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"Número 2" de Barroso defende salários baixos para atrair investimento

28 nov, 2013 • Ana Carrilho

Vice-presidente António Tajani acredita no potencial das pequenas e médias empresas portuguesas e do sector do turismo e afirma que a "Europa não é só a troika ou sacrifícios”.

O vice-presidente da Comissão Europeia admite que uma política de baixos salários, no actual momento, potencia mais investimento e pode garantir mais rendimento no futuro. António Tajani está em Portugal e trouxe consigo mais de 150 representantes de pequenas e médias empresas (PME) europeias e extracomunitárias que querem fazer parcerias com empresas nacionais e investir em Portugal. O objectivo é contribuir para a recuperação económica do país.

Entrevista exclusiva à Renascença, falou dos fundos que Portugal e as empresas portuguesas têm à disposição para se reestruturarem e apostarem na inovação e investigação. Deixou claro que terá que ser o Governo a decidir se quer um programa cautelar depois de concluído o programa de assistência financeira. Para o “número dois” da Comissão Europeia, o turismo é a grande aposta estratégica de Portugal. 

Como é que perspectiva o futuro de Portugal?
Estou optimista porque Portugal tem um recurso muito importante, que são as pequenas e médias empresas. É um país que tem uma grande história, um país que está a implementar uma série de medidas a favor da economia real. Acções para reduzir o peso da burocracia, acções para ajudar as empresas e o objectivo de atingir os 17% do Produto Interno Bruto (PIB), proveniente da política industrial, antes do fim de 2020. A situação económica hoje é melhor do que há um ano e a Europa pode ajudar muito este país e o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, acredita muito na acção a favor do crescimento. Eu estou aqui acompanhando dezenas e dezenas de pequenas e médias empresas industriais europeias que querem fazer parcerias com as indústrias, com as empresas portuguesas, que querem investir em Portugal. E isto confirma que Portugal tem condições para poder sair da crise. Porque, nos próximos meses encontrará uma Europa solidária, porque a Europa não é só a troika, não são só sacrifícios. A Europa também é crescimento, também é solidariedade.

Já tivemos austeridade a mais?
Eu creio que podemos fazer mais. Podemos contribuir juntos – Governo português, Comissão Europeia, empresas europeias e empresas portuguesas – para o crescimento do país. Portugal já cumpriu um percurso importante, deve atingir os objectivos e estou convencido que os atingirá.

Não precisaremos então de um segundo resgate ou de um programa cautelar. Podemos seguir o exemplo da Irlanda?
Essas são decisões que devem ser os Estados a tomar. Devem fazer propostas. A Irlanda fez para a sua realidade e Portugal deverá fazer para a sua, mas cada país é diferente. Por isso, caberá ao Governo português tomar a melhor decisão para concluir esta série de acções contra a crise.

Voltando à ajuda que a Europa pode dar a Portugal para o crescimento e o emprego. Em termos concretos, o que poderá ser feito?
Há 20 mil milhões de euros em fundos estruturais, há centenas de milhões de euros para a luta contra o desemprego jovem nos próximos dois anos. Além disso, Portugal poderá também usar o Programa Horizonte 2020, que tem pouco menos de 80 mil milhões de euros para a Europa financiar a inovação e investigação entre 2014 e 2020, para ajudar as empresas. E há cerca de 2,5 mil milhões de euros no programa COSME, destinado a apoiar a internacionalização das PME, destinado a apoiar também as empresas que operam na área do turismo. São fundos que estão todos à disposição das empresas portuguesas.

Deixou aqui claro que o turismo é um sector estratégico para Portugal. Que outros podem trazer mais-valia para Portugal?
O turismo é um sector industrial importantíssimo, não apenas para Portugal mas para toda a União Europeia. É por isso que estamos a trabalhar para fazer crescer o número de turistas que vêm de fora da União Europeia. Penso nos novos ricos e na classe média russa e chinesa. E para incrementar o número de turistas extracomunitários estamos a preparar novas regras, mais flexíveis, para a concessão vistos. Disto deve resultar um forte incremento de turistas em toda a Europa e naturalmente, também em Portugal. Com Portugal já fizemos um acordo para implementar um projecto piloto que deverá fazer crescer o número de turistas da América do Sul para a Europa durante a época baixa. Num país como Portugal que tem estações muito prolongadas significa ter um programa para turistas que venham, por exemplo, do Brasil, ainda por cima, com a facilidade de terem uma língua comum.

Relativamente ao mercado laboral, há empresários estrangeiros que consideram que não é suficientemente flexível. Acha que é preciso flexibilizar mais?
É preciso encontrar sempre um justo equilíbrio entre os direitos dos trabalhadores e as necessidades do mercado de trabalho. É sempre preciso reduzir a pressão fiscal sobre as empresas, mas para reduzir a pressão fiscal é preciso aumentar o apoio ao crescimento e esta não é apenas uma responsabilidade dos governos nacionais, mas também da Europa.

Salários baixos em Portugal é um factor de competitividade ou devemos afirmar-nos pela qualidade, pela diferença?
Esse é um factor que pode facilitar o investimento, seja de países da União Europeia ou extracomunitários. Quanto maior for o investimento, mais ganharão os trabalhadores. Porque quanto melhor for a situação, mais poderão as empresas pagar. Portanto, apesar de no momento não ser positivo que os trabalhadores ganhem pouco, pode ser um instrumento para aumentar o investimento e no futuro, fazer crescer o rendimento.