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"O 'in' ou 'out' do Reino Unido na UE é o debate chave”

07 mai, 2015 • José Bastos

Nigel Farage, Nick Clegg ou Nicola Sturgeon podem ser os nomes decisivos nas contas eleitorais de David Cameron ou de Edward Miliband. Em entrevista, o analista de política internacional Bernardo Pires de Lima diz o que está em causa.
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“O que está verdadeiramente em causa nestas eleições é a permanência do Reino Unido na União Europeia”. A opinião é expressa à Renascença por Bernardo Pires de Lima.

Para o analista de política internacional, ninguém ganha todos perdem - União Europeia e Reino Unido - com um eventual virar de costas de Londres a Bruxelas.

Com todas as sondagens a apontar para um empate técnico entre o Partido Conservador e o Partido Trabalhista, as eleições desta quinta-feira produzem mais incógnitas do que certezas. “Os pequenos partidos podem ser a chave”, defende o analista numa entrevista em que se fala também de Nigel Farage, Nick Clegg ou Nicola Sturgeon, líderes partidários decisivos nas contas eleitorais de David Cameron ou de Edward Miliband.

No Reino Unido a indefinição política irá perdurar muito além da próxima madrugada?

Podemos estar a entrar numa certa revolução no sistema eleitoral britânico, sendo que esta não é verdadeiramente uma eleição britânica. É, sobretudo, uma eleição inglesa. É na Inglaterra, centro, norte e sudoeste, que se concentram os círculos eleitorais com resultados mais imprevisíveis, mais "tremidos". Portanto, é verdadeiramente na Inglaterra, e não no resto do Reino Unido, que esta eleição se joga. É certo também que os partidos das outras nações do Reino Unido podem acabar por vir a ser preponderantes na formulação de qualquer coligação política estável.

No Reino Unido, estamos a entrar numa fase de se aprender a fazer compromissos interpartidários de longa duração, quando não havia essa cultura política, esse historial de diálogo. Os programas partidários são profundamente antagónicos para negociações de compromissos de longa duração. Há, aqui, a entrada numa nova fase, com um ponto de interrogação muito grande, no sentido de saber como será a resposta dos líderes. Mas há também uma conjugação de indefinições que podem, no limite levar a uma "grande coligação". Este não é um cenário muito trabalhado do ponto de vista mediático, mas vamos ver como reagem aos resultados eleitorais as empresas, a bolsa, as associações industriais, toda a economia real que tenta inverter o ciclo de crise.

Quais são os vectores de indefinição?
São três. Por um lado, a existência de uma coligação que dê a garantia temporal de estabilidade política. O segundo é a continuidade do Reino Unido na União Europeia. Esta campanha não trouxe a Europa para o centro do debate, mas é, verdadeiramente, esta a questão que está em cima da mesa. Saber que constelação de partidos vai estar comprometida com o "sim" no referendo de 2017 à continuidade na Europa. Em terceiro lugar, saber como se gere, do ponto de vista das finanças públicas, um cenário que não é propriamente de aumento do rendimento no bolso dos cidadãos. Portanto, há aqui variáveis que podem levar à formalização de acordos quase por obrigação para responder a todas estas indefinições.

Nesse sentido, há mais condições para compromissos à esquerda?
Há maior proximidade programática entre o Partido Trabalhista e o Partido Liberal Democrata do que entre o Partido Conservador e o Partido Liberal Democrata, o Lib-Dem. A começar pelo compromisso de manutenção do Reino Unido na União Europeia. E, quanto à incógnita que pode resultar da incompatibilidade de juntar no mesmo governo liderado por trabalhistas, o SNP (nacionalistas escoceses), e os liberais? Este é um cenário não inviabilizador de um governo minoritário Labour (trabalhistas)/Partido Liberal Democrata.

Acho que o momento de grande indefinição que se vai viver a partir desta sexta-feira, dia 8, vai obrigar a convergências mais ou menos forçadas. Apesar de tudo - e até porque a proliferação partidária é maior à esquerda - há mais condições para que as coligações se possam fazer justamente aí, à esquerda, eventualmente, até, com os Verdes incluídos. Isso não significa que o SNP - Partido Nacionalista Escocês chegue ao governo.

Pode surgir um acordo parlamentar com um governo minoritário entre os trabalhistas e os liberais-democratas. Pode haver um acordo escrito que preveja o apoio durante uma legislatura, mas, ainda assim, não isso é garantido, porque o SNP tem uma base programática instável e tendencialmente perturbadora do sistema.

