O PSD e o CDS decidiram convocar o primeiro-ministro para depor na comissão de inquérito parlamentar sobre o BPN, para esclarecer a intervenção de Passos Coelho na venda deste banco ao BIC. O primeiro-ministro terá a prerrogativa de depor presencialmente ou por escrito na comissão de inquérito.
A iniciativa conjunta dos deputados da maioria PSD/CDS foi transmitida pelo deputado social-democrata Carlos Abreu Amorim na sequência de declarações proferidas pelo presidente do banco BIC Portugal, Mira Amaral, que aludiu a uma intervenção de Pedro Passos Coelho neste processo.
Em declarações à agência Lusa e Antena 1, Carlos Abreu Amorim referiu que, na sequência das afirmações do presidente do BIC Portugal sobre "o papel predominante do primeiro-ministro na decisão e desfecho da reprivatização", o PSD e o CDS decidiram "convocar" Pedro Passos Coelho para depor na comissão de inquérito sobre o BPN.
"Face ao regimento em vigor, será prerrogativa do primeiro-ministro depor por escrito. O que nos interessa é que o primeiro-ministro esclareça totalmente as informações que agora foram aduzidas por Mira Amaral na comissão de inquérito", justificou Carlos Abreu Amorim.
Segundo o deputado do PSD, a perspectiva da maioria "é o esclarecimento total dos factos que estiveram na situação do BPN, designadamente na reprivatização".
Interrogado se o PSD acredita na versão apresentada por Mira Amaral na comissão de inquérito sobre o papel do primeiro-ministro, Carlos Abreu Amorim respondeu que é preciso deixar tudo claro. "Exactamente para que haja total esclarecimento, é que os grupos parlamentares do PSD e CDS tomaram esta iniciativa", disse.
Mira Amaral diz que foi Passos quem salvou o negócio
O presidente do BIC Portugal revelou esta sexta-feira na comissão parlamentar de inquérito que foi Passos Coelho que "salvou" o negócio para a venda do BPN ao BIC. Mira Amaral disse que foi próprio primeiro-ministro que pegou no telefone no final de Novembro para tentar desbloquear o processo.
“Qual não é a minha surpresa quando quarta-feira de manhã, às 8h15, de 23 de Novembro, o senhor primeiro-ministro me telefona a pedir se eu podia passar por São Bento às 19h00”, começou por contar.
Mira Amaral relatou que chegou à residência oficial do primeiro-ministro às 19h30 e “quem estava na reunião era o senhor primeiro-ministro, a senhora secretária de Estado do Tesouro e Finanças e eu”.
“E o senhor primeiro-ministro, com a simpatia que sempre teve para comigo, disse: 'Mira Amaral, como compreende, eu, como primeiro-ministro, tenho o dever de tentar fazer tudo para salvar a liquidação do BPN e apelo à sua boa vontade para conseguimos ter uma solução para salvar o BPN'.”
Segundo o presidente do BIC Portugal, foi um apelo à boa vontade que não teve qualquer efeito. “Saí de São Bento às 21h00, a dizer: 'Senhor primeiro-ministro, gostei muito de o ver, o assunto está fechado, eu nem sequer falo com os meus accionistas, porque os senhores não apresentam nenhum facto novo. Eu sou profissional. Isto não vai lá com simpatia'”, explicou ainda Mira Amaral.
“Qual não é o meu espanto quando, na sexta-feira de manhã, às 8h00, telefona o Dr. Fernando Teles [presidente do BIC] de Luanda a dizer assim: 'Engenheiro Mira Amaral, queria pedir-lhe o favor se pode ir comigo na segunda-feira ao gabinete do senhor primeiro-ministro, que ele telefonou de Lisboa para mim para eu ir falar com ele”, contou Mira Amaral.
O negócio da venda do BPN ao banco BIC foi fechado em Dezembro. O Banco Português de Negócios foi vendido por 40 milhões de euros.