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Cortar a dívida pública para metade em 20 anos? "Não parece ser exequível"

04 jul, 2014 • Sandra Afonso

Economista José Castro Caldas admite que um cenário de incumprimento em 2011 poderia ter tido vantagens face aos resultados do plano resgate.

Portugal e outros países da União Europeia não vão conseguir aplicar o Tratado Orçamental com as condições e metas que o documento impõe, afirma o economista José Castro Caldas, em entrevista à Renascença.

“Tenho tido dificuldade em encontrar quem, em privado, consiga afirmar que é possível obter as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto, dos preços e os saldos do Orçamento que seriam necessários para cumprir o Tratado, para poder reduzir a dívida pública portuguesa a metade em 20 anos. Isso não me parece ser exequível”, defende o investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Para José Castro Caldas, a Europa vive uma situação "um pouco caricata", com um conjunto de governos "muito endividados" a depositar "as suas esperanças no não cumprimento de um Tratado que eles próprios assinaram". "Isto não faz qualquer sentido, os governos assinarem tratados sob uma ameaça qualquer para depois ficaram à espera da primeira oportunidade para não os cumprir”, sublinha.

O economista não concorda com o rótulo do sucesso aplicado ao programa de ajustamento português. “É muito difícil, em várias dimensões daquilo que o programa prometia, considerar que tenha sido um sucesso”, refere.

Ao contrário do objectivo inicial, a dívida externa da economia portuguesa e a dívida pública aumentaram “bastante” nos três anos do plano de resgate da “troika”, argumenta José Castro Caldas.

Contas feitas, “Portugal chega ao fim destes três anos de resgate muito mais enfraquecido e em muitos piores condições para enfrentar o futuro, do que estava”.  

Nesta entrevista à Renascença, o economista admite que um cenário de incumprimento em 2011 poderia ter tido vantagens face aos resultados do plano resgate. Teria sido necessário uma "enorme coragem política", mas Portugal teria sido "poupado a um calvário que, no final, parece não resolver o problema".