A astrónoma portuguesa que cuida do telescópio Hubble

18 abr, 2015

O Hubble, que revolucionou a astrofísica com as imagens que captou a partir do espaço, comemora 25 anos sobre a sua colocação em órbita pelo vaivém espacial Discovery.

A astrónoma portuguesa que cuida do telescópio Hubble

Cristina Oliveira é astrónoma e coordena uma equipa responsável por garantir o bom funcionamento de dois instrumentos do Hubble, o telescópio que revelou a idade do Universo e que na sexta-feira completa 25 anos no espaço.

O telescópio foi lançado para a órbita da Terra em 24 de Abril de 1990, a bordo do vaivém espacial Discovery, e surpreendeu os cientistas ao desvendar que o Universo se expande de forma mais acelerada que o esperado.

"Foi uma surpresa para todos os cientistas", assinalou à Lusa Cristina Oliveira, a única portuguesa que trabalha directamente com o Hubble, no Space Telescope Science Institute, em Baltimore, Estados Unidos, instituto que assegura a operacionalidade científica do telescópio espacial.

Cabe à equipa da astrónoma portuguesa acompanhar o desempenho dos espectrógrafos STIS, que observa vastas áreas como galáxias, e COS, dirigido para pontos de luz, como estrelas e quasares.

"O Hubble foi, e é, extremamente importante para a ciência, mostrou o universo com um nível de detalhe que nunca tinha sido possível antes, destruiu teorias e fez com que outras avançassem", sustentou Cristina Oliveira.

Graças às imagens de supernovas (explosão de estrelas) distantes captadas pelo telescópio, os astrofísicos Saul Perlmutter, Adam Riess e Brian Schmidt ganharam, em 2011, o Prémio Nobel da Física.

Concluíram, pela medição do brilho de supernovas em galáxias distantes, que o Universo está a expandir-se de modo acelerado, ao contrário do que se pensava. O telescópio deve o seu nome a Edwin Hubble (1889-1953), astrónomo norte-americano que descobriu que o Universo estava a expandir-se.

A revelação da idade do universo e do nascimento das galáxias
Ao permitir observações que não seriam possíveis com telescópios terrestres, devido às distorções de imagem e luz provocadas pela atmosfera, o Hubble fez outras revelações, como a da colisão do cometa Shoemaker-Levy 9 com Júpiter, a de que a idade do Universo é de cerca de 14 mil milhões de anos e a de que a maior parte das galáxias, incluindo a Via Láctea, onde se situa o sistema solar a que pertence a Terra, tem buracos negros no seu centro.

"Mostrou-nos galáxias a nascerem, a colidirem, sistemas solares a nascerem e teve um papel central na descoberta de que cerca de 70% do Universo é constituído por energia escura, que ninguém sabe o que é", acrescentou a astrónoma portuguesa, lembrando que antes do Hubble "não se sabia exactamente como as galáxias se formavam ou como a matéria que está no espaço intergaláctico faz com que as galáxias cresçam e se desenvolvam".
 
O telescópio possibilitou ainda obter uma "imagem directa" de um planeta de outro sistema solar e descobriu na atmosfera de um planeta extrassolar uma molécula de metano, "que, sob as condições ideais, pode estar ligada com a existência de vida", apontou.

Todas as zonas do céu, descreve Cristina Oliveira, "estão abertas ao Hubble". Quando o telescópio "está a olhar para uma região do céu durante muito tempo", corpos celestes que "são muito fraquinhos, que não são visíveis de outra maneira, aparecem".

Numa fracção do céu, do tamanho da Lua Cheia, ilustra, "existem mais de dez mil galáxias". Com o Hubble, explicou a astrónoma, "estamos a vê-las quando eram muito mais novas, algumas quando tinham apenas poucos milhões de anos após o Big Bang", o "fogo-de-artifício" de partículas que marca as origens do Universo.

Hubble está a ficar “velhinho” e precisa de actualizações
O telescópio foi concebido na década de 70, mas de maneira que os astronautas pudessem reparar e substituir os seus instrumentos quando fosse necessário. Uma inovação, de acordo com Cristina Oliveira. "Isso fez com que novos instrumentos pudessem ser desenhados e planeados tendo em conta os desenvolvimentos tecnológicos", frisou.

Apesar do avanço que representou, o telescópio está agora "um pouco velhinho" e, a partir de 2020, "há uma certa probabilidade de alguns sistemas começarem a falhar".

O prolongamento da sua vida para lá desta data depende, na óptica da astrónoma, do interesse da comunidade científica em mantê-lo, dos resultados científicos, mas sobretudo do dinheiro para continuar a fazer actualizações dos sistemas.

Manter o Hubble activo custa cem milhões de dólares (93 milhões de euros) por ano, precisou.

As agências espaciais norte-americana (NASA) e europeia (ESA), que suportam o telescópio, estão a tentar desenvolver uma missão para descodificar o novo mistério do Universo, a energia escura, "uma missão bastante cara", disse.

Nem o Hubble, nem o seu sucessor, o telescópio “James Webb”, que tem lançamento para o espaço previsto para 2018 para estudar o Universo primordial foram concebidos para desvendar o mistério da energia escura. Mas, muitas vezes, há surpresas, admite Cristina Oliveira. E o Hubble já o provou.

25 anos da revolução da astrofísica
O telescópio Hubble, que revolucionou a astrofísica com as imagens que captou a partir do espaço, comemora na sexta-feira 25 anos sobre a sua colocação em órbita pelo vaivém espacial Discovery.

O Hubble fotografou buracos negros e captou a existência de quatro luas de plutão - Nix, Hidra, Cérbero e Estige - até então desconhecidas, permitiu a observação do nascimento e da morte de estrelas e de galáxias longínquas, revelou que o universo está a expandir-se a um ritmo mais elevado do que se supunha e mostrou aspectos desconhecidos dos planetas Saturno, Júpiter e Plutão.

Uma das mais conhecidas imagens captadas pelo Hubble ficou conhecida como "Os Pilares da Criação", três colunas de poeira cósmica, onde acontece o nascimento de estrelas, na nebulosa da águia.

Outra imagem do Hubble que correu mundo foi a do campo ultra-profundo, que mostra galáxias, estrelas e objectos muito distantes, classificada como o retrato mais completo do universo visto no espectro visível.

A capacidade do Hubble de perscrutar os confins do universo significa que em muitos casos os corpos celestes que o telescópio revelou à ciência já terão deixado de existir quando a sua luz chega aos espelhos e lentes do Hubble.