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José Ferreira Machado

"Salário mínimo de 522 euros é sonho de Costa. Quando acordar será contra"

12 jan, 2015 • João Carlos Malta (texto) e Joana Bourgard (vídeo)

Director da escola de gestão da Universidade Nova critica o líder do PS por uma promessa que sabe que é irrealista e que não pode cumprir. Os salários são baixos porque são, defende. "É a economia".

"Salário mínimo de 522 euros é sonho de Costa. Quando acordar será contra"
"Salário mínimo de 522 euros é sonho de Costa. Quando acordar será contra"
Em entrevista à Renascença, o director da escola de negócios da Universidade Nova de Lisboa olha para o futuro da economia europeia e portuguesa, depois da saída da troika e a queda de colossos como o BES.

José Ferreira Machado, que cumpre o último dos dez anos como director da escola de negócios da Universidade Nova de Lisboa, vê o discurso optimista de Passos Coelho para este ano como parte da retórica eleitoralista. O primeiro-ministro está mais preocupado com 2016. "Em anos de eleições acontecem coisas mágicas. Há dinheiro que se julgava não haver", ironiza.

Em relação ao líder do PS, António Costa, não é mais meigo. A proposta de aumento do salário mínimo não tem viabilidade e deixa a certeza: "A ideia de dizer que o país precisa de um choque de rendimentos é a mesma coisa que dizer que a cura para a calvície é crescer cabelo".

A subida para 522 euros, uma promessa do líder socialista, não diminuirá as desigualdades, apenas aumentará o desemprego, argumenta.

Concorda com o discurso de Passos e Cavaco Silva? Os portugueses vão viver melhor em 2015? Já não há tantas nuvens negras?
Acho que é um discurso com tom eleitoralista, com toda a franqueza. Não me preocupa tanto 2015, mas 2016. E em anos de eleições acontecem coisas mágicas. Há dinheiro que se julgava não haver.

A factura vem em 2016. Vimos isso no passado, no último governo do engenheiro Sócrates com o aumento dos salários dos funcionários públicos em vésperas de eleições.

A propósito de remunerações. A promessa de um salário mínimo de 522 euros, como António Costa fez, é algo exequível? Ou é apenas mais um "sound bite"?
É um "sound bite". A ideia de dizer que o país precisa de um choque de rendimentos é a mesma coisa que dizer que a cura para a calvície é crescer cabelo. E depois? Como é que se promove um choque de rendimento? Como é que faz crescer cabelo na cabeça de um calvo?

Isto não quer dizer nada. São "sound bites". Mas são perigosos. Acho que grande parte do descrédito de um político é dizer essas coisas sabendo que não o pode fazer, não tem meios, e uma vez chegados ao poder obviamente não as vão fazer.

Não é possível?
O Estado não controla o rendimento das pessoas. Quem o controla são as pessoas e as empresas para quem elas trabalham. O salário mínimo já é 60% do salário médio. Os portugueses ganham pouco porque ganham pouco. Não é o salário mínimo que é alto ou baixo. Os salários são baixos em Portugal. É a economia.

Não seria uma forma de atenuar a desigualdade?
É uma forma de aumentar o desemprego. É uma forma de aumentar as importações. É uma forma de destruir os equilíbrios da economia. Sou totalmente contra, e tenho a certeza de que o doutor Costa, quando tiver acordado do sonho, também é totalmente contra.



A crise tocou mesmo a todos ou tocou mais a uns do que outros? Este período que vivemos aumentou ou reduziu desigualdades?
Isto é como o "Animal Farm" (Triunfo dos Porcos) do Orwell, todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros. Isso é da natureza das coisas. Quem tem mais tem outras possibilidades de se defender do que quem tem menos. A resposta à questão é, obviamente, não.

