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Jesuíta admite intervenção militar na Síria

11 jun, 2012 • Filipe d’Avillez

O padre Paolo Dall’Oglio diz que a Igreja local tem sido instrumentalizada e que o país está claramente em guerra civil.  

Jesuíta admite intervenção militar na Síria
Siria, Deir Mar Musa
O padre jesuíta Paolo Dall’Oglio, que vive na Síria há 30 anos, acredita que o país se encontra em plena guerra civil e defende a necessidade de uma intervenção internacional. Em entrevista à Renascença o sacerdote diz que acredita no princípio de intervenções internacionais não-violentas, mas deixa em aberto a possibilidade de uma acção armada.

“Acredito numa intervenção militar não-violenta. Contudo, há alturas em que pode ser necessário uma intervenção, limitada no espaço e no tempo, a que chamo uma operação policial”, considera.

Este tipo de acção, reclama, não é incompatível com as posições da Igreja: “A Igreja acredita no direito à autodefesa. Há um dever de solidariedade para com as pessoas que se estão a tentar defender. Acredito que na maioria dos casos a não-violência é melhor, mas isso não implica abdicar dos direitos ou da solidariedade.”

O padre de origem italiana está na Síria desde 1982, quando fundou uma comunidade monástica no mosteiro de Deir Mar Musa. No início deste conflito, há mais de um ano, falou abertamente da necessidade de se procurar um consenso nacional, mas sempre temeu que a situação chegasse ao ponto em que está agora: “Nunca fui optimista! Em Janeiro de 2011 disse a um embaixador importante em Damasco que não esperava que a Síria mudasse depressa e de forma relativamente pacífica, como a Tunísia e o Egipto. Estava convencido que o perigo de guerra civil era uma realidade”.

Pela sua franqueza Paolo Dall’Oglio foi convidado a abandonar o país, mas acabou por permanecer, na condição de que não voltasse a falar de política. Agora, está de novo a transmitir a sua opinião publicamente: “Comecei a falar livremente e a bom som quando o Estado assinou um acordo com a Liga Árabe em que reconhecia o direito à liberdade de opinião e de expressão”, explica, mas logo remata: “Mas agora vou ter de abandonar o país, porque de facto essa liberdade não é reconhecida”.

A partida da Síria dar-se-á nos próximos dias, garante, e resulta de uma decisão da Igreja local. “A Igreja na Síria tem sido instrumentalizada para moldar a opinião pública a favor das prioridades do regime”, lamenta.

Guerra civil, étnica e religiosa
A posição dos cristãos em geral é mais complexa, garante o jesuíta de origem italiana. Paolo Dall’Oglio explica que na sua maioria os cristãos têm-se mantido neutros, mas nas regiões onde os combates se travam mais de perto a situação pode ser diferente.

“Nessas regiões a situação dos cristãos é muito complicada. É por isso que eles tentam emigrar, ou então são obrigados a tomar partidos. Na maioria desses casos tomam partido pelos alauitas, mas no geral mantêm-se neutros e, enquanto durar a guerra civil, tentarão emigrar”.

Os alauitas, como os cristãos, são uma minoria de cerca de 10% da população. A diferença é que dominam a maior parte dos aparelhos de Estado e das Forças Armadas. O presidente, Bashar al-Assad, por exemplo, é alauita, uma seita ligada ao Islão xiita. Já a maior parte dos sírios são sunitas, e estes compõem a espinha dorsal da oposição.

“Estamos numa guerra civil desde Junho de 2011. Não digo que não haja uma revolução, há uma revolução e uma guerra civil. Mas isto não quer dizer que todos os alauitas estão com o Governo, nem que todos os sunitas estão com a oposição. Nalgumas regiões, contudo, há uma luta étnica, não podemos se não reconhecer que há dois lados, um sunita e outro alauita”, explica.

Questionado pela Renascença sobre se existe um futuro para este regime, o jesuíta é franco: “Não me interessa o futuro do regime, interessa-me o futuro da Síria. As pessoas passaram um ponto a partir do qual não há retorno. Mas eu acredito no diálogo nacional, não para manter este ou qualquer regime, mas para obter o maior consenso possível, porque precisamos de uma Síria para todos os sírios”.