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Especialista insiste que “não há casamentos irrecuperáveis”

30 out, 2014 • Filipe d’Avillez

O terapeuta familiar Peter Damgaard Hansen lamenta que a psicologia se tenha tornado uma “nova religião”, com um “sacerdócio de psicólogos”.  
Todos os casais que passam por problemas acreditam que são os únicos nessa situação, mas nenhum casamento está para lá da salvação, explica o terapeuta familiar Peter Damgaard Hansen.

O psicólogo dinamarquês, em Lisboa para um ciclo de conferências, trabalha principalmente com casais que passam por dificuldades nos seus casamentos, uma área crítica, considera: “Dizemos sempre que a família é o núcleo base da sociedade, e o núcleo base da família é a relação entre marido e mulher”.

Quando surgem dificuldades, o primeiro passo é desdramatizar. “Tipicamente as pessoas sentem vergonha por não conseguirem que a sua relação funcione e muitas têm a ideia que isso é algo que deviam conseguir fazer sozinhos. Não nos devemos sentir mal por ter problemas maritais.”

Nas situações de crise os casais entram num ciclo vicioso de culpabilização e torna-se necessário a entrada em cena de uma terceira pessoa, em quem ambos confiam. Para muitos casais cristãos a escolha natural é um sacerdote, o que pode ser bom, mas por vezes insuficiente: “Eles podem ter recursos para lidar com muitas coisas, mas depende da gravidade da situação. Quando são problemas muito profundos, muito enraizados, penso que a maior parte dos padres não estão preparados para isso, aliás, muitos terapeutas também não”.

O treino e a experiência de Peter Damgaard Hansen, que é casado e pai de três filhos, levaram-no a concluir que por detrás de muitos casamentos falhados está um profundo sofrimento. “Encontramos sempre muita raiva. Se conseguirmos libertar essa raiva através de uma intervenção terapêutica temos uma situação totalmente diferente e pode ser possível libertar a pessoa. Por detrás dessa raiva há uma mágoa muito profunda e um desejo enorme de ser amado”.

Fórmula para um casamento feliz
Numa era em que o problema já não é só o divórcio, mas o facto de muitos já nem se quererem casar, o psicólogo dinamarquês diz que a chave está em ensinar aos jovens, mesmo durante os namoros, a resolver os seus conflitos para que percebam que o compromisso é possível desde que encontrem uma pessoa disposta a trabalhar as suas próprias dificuldades.

“Há uma frase na Bíblia que diz que não devemos tentar tirar uma farpa do olho do nosso irmão se temos uma trave no nosso’. Eis a fórmula para um casamento feliz, nesta simples frase.”

“Pode-se dizer que todo o meu trabalho tem sido no sentido de reescrever esta frase em termos psicoterapêuticos, explicando-o de vários ângulos diferentes. O casamento não é uma coisa fixa e imutável, vai mudar na medida em que eu mudo. Se eu mudar alguma coisa, isso vai afectar o outro, mas se não mudar também vai afectar. Somos co-criadores do casamento”.

A grande diferença da abordagem deste especialista em relação a muitos outros terapeutas está na importância que atribui à dimensão espiritual da pessoa, uma descoberta que acabou por encaminhá-lo para o cristianismo, apesar de ter rejeitado o luteranismo em que foi criado e de ter procurado a felicidade em muitas outras tradições e religiões durante a sua juventude.

“Acabei por descobrir o catolicismo, que acho que representa o cristianismo de forma mais elaborada, mais eloquente e mais profunda e que se dá à terapia, uma vez que nos dá um conceito e uma compreensão do sofrimento humano. O que tenho notado nos meus clientes é que independentemente do problema que me apresentam, todos se encontram em profundo sofrimento, e sentem-se sozinhos com este sofrimento. Não é tanto o sofrimento que está em causa, é a experiência da solidão no sofrimento.”

“É aí que entra o cristianismo, Deus, na paixão de Cristo, faz-se próximo do nosso sofrimento”, explica.

O psicólogo explica, porém, que a falta de fé do cliente não é impeditiva de se usar esta abordagem. “Enquanto terapeutas é suposto intervirmos nestas dimensões do sofrimento e temos de ter um enquadramento para nós mesmos, caso contrário faz-se alguma coisa terapêutica só para distrair do problema, ou sugerir medicação que retire o sofrimento”.

Solução dois em um
Na opinião de Peter Damgaard Hansen um dos principais problemas da psicologia actual está no facto de rejeitar a religião e a espiritualidade. “A psicologia assumiu o carácter de uma nova religião, com um sacerdócio de psicólogos. Claro que os psicólogos têm muita sabedoria sobre os problemas do dia-a-dia, mas existe uma proposta sedutora de que através da terapia se pode alcançar a felicidade. Isso não se tem revelado correcto. Apesar de a disciplina ter crescido imenso, através de investigação, relatórios e estudos, a depressão e a doença mental continuam a aumentar. Falta alguma coisa, que é a dimensão espiritual.”

A solução não está na rejeição da psicologia, mas na junção das duas dimensões: “Vendo a psicologia não como um substituto da religião, mas como estando ao serviço do Espírito Santo, para ajudar a abrir a mente das pessoas e os bloqueios que as impedem de acreditar em soluções simples. A solução espiritual de admitir que precisamos de ser amados e que o amor existe é tão simples que é difícil para a mente moderna e complicada aceitar.”

Durante os dias que está em Portugal, Peter Damgaard Hansen fará uma série de conferências e workshops, organizados pela Associação de Psicólogos Católicos. Na quinta-feira à tarde fala a agentes da Pastoral da Família e no Sábado há uma sessão das 10h00 às 18h00 destinada a profissionais da área da saúde. Por fim, no dia 3 de Novembro, uma sessão aberta ao público, a partir das 21h30, no auditório de São João de Deus.