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Reflectir sobre Auschwitz em tempo de atentados e genocídios

22 jan, 2015 • Maria João Costa

Esther Mucznik, a vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, lançou o livro "Auschwitz - um dia de cada vez". A obra propõe uma reflexão.

A história do cardeal Jean-Marie Lustiger, arcebispo de Paris entre 1981 e 2005 e que se tornou no único bispo francês a ter nascido judeu, é uma das histórias que Esther Mucznik relata no livro “Auschwitz – um dia de cada vez”. A obra agora editada pela Esfera dos Livros reúne uma série de testemunhos de sobreviventes de Auschwitz e histórias cujos percursos se cruzam com aquele que para a autora se tornou o campo de concentração “símbolo do mal absoluto”.

Uma dessas histórias é a de Aaron Lustiger que “nasceu em 1926, no seio de uma família judia polaca que emigrara para França" e que depois da ocupação da França pela Alemanha em 1940 é acolhido por uma família católica. “É aí que Aaron se converte ao catolicismo, contra a vontade dos pais, acrescentando o nome Jean-Marie ao seu próprio nome”, escreve Esther Mucznik que relata que a mãe deste que viria a ser o arcebispo de Paris morreu gaseada em Auschwitz.

Em entrevista à Renascença, a autora vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa explica que resolveu escrever esta obra porque “um dia um professor universitário alemão fez um seminário sobre o Holocausto e ouviu da maior parte dos alunos dizer: “Holocausto, outra vez!?”. Então ele fez um pequeno inquérito entre os alunos e concluiu que a saturação de que falavam era directamente proporcional à ignorância”. Com isto Esther Mucznik quer dizer que a sua ideia foi “juntar um grão de areia ao conhecimento do Holocausto”.

Depois de ter escrito a obra "Portugueses no Holocausto", Esther Mucznik lança agora este "Auschwitz - um dia de cada vez" porque diz também que é preciso reflectir. “Na realidade a História nunca se repete, mas vemos actos em que no âmago há coisas muito idênticas. Por exemplo, o arrogar-se o direito de decidir quem vive e quem deve morrer é, infelizmente, uma coisa que atravessa não só Auschwitz, mas todos os massacres.”

Esther Mucznik faz um paralelo. “Os atentados terroristas de Paris e outros que infelizmente observamos na Nigéria e em outros lados é também isso. São seres humanos que acham que têm todo o direito, em nome de Deus de tirar o direito à vida.  Espero que este livro seja uma reflexão sobre o passado e sobre o presente”, conclui.

A estudiosa de questões judaicas lembra que “o Holocausto é uma história humana, de homens, mulheres e de crianças que é ainda mais doloroso”, desabafa. No subtítulo deste livro Esther Mucnik usa uma expressão de um dos sobreviventes: “Um dia de cada vez”. Explica-nos a autora que quer dizer que “em Auschwitz não havia amanhã. Vivia-se o dia-a-dia. Porque reinava o arbitrário total, uma pessoa quando acordava de manhã não sabia se iria estar viva à noite. Portanto, era de facto um dia de cada vez”.