Crianças com paralisia cerebral não vão a consultas por falta de dinheiro

20 out, 2014 • Teresa Almeida

Mães recebem 98 euros mensais para cuidar de crianças que, se internadas, representam uma despesa de 10 mil euros por mês. O Dia Mundial da Paralisia Cerebral assinala-se esta segunda-feira.
O número de crianças com paralisia cerebral que deixaram de ir às consultas por falta de dinheiro para o transporte está a aumentar. O alerta parte da Federação das Associações de Paralisia Cerebral.

Por ano, em Portugal, nascem cerca de 200 crianças com esta doença e, destas, 40% irão viver toda uma vida dependentes de terceiros.

Geralmente, é a mãe que se ocupa de os ajudar. Na maior parte dos casos, se não mesmo em todos, a mãe deixa de trabalhar, passando a receber por mês 98 euros de subsídio do Estado para cuidar do seu filho.

Para a presidente da Federação Portuguesa das Associações de Paralisia Cerebral,  Eulália Calado, trata-se de "uma migalha", se compararmos o que custa uma criança destas internada numa instituição que a acolha.

“Se eu internar estas crianças mais complexas num hospital, elas custam, por mês, 10 mil euros e as mães só recebem 98 euros”. As contas estão feitas, diz esta responsável, que deixa a pergunta: “Se estas crianças ficam por mais de 300 euros por  dia, já viu o que estas mães poupam ao Estado?”

Para os restantes 60% de doentes com paralisia cerebral, os apoios também são poucos e, mesmo assim, têm vindo a ser reduzidos a cada Orçamento do Estado.

Muitos deles até já deixaram de ir às consultas, por falta de transporte. Diz Eulália Calado que “neste momento, deixaram de ser isentas para transporte todas as famílias que tenham rendimentos superiores a 600 euros por mês, situação que diminui e muito a capacidade financeira das famílias de poderem pagar a ambulância ou outro transporte para virem às consultas ou até fazerem tratamentos”.

Outro dado importante é o de que 50% das crianças nascidas com paralisia cerebral resultam de partos prematuros, sendo uma incidência cada vez mais difícil de reduzir.

Em Portugal, tal como nos países desenvolvidos, as mães tem filhos cada vez mais tarde e “é normal ver uma mulher com 40 anos ter o seu primeiro filho, situação que leva muitas vezes ao nascimento de crianças prematuras devido a complicações naturais da idade”.

Eulália Calado considera que, se não forem criadas condições para as mulheres terem filhos mais cedo, a tendência desta doença será para aumentar.

“De facto, com o avançar da idade, há uma tendência de ter crianças muito mais prematuras e isso paga-se muito caro”. Por isso, garante esta responsável, “tem de ser dar às mulheres condições para poderem ter filhos mais cedo, entre os 20 e os 30 anos", porque, caso contrário, "esta prevalência vai manter-se ou até aumentar”.

O Dia Mundial da Paralisia Cerebral assinala-se esta segunda-feira.