“São os piores saldos dos últimos 35 anos”

28 fev, 2013 • Mara Dionísio

Termina esta quinta-feira mais uma temporada de saldos de Inverno. Na Baixa de Lisboa, o comércio - sobretudo o tradicional - sente a crise como nunca. “O poder de compra está em baixo”, dizem.
“São os piores saldos dos últimos 35 anos”
“São os piores saldos dos últimos 35 anos”, lamenta Hugo Félix, pequeno comerciante. “O poder de compra está muito em baixo e os portugueses já não vêm à Baixa fazer compras de saldos”, sustenta.

Herdou o negócio do pai, uma loja com mais de 35 anos. Nos bons tempos, recorda, “vendia para aí 10 ou 20 fatos”. Agora, nem as letras gordas a anunciar descontos de 50% chamam a clientela.

O ajustamento vai-se fazendo à medida das receitas. Já deu emprego a 50 pessoas. Hoje, são apenas oito e, no futuro, serão menos ainda. “Para ficar com os custos no mínimo, para tentar sobreviver”, justifica Hugo Félix.

A crise continua e vai-se fazendo sentir, sobretudo, no pequeno comércio. Só no ano passado, 5700 empresas fecharam portas. Grande parte delas nos distritos de Lisboa e Porto.


“Tudo muito fraco, a rua já nem parece a mesma”
Tem a idade do Papa, 86 anos, e desde os 25 que faz negócio na Baixa lisboeta. “Vim para esta firma em 1940. Naquela altura, eramos os marçanos e ganhava 90 escudos.”
De aprendiz de caixeiro, Jorge Gonçalves passou a gerente. Setenta anos passados atrás de um balcão e não se recorda de uma crise assim.

“Agora não vendo nada comparado com o que se vendia”, assevera Jorge Gonçalves. “Na altura do Natal, era quase preciso uma dúzia de empregados e mesmo assim os clientes ralhavam connosco”. “Diziam que a gente não tinha fazenda. Hoje com dois ou três empregados resolvemos o problema à vontade, à vontadinha”.

A idade já pesa e os clientes “vão envelhecendo também”. E os “nossos jovens”, reconhece, “não têm tempo para vir aos nossos estabelecimentos”. E vai resistir até quando? “Até Deus me deixar por cá, vamos lá ver”, atira o sábio marçano.


Actualização das rendas é mais uma dor de cabeça
Também na Baixa lisboeta, António Sousa “aguenta o barco sozinho”. “O trabalho é tão pouco, os clientes não aparecem, portanto, eu dou conta do recado”, explica.

Vai tentando “aguentar mais uns tempos, a ver se isto melhora”, mas admite: “Não sei se vou fechar”.

“Olhe”, confessa, “estou à espera principalmente da carta do senhorio por causa da renda”. “É porque esta loja paga 179 euros e não sei quanto é que o senhorio vai pedir”. A partir daí, conclui, “é que vou decidir se entrego a loja ou não”.

A actualização das rendas urbanas inscrita na nova lei é uma das preocupações da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal. Vasco Mello, vice-presidente da CCP, admite que a “actualização das rendas é outro factor importante”, que pode ditar o fecho de mais empresas.

A este problema acresce a “questão da facturação”. “Temos dito que o modo como está a ser implementado constitui um acrescento de custos administrativos, ao qual se acrescenta uma perspectiva económica muito negativa, que se agravou no último quartel de 2012 e se está a prolongar pelo primeiro quartel de 2013”, sublinha Vasco Mello.