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Francesc Trillas Jané

"Queixas de falta de liberdade e de bem-estar são ridículas"

18 set, 2014 • José Bastos

Professor de Economia na Universidade Autónoma de Barcelona não acredita numa Escócia nem numa Catalunha prósperas fora da União Europeia. Em entrevista à Renascença, o catalão, opositor destas independências, defende "uma Europa federal que funcione melhor”.

A Escócia não é a Catalunha. A Catalunha não é a Escócia. Diferentes, mas com pontos em comum?

Em ambos os casos, a campanha nacionalista assenta no argumento de um modelo social em perigo por causa da austeridade. E também no desenhar uma sociedade próspera e mostrar tranquilidade face a incertezas comuns (como a continuidade na União Europeia ou no Euro), marcas para alimentar o alvoroço dos sentimentos.

Agora que o impacto do referendo escocês ameaça atravessar as fronteiras britânicas, exacerbar outras aspirações nacionalistas, Francesc Trillas Jané, professor de Economia na Universidade Autónoma de Barcelona, diz ser melhor “não arriscar e trabalhar por uma Europa federal que funcione melhor”.

Catalão, Francesc Trillas Jané é investigador da London Business School e da Universidade da California, Berkeley.

"Promover a soberania nacional como sinónimo de liberdade e garantia de maior bem-estar carece de sentido no século XXI", afirma em entrevista à Renascença.

Escócia e Catalunha são realidades parecidas, mas não iguais, sugerem analistas. Quais são as semelhanças e as diferenças?
As similitudes são tratar-se de duas regiões relativamente ricas, cujos governos utilizam os amplos recursos da descentralização para promover a secessão.

Os governos regionais baseiam-se em sentimentos nacionalistas vagos, vazios e imprecisos, para promover algo a carecer de sentido no século XXI: a soberania nacional como sinónimo de liberdade e garantia de maior bem-estar.

As diferenças são que na Escócia é possível fazer um referendo legal sobre a independência e em Espanha não, porque no Reino Unido não há restrições constitucionais.

Na Escócia o independentismo é mais europeísta que o governo britânico, enquanto na Catalunha o movimento secessionista é mais eurocéptico do que as posições de quem defende algum modo de convivência com Espanha.

Os independentistas escoceses, finalmente, estão muito mais unidos e coesos que os catalães, sendo estes uma estranha coligação de neoliberais e radicais de esquerda.

Defende haver diferentes sensibilidades em Londres em Madrid: o que "dói" a Londres é o diluir autonomia nas instituições europeias e em Madrid o ceder poder à Generalitat, o governo autónomo, em Barcelona? É isso?
A Generalitat já tem muito poder. Do que o actual governo espanhol é incapaz é de apresentar uma proposta federal de revisão constitucional, que dê maior estabilidade e robustez ao sistema autonómico. A direita espanhola, por seu turno, é menos eurocéptica que a britânica.

Que diferenças são detectáveis nos sentimentos identitários de Catalunha e Escócia?
O sentimento identitário catalão é mais baseado na língua, mas a emotividade nacionalista e a retórica são parecidas.

E diferenças na natureza independentista? Escócia já foi independente, a Catalunha não. Há um nacionalismo mais “light” na Escócia e na Catalunha “o direito a poder decidir” precede o “sim à independência” radicalizando o debate?
São movimentos que apresentam diferentes recursos retóricos, mas tudo incluído numa lógica semelhante de imprecisão, vazio e confusão para conseguir arrastar atrás de si uma grande movimentação popular. Tanto a Escócia como a Catalunha são parte de países democráticos no seio da União Europeia. É um pouco ridículo dizer que carecem de liberdade e de bem-estar porque integram estados maiores.

E as atitudes de partidos políticos nacionais e regionais?
Os partidos políticos catalães apresentam um maior défice de coesão interna do que os escoceses, enquanto no plano nacional, em Madrid, há um governo de maioria absoluta e, em Londres, há um executivo de coligação. Faz diferença.

Na questão do défice fiscal, por comparação com a Escócia, a Catalunha sairia beneficiada num processo de ruptura...
Depende. A Catalunha é um contribuinte líquido ao Orçamento do Estado espanhol, porque é mais rica. Se, independente, permanecesse na União Europeia deveria também ser um contribuinte líquido de Bruxelas. Se a União avançar no sentido de ter maiores poderes redistributivos, como deveria, a Catalunha teria de contribuir com mais dinheiro.

A Escócia tem um tratamento muito favorável no actual Reino Unido e só sairia a ganhar fiscalmente nas alíneas que pudessem reflectir um cenário muito favorável na evolução dos preços do barril de petróleo do Mar do Norte.

Se a Escócia independente teria sempre o petróleo, a Catalunha enfrentaria mais riscos económicos num futuro fora de Espanha?
Há grandes incertezas. Tudo dependeria do período de tempo que passássemos fora da União Europeia e fora do Euro. O que é melhor, creio eu, é não arriscar e trabalhar por uma Espanha e uma Europa federais que funcionem melhor.

Mas, no plano comercial, há riscos de boicotes de consumidores espanhóis/britânicos num cenário de independência?
Não creio que essa possibilidade seja o mais importante. Em todo o caso, a ter lugar, seria sempre algo meramente conjuntural.

No plano da liderança política, a Escócia, mais do que Catalunha, parece ver vida para além do referendo...
Uma derrota do 'sim', na Escócia, implica, até, a cedência de mais autonomia de Londres. Até no caso dos líderes, Alex Salmond pode sobreviver politicamente à derrota, Artur Más já não. Artur Más é um líder político muito débil que não sabe o que vai fazer na próxima semana. Alex Salmond é um líder mais sólido, é um demagogo muito mais eficaz.

Escócia e Catalunha podem prosperar fora da União Europeia?
Não creio que esse cenário seja possível.

Em que se podem, então, transformar o referendo na Escócia e a sua tentativa na Catalunha?
Podem tornar-se numa grande confusão e numa forma de esconder os verdadeiros problemas de cada sociedade. Seria melhor levantar o debate e a aplicação prática de medidas sobre a melhoria da estrutura federal da Europa e dos seus Estados-membros. Seria melhor fixar as preocupações colectivas no aprofundamento e melhoria da democracia e da justiça social em toda a Europa.

A Europa - ou a atitude face à Europa -  pode, então, ser a chave...
Estou de acordo. A Europa é a chave. Se esta Europa funcionar, o secessionismo não tem qualquer futuro. Mas, se esta Europa fizer marcha-atrás, regressaremos à fragmentação e às etnocracias, como na ex-Jugoslávia ou na Ucrânia. Seria uma tragédia para todos, povos da Península Ibérica incluídos.