O Centro Social da Paróquia de S. Jorge de Arroios, em Lisboa, quer ir mais longe na ajuda que já presta a muitos idosos e criar uma linha telefónica de atendimento permanente. Para financiar o projecto, que já tem um ano, lança hoje o livro "Sentimentos de uma Vida", com as histórias de quatro dos seus idosos.
O Centro é pioneiro no apoio domiciliário à população mais velha de Lisboa: das 7h00 à meia-noite são apoiadas 85 pessoas, 14 recebem ajuda 24 horas por dia, e o Centro de Dia é frequentado por outras 70. Mas, no Ano Europeu do Envelhecimento Activo, o Centro Social quis ir mais longe na resposta às situações de solidão, que podem ser monitorizadas através do telefone.
Foi assim idealizado o projecto "Cuidar 24". Pedro Raul Cardoso, director do centro, explica à
Renascença que "o objectivo é trazer o conceito do
call center para a área social, montar um sistema onde permanentemente se possa estar em contacto com as pessoas, saber se estão bem e o que precisam".
Quatro exemplos de vida
A ideia do livro partiu do actor e manequim Alexandre Silva, que teve o pai como utente no Centro Paroquial de Arroios, mas foi a amiga Catarina Nunes, jornalista do "Expresso", que transformou em livro as conversas que teve com quatro idosos da instituição.
"Foi um bocadinho mergulhar no que é a cabeça, a vida, o mundo, o passado e o presente de uma pessoa mais velha. Nem foi preciso puxar muito, pois estas pessoas têm muita necessidade de falar", explicou.
São três mulheres e um homem, quatro exemplos de vida: "A D. Alda é a pessoa mais dependente e limitada. Está acamada por dificuldades de locomoção; a D. Adelaide, de 91 anos, trata de uma filha deficiente de 57 e diz que não pode morrer para a filha não ser institucionalizada. Tem a genica de uma mãe de 40".
Depois, há o Sr. Pinto com cerca de 90 anos. "Um enfermeiro reformado, com uma grande memória - conta histórias com detalhes - e que foi voluntário no centro, onde até fazia visitas domiciliárias. A D. Maria dos Anjos é a mais nova de todas, tem 68 anos, teve um tumor na medula e desde os 30 anos que está numa cadeira de rodas. Nunca casou nem teve filhos, vive sozinha".
Livro ajuda a desmistificar o processo de envelhecimento
O director Pedro Raul Cardoso diz que um dos objectivos da obra, escrita na primeira pessoa, é desmistificar o processo de envelhecimento. "São as pessoas que falam delas próprias, da sua história de vida, percebem o seu envelhecimento, são pessoas que tiveram uma vida muito activa, mas ficaram sós porque não tiveram rectaguarda familiar".
Já Catarina Nunes, a jornalista-escritora, acredita que outros idosos vão gostar de ler este livro, porque se vão rever nas suas histórias, mas também o aconselha às gerações mais novas, para entenderem melhor o processo de envelhecimento e olharem de forma diferente os seus idosos.
Em termos pessoais, diz ter sido muito enriquecedor escrever este livro: "Eu já não tenho avós e tinha com eles uma relação próxima. Por isso, foi um privilégio ter contacto com estas pessoas. E digo a quem tem avós: aproveitem a companhia deles, porque... acaba".
As histórias são intercaladas com textos e depoimentos de especialistas na área da saúde. O livro tem prefácios do ministro da Solidariedade, Pedro Mota Soares, e de Ruy de Carvalho. Será o actor a apresentar a obra hoje, às 18h00, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho, em Lisboa.
"Sentimentos de uma Vida" foi editado pelo próprio Centro Social Paroquial de Arroios, com o apoio da Pfizer e da Fundação Calouste Gulbenkian. Para já, o livro só está à venda na internet.
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