Saída de jovens qualificados torna futuro problemático

04 jan, 2012

Vários especialistas na área política falam das razões que podem explicar a estratégiado Governo em apelar à emigração.
Saída de jovens qualificados torna futuro problemático

O recente convite do Primeiro-ministro à emigração de professores é um sinal de que o Governo optou por uma estratégia de discurso desmobilizador, que baixa as expectativas e não ajuda à motivação da generalidade dos cidadãos.

A Renascença ouviu a opinião de vários especialistas na área política sobre as razões que podem justificar esta estratégia e sobre as consequências que poderá ter.

O politólogo André Freire mostra-se preocupado com a aparente "aposta nos salários baixos e na desvalorização do trabalho e das qualificações", que está em curso em Portugal.

"Um país que prescinde da sua mão-de-obra mais qualificada e jovem, com incentivos à emigração, é um país com um futuro problemático", alerta o investigador do ISCTE, em entrevista à Renascença.

Vários membros do Governo já sugeriram a saída para o estrangeiro como solução, incluindo o Primeiro-ministro, num "convite" dirigido a professores no desemprego. Para Freire, trata-se de declarações "infelizes", que não mobilizam o país.

André Freire admite que podemos estar perante "uma mistura" de uma estratégia para baixar expectativas e de deslizes políticos.

Também ouvido pela Renascença, o politólogo António Costa Pinto considera que as declarações do Primeiro-ministro sobre a emigração de professores para Angola e Brasil tiveram tanto de "pragmáticas" como de "inédito".

Nem em países da Europa de Leste, como Polónia, Bulgária ou Roménia, a "estratégia discursiva" passou pelo "conselho à emigração", sublinha o investigador e professor no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

"Notas de pé de página"
Já na perspectiva de outro especialista, José Adelino Maltez, tudo não passa de "notas de pé de página" que se enredaram e criaram "um efeito comunicacional que quase pareceu uma mensagem".

O polítólogo considera que o Governo revelou "exagero de falar sem estratégia" e diz estranhar as palavras de Passos Coelho, sabendo-se que em Angola e no Brasil também há licenciados no desemprego.

"Se o Primeiro-ministro, efectivamente, pensasse aquilo que a respectiva linguagem, numa frase solta, disse, estávamos bastante mal. Isso significava que não havia Governo. Não acredito que qualquer político português,  responsável e patriótico queira fazer um sistema de exportação, a começar por cérebros. Isso seria gravíssimo", remata José Adelino Maltez.