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José Tolentino Mendonça

Um poeta é alguém que ensina a ver

29 abr, 2014 • José Tolentino Mendonça

Temos de agradecer sobretudo a Vasco Graça Moura ele ser um mestre inspirador, precisamente neste tempo em que parece que vivemos com menos alma e que os mestres escasseiam.

Todas as partes da "Divina Comédia" de Dante, esse texto maior do património ocidental que, de forma absolutamente inspirada, Vasco Graça Moura verteu para a nossa língua, terminam da mesma maneira.

Cada secção do inesquecível tríptico (seja o Inferno, o Purgatório ou o Paraíso) culmina com uma abertura para o grande mistério do cosmos. Depois da peregrinação pelos infundos infelizes, o poeta escreve: “E, por fim saímos, voltando a ver as estrelas”. A concluir a viagem reparadora pelo purgatório surgem os versos: “Eu regressei…/puro e disposto a elevar-me às estrelas”. E no cimo do paraíso, sela-se a viagem com palavras que tornam a evocar as estrelas, mas acrescentando-se agora uma referência ao astro-rei.

Instala-se assim uma progressividade que joga no sentido da intensificação do motivo que subjaz a toda a itinerância descrita na "Divina Comédia": esse motivo é o amor. Se tivéssemos de explicar o que é que Dante nos ensina a contemplar não teríamos dúvidas: oferece-nos o amor, chave para a grande pergunta que somos, “o amor que move o sol e as outras estrelas”.

O que é um poeta na terra? É alguém que ensina a ver. Alguém que não se conforma que o olhar dos homens fique capturado pelo breu, pela desesperança ou pelo medo. É alguém que nos infernos e purgatórios da história rasga saídas criativas, fendas para olhar mais longe, miradouros debruçados sobre um futuro outro, capaz de estilhaçar a fatalidade. Claro que a matéria de trabalho de um poeta é a palavra. Mas a palavra não é só palavra: é sede, é desejo de comunicar, é mergulho na realidade para a compreender melhor, é a sabedoria de perceber que o visível é também um signo do invisível e que não se pode separar o audível do inaudível, a palavra do silêncio.

Temos muito a agradecer a Vasco Graça Moura: a vastíssima erudição que ele sabia activar e colocar ao serviço; o prodigioso artesanato verbal que fez dele um grande poeta e um tradutor de vulto; a paixão civil e europeia que ele tomou como causa e combate; a defesa da cultura e da língua, irremovíveis laboratórios do nosso comum viver. Mas temos de agradecer sobretudo a Vasco Graça Moura ele ser um mestre inspirador, precisamente neste tempo em que parece que vivemos com menos alma e que os mestres escasseiam.