Crise impede tratamento urgente de hepatite C

28 jul, 2014 • Henrique Cunha

A denúncia parte do presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), Leopoldo Matos, nesta segunda-feira em que se assinala o Dia Mundial da Hepatite.

Nem todos os doentes têm acesso ao medicamento mais eficaz no combate à hepatite C, por causa da situação económica do país. A denúncia parte do presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), Leopoldo Matos, nesta segunda-feira em que se assinala o Dia Mundial da Hepatite.

Em entrevista à Renascença, Leopoldo Matos sublinha que a terapêutica em causa é eficaz a cerca de 97% dos casos. Em Portugal, há cerca de 150 mil casos de hepatite C, dos quais 700 muitos graves. A terapêutica mais eficaz tem custo elevado, da ordem dos 50 mil euros.

Contactado pela Renascença, o Ministério da Saúde remeteu para o Infarmed. Até ao momento, a autoridade do medicamento não respondeu à solicitação da Renascença.

Como caracteriza a evolução da hepatite C em Portugal?
A indústria colocou à disposição moléculas que conseguem erradicar o vírus em cerca de 97% dos doentes tratados. Simplesmente terão de ser as tutelas e a indústria a encontrar um modelo de financiamento e uma capacidade de tratamento que seja possível em mais doentes do que tem sido ultimamente.

A questão financeira tem sido um obstáculo ao combate à doença em Portugal?
Neste momento é. As situações muito graves têm sido possíveis de tentar resolver. Em relação às outras, que pretendíamos que não evoluíssem para situações graves ou muito graves e que deveriam ser tratadas para negativar o vírus que é o promotor da evolução da doença de fígado, não está a ser possível fazê-lo.

Pode indicar casos concretos?
Há situações graves e muitos graves e essas estão a ser estudadas e avaliadas caso a caso. Em determinadas situações, tem sido disponibilizada a terapêutica mais cara. Mas são casos pontuais. Agora, o que os médicos e os doentes pretendem é que as situações não cheguem a graves e muito graves e, por isso, defendem que se encontre um modelo de terapêutica mais precoce na evolução da doença e que se consiga, de facto, diminuir as situações graves e muito graves resultantes da infecção pelo vírus C do fígado.

O tratamento é muito caro?
O preço pode rondar 50 mil euros.

O modo como os responsáveis Estado olham para esta patologia é satisfatória?
Não. A nós, não nos satisfaz o modelo de solução que está a ser encontrado. Há uma proposta dos médicos para que, pelo menos os casos identificados a nível nacional como mais graves, possam ser imediatamente tratados. E pretende-se também, com a direcção geral de Saúde, fazer um plano de terapêutica da hepatite C. Esse plano poderia equacionar vários graus de gravidade dos doentes portugueses e encontrar um modelo de financiamento ao longo de dois, três quatro anos, até que fiquem todas essas questões financeiras resolvidas.

Quantos casos de hepatite C há em Portugal?
A ideia que se tem é de de existam cerca de 150 mil pessoas com a infecção. Nem todas as pessoas sabem que estão infectadas. Há um caminho de rastreio para ser feito.

É desse universo que podem surgir casos graves ou muito graves. Quantos?
Desses 150 mil, os doentes graves e importantes são muito poucos. Em Portugal, um levantamento recente aponta para 700 doentes que têm urgência de ser tratados com alguma brevidade.