Perguntas e respostas

Quem são e o que querem os raptores das raparigas da Nigéria?

22 mai, 2014 • Joana Costa

Chocaram o mundo ao raptar no final de Abril quase 300 raparigas. Esta semana, mataram dezenas em vários atentados. O que os move?
Quem são e o que querem os raptores das raparigas da Nigéria?

Na sua luta sangrenta para derrubar o governo e criar um estado islâmico na Nigéria, o grupo terrorista Boko Haram raptou no final de Abril quase 300 raparigas, entre os 12 e os 18 anos, de uma escola. Esta semana, levou a cabo vários atentados dos quais resultaram dezenas de mortos e esta quinta-feira voltaram a matar (29 agricultores em Chukku Nguddoa, uma aldeia remota no nordeste da Nigéria).

O que é o Boko Haram?

"Qualquer um que não é governado pelo que Deus revelou, está entre os transgressores". Esta é a frase do Corão (livro sagrado dos muçulmanos) que segue e define o grupo que nem há um mês passou a fazer parte do léxico mundial, pelos piores motivos. O Boko Haram é um grupo militar islâmico responsável pelo sequestro de mais de 200 raparigas entre os 12 e os 18 anos, na Nigéria.

Em 2010, surgiram relatos de que tinha ligações à Al-Qaeda. Nesse ano, os EUA designaram-no como uma organização terrorista.

O que os move e como operam?
É através de actos violentos (sequestros, atentados e assassinatos) que, desde 2002, ano da sua fundação, o Boko Haram luta para derrubar o governo e criar um estado islâmico na Nigéria.


Deborah Peter, com 15 anos, conseguiu fugir aos raptores. Foto: Michael Reynolds/EPA

E quer fazê-lo da forma mais radical, seguindo uma versão do Islão que proíbe que os muçulmanos tomem parte em qualquer actividade política ou social relacionada com a sociedade ocidental, entre elas votar ou receber uma educação sem inspiração religiosa.

São-lhe atribuídos mais de 1500 mortos só este ano e ataques a escolas, liceus e universidades, mas os sequestros em massa de adolescentes são um facto novo.

O Boko Haram ataca apenas escolas e aldeias?
Não, o grupo militar islâmico é responsável pelos mais sangrentos atentados contra cristãos na Nigéria com centenas de mortos mos últimos anos.

Entre esses ataques estão os que atingiram várias igrejas quando se celebrava a Missa do Galo, no Natal de 2011, onde 40 pessoas perderam a vida após cinco atentados.

As aldeias que têm atacado são também aldeias cristãs, tal como muitas das meninas raptadas. Fazem-no porque querem impôr o Estado islâmico e erradicar do país todos os cristãos e outras minorias religiosas.

O que significa o seu nome?
Traduz-se como “a educação ocidental é proibida”. “Boko Haram” é uma versão curta do longo nome original árabe.

De onde vem a grande resistência à educação ocidental?
Temos de recuar até 1903 para perceber a sua aversão à educação de tipo ocidental. Nesse ano, aquilo que é hoje a Nigéria, o Níger e o sul dos Camarões caiu sob o controlo britânico.

Já nessa altura, muçulmanos da região recusaram enviar os filhos para as escolas administradas pelo governo colonial britânico.
 
Em 2002, um carismático clérigo muçulmano, Mohammed Yusuf, criou o Boko Haram em Maiduguri. Ali construiu um complexo religioso, com uma mesquita e uma escola islâmica, onde várias famílias muçulmanas pobres de toda a Nigéria matricularam os filhos.

Mas o interesse deste grupo militar islâmico vai muito além da educação. O seu objectivo político é criar um estado islâmico e a escola tornou-se num campo de recrutamento para “jihadistas”.

Quando é que o Boko Haram se tornou mais perigoso?
Em 2009. Foi o ano em que o Boko Haram intensificou os seus ataques, quer contra polícias, quer contra prédios governamentais da “sua cidade natal”. Seguiram-se tiroteios nas ruas, que resultaram em múltiplas mortes e na fuga de milhares de moradores.

Foi neste contexto que as forças de segurança da Nigéria tomaram a sede do grupo, capturando os seus combatentes e matando Mohammed Yusuf. Mas seria eleito um novo líder, Abubakar Shekau, que intensificou a luta.

Os ataques intensificaram-se nos últimos tempos?
Bombardeamento de igrejas, autocarros, quartéis e até mesmo sedes de polícia e da ONU na capital, Abuja. Tem sido este o modus operandi do Boko Haram.

Devido à escalada da violência, o Presidente Goodluck Jonathan declarou estado de emergência em Maio de 2013 nos três estados do norte, enviando tropas para Maiduguri. Seguiu-se a fuga dos membros do grupo em direcção à floresta Sambisa, ao longo da fronteira com Camarões.

A partir daí, os combatentes lançaram ataques em massa contra aldeias, numa espécie de alerta para a população rural não colaborar com as forças de segurança, como os moradores de Maiduguri tinham feito.

O que motivou o rapto das quase 300 raparigas em Chibok no final de Abril?
Na sua campanha contra a educação ocidental, o grupo já tinha atacado um internato em Yobe em Março. No final de Abril, sequestrou quase 300 alunas em Chibok, no estado de Borno, dizendo que iria tratá-las como escravas e casar com elas, numa referência a uma antiga crença islâmica de que as mulheres capturadas em conflito fazem parte do espólio de guerra.

O mundo está atento a estes massacres?
O Vaticano condenou o rapto das quase 300 raparigas, um acto de "terrorismo odioso". O padre Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, afirmou que estas acções “somam-se a outras formas horríveis de violência que há muito tempo caracterizam a actividade deste grupo” no país africano.

O Presidente dos EUA, Barack Obama, garantiu, numa entrevista à NBC, que vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a Nigéria a encontrar as raparigas raptadas e o chefe de estado francês, François Hollande, ofereceu-se para organizar uma cimeira sobre a segurança na Nigéria com dirigentes africanos.

Foi também criado um movimento informal que usa o lema #bringbackourgirls ("devolvam-nos as nossas meninas”). O membro mais famoso é a primeira-dama norte-americana Michelle Obama.

E Portugal?
O Parlamento português condenou o rapto de raparigas na Nigéria, aprovando por unanimidade, um voto de condenação a um "acto monstruoso".