês está de novo a filmar em Portugal - desta vez adapta um romance do escritor suíço Pascal Mercier, pseudónimo do filósofo Peter Bieri. O filme conta a história de um professor suíço que decide investigar a vida de Amadeu Prado, um médico e poeta que lutou contra a ditadura do Estado Novo.
Jeremy Irons empresta os contornos físicos ao protagonista e, tal como ele, ainda está a tentar descobrir uma coisa ou outra sobre Portugal. Confessa que não teve "tempo para saber mais sobre Salazar", porque Bille o obriga a trabalhar muito. Seja como for, o actor considera que "olhar para trás não era necessário" para fazer o papel do suíço - "e também não creio que Portugal precise de o fazer", acrescenta.
"País extraordinário"
A receita de Jeremy Irons é olhar em frente e aproveitar o "país extraordinário, com imensas possibilidades", que viu em Portugal. Ao ponto de achar que se o país conseguisse "trazer mais filmes e mais turistas", a situação económica "iria melhorar".
Nicolau Breyner, que também integra o elenco, não podia estar mais de acordo. "O que eu acho que é importante é trazer filmes para Portugal. Vamos convencer os nossos governos a criar benefícios fiscais para essas pessoas que vêm filmar cá", defende.
O investimento total de "Comboio Nocturno Para Lisboa" será de oito milhões de euros e metade será gasta em Lisboa. A produção divide-se entre Portugal, Alemanha e Suíça.
O país que "teve um povo corajoso que lutou contra Salazar"
É precisamente da Suíça que chega outro elemento do elenco. Com mais de 50 anos de carreira, Bruno Ganz foi Hitler no filme "A Queda", foi o anjo Damiel de "As Asas do Desejo", de Wim Wenders, e agora interpreta Jorge O'Kelly, um antigo membro da resistência anti-fascista portuguesa.
Para preparar o papel, serviu-se sobretudo da sua própria memória do que aconteceu em Portugal no período do Estado Novo: "Eu lembro-me de ficar assustado quando li nos jornais o que tinha acontecido", conta, admitindo que "as pessoas podem ter-se esquecido, no resto da Europa, do que aconteceu aqui". Por isso, agrada-lhe "a ideia de relembrar que este país teve um povo corajoso que lutou contra Salazar".
Depois de terem passado por Berna, as filmagens decorrem entre Lisboa, Caxias e Palmela até 6 de Maio. O filme deve chegar aos cinemas no início de 2013.