O porta-voz do Estado Maior General das Forças Armadas da Guiné veio esta tarde a público esclarecer que foi o clima de mal-estar causado pela missão angolana na Guiné que motivou o golpe militar desta quinta-feira à noite.
Segundo o tenente-coronel Dabana Na Walna, o golpe foi levado a cabo por um grupo selecto, mas foi assumido pelo Estado Maior General das Forças Armadas para evitar que o poder caísse na rua.
“Foi dirigido por um grupo, intitulado 'Comando Militar'. Mas o Estado Maior General das Forças Armadas entendeu que o poder não podia cair na rua e resolveu assumir a busca de uma solução política para ultrapassar este impasse”, afirmou.
Na Walna acrescenta que o golpe depôs o primeiro-ministro e o Presidente interino e afirma que no fundo da questão está a missão angolana na Guiné, a MISSANG.
“Tudo isto começou com um clima de mal-estar que começou desde a chegada dos primeiros armamentos da MISSANG a Bissau, passando por várias etapas até chegar ao momento em que o embaixador de Angola teve a veleidade de ir ao Estado-Maior General acusar o Chefe de Estado Maior de estar a preparar um golpe de Estado."
Mais tarde terá surgido a informação de um documento secreto a convidar os angolanos a intervir militarmente no país: “Este clima arrastou-se até aqui, envolvendo o Governo e as Forças Armadas. Depois, recebemos notícias fidedignas de que existe um documento secreto no qual o Governo solicita, através de Angola, a intervenção de forças estrangeiras aqui. Tudo isso acabou por precipitar os acontecimentos”, explica Na Walna.
O porta-voz afirma que os militares não querem manter o poder, mas sim procurar uma saída política: “Agora estamos à procura de uma saída política para esta crise e estamos a procurá-la com a classe política. Não há uma proposta em concreto”.
Questionado pelos jornalistas, o militar não esclareceu onde se encontram o Presidente e o primeiro-ministro, dizendo apenas que ambos se encontram bem.
Missão problemática
A presença de militares angolanos na Guiné nunca foi pacífica. A sua entrada no país, há cerca de um ano, foi a única maneira de manter ligados a Bissau os doadores, mas esta opção nunca caiu bem junto dos militares guineenses.
No auge desse incómodo, e já esta semana, o ministro angolano das relações exteriores foi a Bissau e explicou que, perante a oposição de alguns sectores guineenses, decidiu retirar a missão do país. Os termos dessa retirada estariam agora a ser negociados.
Esta decisão surgiu um dia depois de um violento comunicado em que o Gabinete do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, António Ndjai, ordenava a saída dos angolanos por alegados sinais de que a missão angolana estava a ir muito além do seu mandato, recebendo em segredo armas e viaturas de guerra, bem como equipas especiais de combate e abrindo uma estrada de ligação à Guiné-Conacri, tudo em segredo e à revelia das forças armadas guineenses.