Terra, tecto e trabalho são direitos sagrados, diz o Papa

28 out, 2014 • Filipe d’Avillez

“É estranho, mas quando falo destas coisas, alguns concluem que o Papa é comunista”, afirma Francisco.  
Terra, tecto e trabalho são direitos sagrados, diz o Papa

O direito à terra, a uma habitação digna e a um emprego são sagrados, disse esta terça-feira o Papa Francisco, numa audiência em que recebeu os participantes no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Roma.

Num longo discurso, em que o Papa adoptou um tom de grande proximidade e entusiasmo com as causas envolvidas, Francisco voltou a criticar muito o sistema económico actual.

“Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como uma mercadoria qualquer, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, desperdiçam-se toneladas de alimentos. Isto é um verdadeiro escândalo”, considera.

Depois de ter dito que os direitos à terra, a uma habitação digna e ao emprego são sagrados, e que isso é “doutrina social da Igreja”, o Papa deu o seu apoio à reforma agrária que tantos reivindicam: “Sei que alguns de vocês reclamam uma reforma agrária para resolver alguns destes problemas, e deixem-me dizer-vos que em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária torna-se, além de uma necessidade política, uma obrigação moral’”.

Contudo, Francisco alertou para a necessidade de qualquer mudança de sistema ser feita “com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência”, e deixou aos presentes um “guia de acção, um programa, podíamos dizer, revolucionário”: as bem-aventuranças, como são narradas nos Evangelhos.

Papa alerta para a inversão de prioridades
As grandes injustiças sociais, que segundo o Papa são muitas vezes disfarçadas por detrás de eufemismos, resultam de uma inversão de prioridades na economia. “Isto sucede quando no centro de um sistema económico está o Deus do dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo o sistema social ou económico tem de estar a pessoa, imagem de Deus, criada para ser o dominador do Universo”, realçou.

Passando para a questão da ecologia, que foi um dos assuntos debatidos pelos participantes no encontro, o Papa considera que: “Um sistema económico centrado no Deus dinheiro precisa também de saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético do consumo que lhe é inerente”. Francisco aproveitou ainda a ocasião para recordar que está a preparar uma encíclica sobre este tema.

Para além do sistema económico, Francisco criticou também o sistema político dizendo que é preciso encontrar um novo, que permita dar voz a movimentos e associações populares, como as que se encontraram em Roma: “Não é possível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação das grandes maiorias e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo de paz e de justiça duradoras exige que superemos o assistencialismo paternalista, exige que criemos novas formas de participação que incluam os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com esta torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum”.

Terminando, Francisco pediu a todos os presentes para dizerem com ele, em coro: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho confere”.

“É estranho, mas quando falo destas coisas, alguns concluem que o Papa é comunista”, brincou.