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Sabia que ser corrupto é como ter mau hálito? É o Papa que o diz

21 out, 2014 • Filipe d’Avillez

Num livro recém-chegado ao mercado português, o então Arcebispo de Buenos Aires fala de corrupção de uma forma que deve ser lida por todos. É o que diz o agnóstico Paulo Morais.

Sabia que ser corrupto é como ter mau hálito? É o Papa que o diz

A corrupção não é um pecado, nem um acto, é um estado e como tal não pode ser perdoado, apenas curado. É o que defende Jorge Maria Bergoglio, actualmente Papa Francisco, no livro "Corrupção e Pecado" (2005), editado recentemente em Portugal pela Gradiva.

A obra do então Arcebispo de Buenos Aires explora o tema da corrupção a partir de uma perspectiva religiosa. Mas o agnóstico Paulo Morais, que escreveu o prefácio da edição portuguesa, acredita que se trata de uma obra que não se destina exclusivamente a um universo religioso.

"Este é um livro que deve ser lido por toda a gente, desde logo porque o Papa faz o contraste da relação entre a religião e o pecado e a religião e a corrupção", diz à Renascença Paulo Morais, que é vice-presidente da associação Transparência e Integridade e estudioso do fenómeno da corrupção.

"O que o Papa defende ao longo das páginas é que o pecado perdoa-se, mas a corrupção jamais se pode perdoar, a corrupção tem de ser curada, não pode ser perdoada", diz.

Porquê? "O Papa entende que a corrupção é a assimilação permanente do pecado. Portanto, a partir do momento em que o pecado é assimilado permanentemente pelo humano, não há perdão que resolva o problema, até porque também não há arrependimento."

Esta distinção entre pecado e corrupção é mesmo uma das linhas centrais do livro, levando Bergoglio a exemplificar com alguns casos bíblicos de pessoas que se converteram quando contactaram com Jesus: "Alguém pode ser grande pecador e, porém, não ter caído na corrupção: talvez seja o caso de Zaqueu, Mateus, a Samaritana, Nicodemos, o Bom Ladrão, que tinham algo no seu coração que os salvou da corrupção".

Triunfalismo e proselitismo
Ao longo de cerca de meia-centena de páginas, as acusações de Bergoglio acumulam-se, concluindo numa série de características que são comuns aos estados de corrupção: "O pecador espera o perdão; o corrupto, por seu turno, não, porque não se sente em pecado: triunfou".

A este triunfalismo soma-se o proselitismo. Por oposição ao pecado e à tentação, que são "contagiosos", o corrupto procura activamente ganhar cúmplices, diz, por seu lado, Paulo Morais.

"O corrupto tem sempre tendência a criar um grupo de apaniguados à sua volta. Aliás, uma das características da corrupção, em particular a corrupção na política, é que ela faz-se em grupo. Inclusivamente, e o Papa refere isso ao longo do livro. O corrupto nunca tem amigos e inimigos, tem é cúmplices, que são aqueles que o acompanham e tem aqueles que obstam à corrupção, que entende como inimigos, mas a amizade é algo que o corrupto não conhece, porque apenas conhece a cumplicidade."

Todos estes factos, conclui o agora Papa Francisco, conduzem a uma obrigação moral de se denunciar, sempre que possível, a corrupção. Até porque, segundo o mesmo: "O corrupto não se apercebe da sua corrupção. Acontece o mesmo com o mau hálito".

Paulo de Morais concorda: "O Papa diz isto, justamente, chamando atenção para este facto e dizendo que a corrupção tem de ser denunciada. É talvez até o aspecto mais surpreendente do livro, o Papa faz um apelo forte à denúncia da corrupção. Uma vez que a corrupção não tem perdão, não há nada como ser denunciada para poder ser eventualmente curada, desde logo no plano social e, eventualmente, no plano individual. Há sempre arrependidos, sendo que o arrependimento na corrupção, infelizmente, não é comum."

"Manhas"
O título deste livro é "Corrupção e pecado" e a análise do Papa entra por vezes por uma linguagem e uma densidade que não são fáceis de acompanhar. Mas pelo meio há alguns comentários claríssimos e actuais, como numa nota de rodapé em que Bergoglio fala de uma mulher cuja carteira é roubada e que se queixa às amigas do estado a que chegou o mundo".

Mas, escreve o Papa, "a senhora em questão não pensa no modo como o seu marido, nos negócios, burla o Estado não pagando os impostos, como despede funcionários de três em três meses para evitar passá-los a contrato sem termo. O marido, e talvez ela também, faz gala publicamente destas manhas empresariais e comerciais."