Foi perto da costa turca, entre o Mar Mediterrâneo e o Egeu, que da ilha grega de Leros partiu um comandante da Marinha de apelido Bennis para servir na Segunda Guerra Mundial. Uma úlcera obrigou-o a uns dias de recobro, onde foi tratado por uma enfermeira da Cruz Vermelha Portuguesa. Apaixonaram-se, vieram para Lisboa e ,após um longo namoro, imposto pelos pais da rapariga portuguesa, acabaram por casar e constituir família.
Hoje com 63 anos, Miguel, um dos filhos do casal, olha para a situação política no país do pai com apreensão, mas também com esperança. Da perspectiva de alguém com profunda experiência tanto de Portugal como da Grécia, o analista de sistemas, agora reformado, admite algumas parecenças entre os portugueses e os gregos, mas rejeita comparações no que toca à situação financeira dos dois países.
“Como Portugal, a Grécia é um país que se mistura. Até são parecidos socialmente, no ‘facias’ [rosto] ”, “e gostam muito das coisas portuguesas. A Amália, por exemplo, acho que a Grécia era o terceiro país onde vendia mais discos, a seguir à França”, conta Miguel Benis, cujo apelido perdeu um “n” com o passar dos anos.
Miguel passou parte da infância na ilha de Leros com a irmã mais nova e a avó paterna, até voltar a Portugal, onde vive desde os 11 anos. Voltava à Grécia - ano sim, ano não -, manteve sempre o contacto com esse lado da família e fez questão de ensinar a língua aos filhos.
A descrição dos dois meses de Verão que passava em Leros ecoa memórias de um certo Portugal. “Na casa do meu avô, era uma casa não muito grande, mas a mesa para os primos começava na cozinha, passava pela sala, ia pelo quarto do meu avô, dava a volta à casa e eramos 46 pessoas à mesa sistematicamente. Era uma alegria enorme.”
Hoje, o analista refere que “até causa um bocadinho de embaraço e de desconforto notar” que Portugal se quer marcar pela diferença, dizendo: “Não somos como os gregos!”.
Países com história mas de costumes diferentes
Como nós, a Grécia não é um país recente. Embora dominada pela vizinha Turquia, manteve a liberdade de culto e alguma autonomia administrativa, viu implementada a democracia moderna conquistada à “ditadura dos coronéis” no mesmo ano que em Portugal se dava o 25 de Abril. Na altura, a Grécia tinha cerca de um terço dos contribuintes de Portugal.
Sofreu com a Segunda Guerra Mundial e a subsequente guerra civil. Por isso, diz Miguel Benis, “os gregos têm uma grande consciência nacional, não são bairristas, mas sadiamente patriotas”. Mas a crise da dívida na Zona Euro mostra os seus efeitos acentuadamente na Grécia, que já recebeu 110 mil milhões de euros em ajuda externa e ainda um relutante perdão de dívida.
“Nas grandes cidades, e passei por Atenas em Outubro, notei uma grande depressão nas pessoas. Depressão no aspecto - notava-se as coisas menos cuidadas, mais lixo que o habitual, as coisas não estão bem como costumavam estar. É um efeito visível. E as pessoas talvez um bocadinho mais agressivas”, conta o luso-grego.
A poucos dias de uma segunda volta de eleições entre planos de austeridade sucessivos, especulações sobre a saída do euro e um cenário político precário que não deixa prever resultados, os gregos têm, mais uma vez, de escolher quem vai governar o país e navegar a profunda crise económica e social.
Quanto aos múltiplos protestos do povo e em especial da juventude grega, Miguel Benis aponta que “os gregos, por tradição, são mais agressivos e mais dados a extremarem posições e a radicalizarem o discurso. Não são tão de brandos costumes como nós”.
A isso se deve também, considera, o resultado surpreendente nas eleições de Maio, que deram força ao Syriza, o partido da esquerda radical. Se na altura se tratou de uma penalização à inconstância do Governo, agora os analistas políticos consideram mais provável que no dia 17 haja um regresso ao arco de governação que tem alternado desde os anos 70 entre os socialistas do PASOK e os sociais-democratas do Nova Democracia.
As eleições que jogam o futuro de 17 países
Os gregos têm no domingo uma nova oportunidade para participar no futuro do país, ainda que as sondagens internas dos partidos prevejam que nenhum terá condições para governar sozinho.
A saída do euro é vista como “uma desgraça” aos olhos de Miguel Benis. Perturba-lhe a ideia, mas considera haver “sinais muito positivos de que a Grécia possa voltar a integrar a normalidade dos países europeus”.
Quanto à pressão externa, o analista desvaloriza. “As coisas que a directora do FMI e a Angela Merkel têm dito são uma pressão psicológica para que a Grécia vote de determinada maneira. Se vão ter sorte nos seus desidérios [desejos], no dia 17 se saberá.”