Cerca de 1% dos portugueses mais ricos duplicaram fortuna nos últimos 30 anos

20 jan, 2014

O estudo "Governar para as elites: sequestro democrático e desigualdade económica", da Oxfam, revela que a metade mais pobre da população mundial possui a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas do mundo.
Os cerca de 1% dos mais ricos em Portugal, na China e nos Estados Unidos mais do que duplicaram os rendimentos nacionais desde 1980. A conclusão consta do relatório "Governar para as elites: sequestro democrático e desigualdade económica", divulgado pela confederação Oxfam.

De acordo com este estudo, cerca de metade da riqueza mundial é actualmente detida por 1% da população e as desigualdades económicas aumentaram rapidamente na maioria dos países desde o início da crise.

A Oxfam refere ainda que os cerca de 1% dos mais ricos aumentaram os rendimentos em 24 dos 26 países para os quais os dados estão disponíveis entre 1980 e 2012 e que sete em cada dez pessoas vivem em países onde a desigualdade económica aumentou nos últimos 30 anos.

Os dados revelam que os cerca de 1% dos mais ricos na China, em Portugal e nos Estados Unidos mais do que duplicaram os rendimentos nacionais desde 1980. Segundo o estudo, mesmo nos países com a reputação de serem mais igualitários como a Suécia e a Noruega, a riqueza dos 1% mais ricos aumentou 50% no período em referência.

O relatório sublinha também que a metade mais pobre da população mundial possui a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas do mundo. O relatório conclui também que a concentração de 46% da riqueza em mãos de uma minoria supõe um nível de desigualdade "sem precedentes" que ameaça "perpetuar as diferenças entre ricos e pobres até as tornar irreversíveis".

Desregulação financeira e austeridade aumentam desigualdades
Segundo os dados da Oxfam, 210 pessoas juntaram-se em 2013 ao clube dos multimilionários cuja fortuna é superior aos mil milhões de dólares, formado por um conjunto de 1.426 pessoas que concentram uma riqueza 5,4 biliões de dólares (quase quatro biliões de euros).

Para a Oxfam, este aumento das desigualdades deve-se em grande parte à desregulamentação financeira, aos sistemas fiscais e às regras que facilitam a evasão fiscal. A organização também denuncia as medidas de austeridade, as políticas desfavoráveis para as mulheres e a confiscação das receitas provenientes do petróleo e da extracção de minérios.

Por outro lado, a ONG associa as desigualdades económicas extremas e a confiscação do poder político por uma elite rica, que governa para servir os seus próprios interesses. "Sem uma verdadeira acção para reduzir estas desigualdades, os privilégios e as desvantagens vão-se transmitir de geração em geração, como no antigo Regime. Viveremos então num mundo onde a igualdade de oportunidades será apenas uma miragem", conclui a Oxfam. 

Fórum debate riscos
O relatório surge na semana em que se realiza o Fórum Económico Mundial (WEF) de Davos na Suíça, uma reunião durante a qual se analisarão os problemas emergentes do mundo e onde se tentarão encontrar soluções para as crescentes situações de desigualdade. O WEF, que se reúne a partir de quarta-feira em Davos, na Suíça, identificou as desigualdades económicas como um importante risco para o progresso humano.

Perante os dados esta segunda-feira divulgados, o economista João César das Neves sublinha a dificuldade de se avaliar as desigualdades através dos indicadores de riqueza, referindo que no estudo, “eles pegam num número, que é verdadeiro, e tomam isso pela totalidade. Desde 1980, ou seja, nos últimos 30 anos, que o país cresceu quase para o dobro”.

Segundo o economista, “os ricos ficaram mais ricos e os pobres também ficaram mais ricos”. O problema fundamental, diz César das Neves, é exactamente esse: a questão da desigualdade é grave por causa dos pobres e não dos ricos”. “Quando as pessoas continuam sempre a olhar para os ricos e ver o que é que lhes aconteceu e esquecem a melhoria espantosa que os pobres estão a ter.”