O economista francês Thomas Piketty sugere a aplicação de uma taxa de 80% sobre os rendimentos anuais acima de 500 mil dólares (cerca de 365 mil euros) para combater as desigualdades. Propostas como esta têm viabilidade?
Tenho as maiores dúvidas sobre os fundamentos científicos das análises do Piketty. Também tenho dúvidas de que no fim seja muito mais do que um "sound bite" semelhante ao choque de rendimentos. A França tentou com o Hollande criar uma taxa desse género para rendimentos acima de 500 mil ou 750 mil euros e o facto é que muito pouco dinheiro resulta daí. Não há assim tantas fortunas. Acho que não devíamos tributar tanto o capital, o que é ofensivo é o consumo extravagante.

O professor é líder de uma reputada escola de gestão. O ensino da gestão tem dado passos muito sólidos em Portugal com grande reconhecimento internacional. Como se justifica que a qualidade da academia não seja acompanhado na prática?
Não sei se a premissa é verdadeira. Há um estudo muito interessante sobre a qualidade da gestão em diversos países. A primeira conclusão é que há empresas bem geridas e mal geridas. Em Portugal, há muitas empresas que são mais bem geridas do que a média dos Estados Unidos. O que se passa em Portugal é que há uma proporção maior de empresas que são mal geridas. Não é tanto a média que interessa. Há empresas muito bem geridas.

Mas poucas?
Não. São relativamente menos. Há uma cauda de empresas mal geridas e isso está correlacionado com o nível de desenvolvimento. Há uma porção significativa [de empresas] que são muito bem geridas e são essas que contratam os nossos estudantes.

Mas os estudantes das escolas de negócios já estão em lugares de topo nas empresas ou ainda não? Há falta de formação na maioria dos lugares de topo das empresas?
Ainda não estarão nos lugares de topo porque é uma carreira. Uma empresa bem gerida aplica as técnicas de gestão correspondem às melhores práticas. Isso não significa que se tenha sempre lucro.

Quando as pessoas olham para este fenómeno pensam no BES, PT e BCP, em falhas óbvias de governação. As pessoas estão mais a pensar em falhas do controlo da gestão do que propriamente na gestão. Qualquer cadeira de gestão corporativa na minha faculdade identifica essas falhas. Mas os erros acontecem por  muitas outras razões: relações de força e interesses. Entre o que se ensina na academia e o que se passa nas empresas há a mediação de todos esses e outros factores.

Acaba o segundo mandato à frente da Nova Business School como o quinto melhor mestrado da Europa. Era o seu objectivo?
Ninguém tem um objectivo a 10 anos. Quisemos projectar internacionalmente a escola. Essa projecção seria medida pela sua capacidade de atrair alunos internacionais, e pelo respeito que lhe é dedicado pelo meio académico internacional. E isso nunca se traduziu em "rankings". Isso é uma consequência. O objectivo era ter uma instituição de qualidade internacional em Portugal. As formas concretas foram variando.

Numa autoavaliação, qual o grande marco da sua presidência? E o que quis fazer e não conseguiu? O mais e o menos.
O "mais" foi a forma como atacamos a oportunidade que Bolonha. Fomos a primeira escola que percebeu que Bolonha, mais do que uma ameaça, foi uma grande oportunidade. Porque libertava as escolas portuguesas dos constrangimentos de um mercado reduzido. Deu-nos a oportunidade de crescer num mercado de dimensão europeia.

Orgulho-me também de ter feito o MBA conjunto com a Universidade Católica. É muito difícil que duas escolas concorrentes cooperem para atingir um objectivo que é  maior do que elas.

Os aspectos mais negativos foram erros de gestão interna. Não termos prestado a atenção que devíamos à comunicação interna da estratégia. Não ser uma pessoa mais atenta aos detalhes da gestão quotidiana. São detalhes dessa natureza e não estratégicos.   

O problema das universidades portuguesas é a falta de dinheiro ou as deficiências de gestão?
O que falha é o contexto regulatório em que as universidades se movem. As universidades têm um patrão [o Estado] que não lhes dá dinheiro. O que é OK. Mas tem ao mesmo tempo, um patrão que os impede de obter dinheiro. É um patrão que diz: não tenho dinheiro e se tu ganhares eu vou recuperá-lo. É um contexto que trata as universidades como meras repartições públicas.