RR
|

E se nascesse um território para os cristãos no Médio Oriente?

05 ago, 2014 • Filipe d’Avillez

Alguns cristãos no Iraque e países vizinhos reclamam a criação de uma região autónoma entre o Curdistão e o resto do país e pedem armas para as populações minoritárias no local se defenderem. Em entrevista, Mardean Isaac, activista assírio em Londres, explica estas pretensões.

Dezenas de milhares de cristãos oriundos do Médio Oriente manifestaram-se, em vários pontos do mundo, no último sábado, pela criação de um território autónomo onde os assírios (os cristãos nativos do Iraque e países vizinhos) possam viver em paz e segurança.

A ideia de criar um território seguro para os cristãos na planície de Nínive tem sido contestada pelos líderes religiosos cristãos da região, mas as recentes perseguições aos cristãos em zonas como Mossul e outras aldeias de maioria assíria no norte do Iraque levam Mardean Isaac, activista assírio em Londres, a exigir um estado semiautónomo e a criação de forças de defesa armadas, contrariando outro dos princípios advogados pelos patriarcas locais.

À Renascença, este activista, nascido em Londres mas filho de pai iraquiano e mãe iraniana, ambos assírios, explica o que é que pretendem estes cristãos que, nas redes sociais, têm usado as frases #DemandForAction e #SafeHavenNow.

Quantas pessoas participaram nas manifestações e quais as vossas exigências?
As manifestações decorreram em cerca de 30 cidades, numa dezena de países. Em termos de números foram entre 40 mil e 50 mil pessoas. Em primeiro lugar o que pedimos é o reconhecimento de que aquilo que se está a passar é limpeza étnico-religiosa. No Iraque não temos qualquer protecção. Fomos simplesmente entregues ao caos.
Depois, pedimos também a criação de uma região semiautónoma, na província de Nínive, onde possamos ser senhores do nosso próprio destino, sem estarmos à mercê de esquadrões de morte e grupos paramilitares e todos os outros que ocuparam o Iraque, reduzindo o seu exército a nada.
Queremos uma região onde possamos viver lado a lado com as outras minorias e onde possamos garantir o nosso próprio futuro.

Quem é que seria responsável por estabelecer esta província? A quem dirigem este apelo?
Este é um movimento que já existe há muito tempo, mas foi redinamizado ao longo dos últimos sete anos. Antes, fazíamos pressão junto ao Governo Federal do Iraque e dizíamos: “Olhem, há aqui uma região que é cobiçada pelo Curdistão e que fica entre o território que é definitivamente vosso e o território que é definitivamente deles. Nós queremos que se torne semiautónomo”.

Por isso, era proposto ao Governo Federal como resposta aos desígnios dos curdos, que continuavam a adiar um referendo na região, enquanto o povoavam com curdos. Mas agora a situação é muito diferente, uma vez que a maior parte da região já foi ocupada pelos curdos. Não há qualquer razão para acreditar que eles a queiram devolver, já expandiram o seu território em mais de 30%.

Nós não queremos um Estado, queremos uma parte do Iraque. Queremos autonomia, seja com os curdos ou com o Iraque. Seja como for, não é uma ameaça para ninguém armar grupos minoritários como os assírios, os yazidis ou os poucos mandeus que ainda existem. Estes povos não estão interessados em roubar terra a ninguém, apenas querem assegurar a sua.

Neste momento os curdos parecem ser aqueles que estão mais bem preparados para confrontar o Estado Islâmico e defender os cristãos na região.
Tem havido relatos de combates entre os curdos e o Estado Islâmico, mas até agora tinham um inimigo em comum. Os curdos tiraram o que quiseram ao Iraque e o Estado Islâmico também. Claro que quando esses territórios estiverem seguros não é certo o que se passará.

Os curdos acolheram os cristãos refugiados, mas estamos a falar de pessoas como os cristãos de Mossul que foram despojados de tudo, nem puderam trazer relógios ou anéis! Por isso, o facto de terem sido acolhidos por curdos e colocados em abrigos… pronto, tudo bem, mas não é nada de extraordinário.
Mas o Governo Regional do Curdistão tem muitas contas a prestar pela forma como nos tem tratado. Eles têm de parar de privilegiar os curdos na distribuição de licenças de construção, têm de parar de confiscar as nossas terras, todas estas coisas precisam de ser esclarecidas entre nós e os curdos. Mas há, sem dúvida, a possibilidade de se chegar a um entendimento.

Os curdos têm de abandonar esta atitude de insegurança e de desespero, que os leva a arrebatar todo o território que podem e impor uma hegemonia étnica. Até é compreensível, tendo em conta a sua história de inimizade com os árabes e com o Estado do Iraque, mas têm de perceber que sofremos juntos no norte, combatemos juntos contra Saddam, as nossas aldeias e os nossos tesouros também foram destruídos, temos uma história em comum.
E, por fim, têm de deixar de nos chamar cristãos curdos. Não somos curdos.

Até onde é que o vosso movimento pode ir sem o apoio dos líderes religiosos das comunidades cristãs, que têm sido praticamente unânimes ao dizer que não querem um território separado?
Recentemente o líder da Igreja Caldeia [igreja católica de rito latino e a mais representativa entre cristãos iraquianos ou de origem iraquiana] nos Estados Unidos disse uma coisa inacreditável. A sua posição é de que, uma vez que os caldeus habitam uma nação espiritual, não têm particular interesse em manter-se ligados aos territórios que deixaram no Iraque. Muitas das declarações dos caldeus têm sido para nós uma grande desilusão.

No que diz respeito aos líderes religiosos que continuam a ignorar a realidade política, eles merecem ser criticados. Nós não temos qualquer interesse em nos subordinarmos politicamente aos nossos líderes religiosos. No que diz respeito a questões de política e história, acho que as igrejas não devem desempenhar o papel principal, de todo.

Mesmo que consigam a autonomia, quem defenderia este Estado? Os bispos têm sido claros ao dizer que não querem ver milícias cristãs e que não querem responder a estas perseguições pela força. Há lugar para o armamento das comunidades cristãs no Médio Oriente?
Acredito que sim. Fico espantado quando oiço dizer que não devemos responder a estas perseguições pela força. Não temos qualquer interesse em usar armas se não para defender as nossas aldeias. Considero que esta posição dos bispos é politicamente cobarde e gostaria apenas de lhes perguntar o que deveriam fazer as pessoas que sabem que o Estado Islâmico está a horas de chegar às suas aldeias.

Aquilo de que precisamos é de forças de segurança oficiais, organizadas. Não queremos milícias nem grupos de homens com armas, queremos pessoas para proteger as aldeias e impedir ataques de grupos dedicados à pilhagem, porque é disso que estamos a falar.

Está-se a referir ao Estado Islâmico?
Mesmo o termo “Estado Islâmico” é absurdo. São um grupo desorganizado de jovens zangados e estúpidos que se juntaram para partir para uma matança. É como se estivessem a jogar videojogos. Assassinam pessoas indiscriminadamente. Nem são assim tantos. O exército iraquiano deveria ter-nos defendido, mas não o fez.

A todos os líderes religiosos que nos dizem “Somos cristãos, violência não é connosco”, só tenho a perguntar: qual é a alternativa então?