A pobreza perdeu a vergonha

30 out, 2013 • Rosário Silva

“Se houver uma crise politica não há recuperação económica que lhe valha” alerta presidente da Cáritas de Portalegre-Castelo Branco. Instituição que perspectiva um 2014 duro para os portugueses, muitos dos quais já perderam a vergonha, “dão a cara” e pedem ajuda.
O presidente da Cáritas de Portalegre-Castelo Branco diz que “as medidas que estão a ser adoptadas em Portugal e o Orçamento para o próximo ano, perspectivam um agravamento da situação das famílias.”

Em declarações à Renascença, Elicídio Bilé sustenta que em 2014 “vai crescer o desemprego, vão diminuir os salários e as pensões e o poder de compra das famílias vai ser menor”.

Este responsável, a título de exemplo, sublinha que “só pelo simples anúncio de um Orçamento de maior austeridade “ é ainda mais notória “a sensação de desânimo, de desilusão e de falta de esperança que se vive no país”.

Mas há outra questão que preocupa o dirigente e para a qual é necessário alertar os portugueses menos esclarecidos.

“O problema é se também no campo politico nós temos uma crise e, se houver essa crise, não há recuperação económica que lhe valha. É isto que nós tememos”, invoca, para logo a seguir lembrar que a instituição tem um papel fundamental que é, precisamente, o de “devolver a esperança às pessoas através de uma intervenção e de um trabalho de proximidade para que estas não fiquem esmagadas pelo peso do sofrimento e que se abram novas perspectivas que têm de ser reais”.

O aumento da pobreza varre o país de Norte a Sul, sendo que na área da diocese de Portalegre-Castelo Branco, a instituição já apoia cerca de 4.500 famílias. Elicídio Bilé admite que há mais casos, dado que existem também outras instituições a prestar apoio a famílias carenciadas. Surpreendente, pelo lado negativo, é que a situação tornou-se de tal forma grave que “neste momento as pessoas que se tem dirigido a nós, e praticamente todos nos batem à porta, são também aquelas situações de pobreza envergonhada. Essas pessoas, essas famílias já estão a dar a cara porque a necessidade é crescente” lamenta o presidente da Cáritas diocesana.

Apesar de tudo, a mensagem tem de ser de esperança e, sobretudo, com a convicção de que esta “seja uma situação transitória, embora o próximo ano seja duro, mas que se consiga começar a vislumbrar alguma luz ao fundo do túnel. É preciso estarmos atentos”, refere, ao mesmo tempo que apela a “uma grande dedicação e ao dar as mãos para trabalharmos em conjunto pois só nesta medida é que podemos ajudar as pessoas a superar esta situação que é muito dura e muito difícil”.

Cáritas da Raia “trocam” conhecimentos e experiencias
É no âmbito de todas estas preocupações e com o desejo de concertar esforços para maior eficácia nas respostas sociais que há dois anos começou a ser preparado o projecto transfronteiriço “Rede de Apoio Mutuo de Cáritas Diocesanas da Raia”, que agora está em condições de avançar no terreno. Conta com o apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional e foi criado por três Cáritas portuguesas e quatro espanholas: Évora, Beja e Portalegre-Castelo-Branco e, do lado espanhol, de Ciudad Rodrigo, Coria-Cáceres, Mérida-Badajoz e Salamanca.

A vontade expressa passa pelo combate à pobreza e à exclusão social, com a ajuda desta plataforma informática que disponibiliza o maior número de recursos, nomeadamente ofertas de emprego e apoios complementares para quem mais precise. Várias instituições, como autarquias, forças de segurança, sindicatos, entre outras, já manifestaram desejo de se associar ao projecto que, diz Elicídio Bilé, “não vai gerar emprego, mas contribuir para dar a conhecer disponibilidades e ofertas de emprego, bem como acções de formação e de inserção”.

Se é relevante a vocação assistencialista da instituição, o que não está em causa, no momento actual torna-se também indispensável abrir novos horizontes e desenvolver acções direccionadas para a promoção e o desenvolvimento pessoal.