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Jemal, o muçulmano que se ofereceu para morrer com os cristãos

23 abr, 2015 • Filipe d’Avillez

Mais de uma semana depois do massacre de perto de 30 cristãos somalis pelo Estado Islâmico, surge a história improvável de Jemal Rahman: podia ter-se salvo, mas preferiu não abandonar o amigo. Acabou por morrer com ele.

Jemal, o muçulmano que se ofereceu para morrer com os cristãos
Chamava-se Jemal Rahman e não era suposto estar ali.

O vídeo divulgado pelo autodenominado Estado Islâmico indicava que os homens ajoelhados no chão algures na Líbia, preparados para morrer, eram todos cristãos da "Igreja Etíope hostil" e que por isso iam pagar com a vida, como já tinham feito 21 cristãos coptas antes deles e tantos outros na Síria, no Iraque e no Quénia.

Mas Jemal Rahman não era fiel da Igreja Ortodoxa Etíope, nem sequer era cristão. Era muçulmano e esse facto teria sido suficiente para o salvar, caso ele não tivesse feito o impensável.

Jemal ofereceu-se para ser refém para que o seu amigo cristão não morresse sozinho.

A informação foi avançada pela publicação MissionLine, do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME), que identifica como fonte um combatente do Al-Shabab, o grupo terrorista islâmico que combate na Somália, país que faz fronteira com a Etiópia.

Haverá diferentes versões sobre aquilo que se passou. Uma diz que Rahman se converteu ao cristianismo a caminho da Líbia, mas a segunda, considerada mais provável pelo PIME, é de que ele se ofereceu como refém para não abandonar o seu amigo cristão e talvez na esperança que a presença de um muçulmano entre o grupo de detidos levasse os captores a mostrar alguma misericórdia.

Essa esperança morreu na praia, literalmente, mas o exemplo de Jemal está agora a ser apresentado como prova de solidariedade inter-religiosa, numa altura em que as relações entre muçulmanos e cristãos estão particularmente difíceis, sobretudo no Médio Oriente e África.

A história de Jemal assemelha-se à de Mahmoud Al 'Asali, um professor universitário de Mossul que, aquando da ocupação da cidade pelo Estado Islâmico, se manifestou publicamente contra a expulsão dos cristãos, acabando por ser morto também.