Já à direita e tendo em conta as sondagens que dão uma maioria de mandatos ao Partido Conservador, obrigando-o a iniciar o diálogo para uma coligação, pode ser que os liberais-democratas possam ser esse "player" que possa jogar tanto à esquerda como à direita. Um cenário em que a coligação de 2010 possa ser revitalizada, embora já não nos mesmos planos de confiança, porque o Lib-Dem sofreu grande desgaste com a governação e muitos sectores do partido estão contra a validação de um novo ciclo com David Cameron à frente da governação.

Já os pequenos partidos poderão, em função dos resultados servir de muleta de acordos parlamentares nas principais votações: orçamento e programa de governo. Os pequenos partidos podem ser a chave de uma coligação estável no Reino Unido.

Ainda não se falou de Nigel Farage e do UKIP...
Por demérito próprio e porque o sistema privilegia os dois grandes partidos, não falamos de Nigel Farage. Ele, em rigor, não é personagem central nesta campanha. Os resultados destas eleições podem obrigar, de facto, a uma reformulação do próprio sistema eleitoral. Mas Nigel Farage tem um problema crónico. Desde logo, o programa político redutor. O antieuropeísmo primário e uma agenda contra a imigração também absolutamente radical. Não tem mais.

Quando se chega a eleições legislativas, e não apenas para o Parlamento Europeu, os eleitores são sensíveis a estas debilidades. Farage pode nem ser eleito para Westminster, como Nick Clegg, líder do Lib-Dem, ou como Nicola Sturgeon, líder do Partido Nacional Escocês, que nem sequer concorre.

Podemos, então, ter dois líderes partidários que podem ser a chave de qualquer coligação ausentes do parlamento em Westminster. A falta do peso institucional do cargo pode levar a que sejam mais reféns das bases partidárias numa eventual negociação e com isso serem menos sensíveis ao compromisso político.

E, visto da Europa, o que mais interessa?
É do interesse da Europa manter o Reino Unido dentro da União. Desde logo, o abandono representava uma quebra de 11% na contribuição para o orçamento comunitário. Seria também uma queda muito significativa no PIB dos países da UE. Seria retirar a quinta maior economia do mundo do "bolo" europeu. Haveria também um desequilíbrio geopolítico.

A "continentalização" de um centro - já mais ou menos evidente - seria motivo de maior tensão entre os Estados-membros. A relação das UE com os Estados Unidos seria prejudicada e, portanto, não vejo nenhum benefício para os estados membros da UE com a saída do Reino Unido. Não antecipo também nenhum benefício para o Reino Unido.

Acho que é isto que verdadeiramente está em causa, nestas eleições. Uma constelação política à esquerda mais comprometida com a manutenção do Reino Unido na Europa e, à direita, uma constelação que pode levar a que essa permanência possa estar em causa.

São esses os riscos do referendo de 2017 prometido por David Cameron?
David Cameron jogou cartadas muito arriscadas, porque o compromisso com esse referendo acabou por ser decisivo para a sua própria liderança do Partido Conservador. O problema é, tendo em vista convergências em coligações pós-eleitorais, ser preciso os partidos comprometidos com a realização desse referendo de tudo ou nada, o 'in' ou o 'out'. É o futuro político de Cameron que está aqui em jogo.

David Cameron não foi capaz de elaborar uma agenda alternativa ao crescimento do UKIP centrada numa direita moderada, obviamente capaz de defender os interesses do Reino Unido. Os interesses do Reino Unido estão melhor defendidos com a permanência na União Europeia do que fora dela. Cameron não garantiu nenhuma alternativa à permanência do Reino Unido na UE. Ao contrário, o abandono implica custos brutais para a economia do país, contracção de investimento, taxas alfandegárias deixam de estar abrangidas pelas regras do mercado único.

Há um conjunto de factores que podem trazer grande instabilidade à economia, provocando a deslocalização de empresas e quedas na receita fiscal. Há toda uma unidade do estado que pode ser comprometida. Não se pode esquecer que as regiões mais pobres do Reino Unido são as que mais dependem das trocas comerciais com os outros países da União Europeia. 45% das exportações do Reino Unido dirigem-se à União Europeia. É um mercado absolutamente crucial. Vejo este debate como o verdadeiro debate estratégico.

O futuro do Reino Unido na Europa é debate mais importante a resultar desta eleição e a marcar as negociações que vão ser exigidas a todos os partidos depois da noite deste 7 de Maio e madrugada do dia 8.