O rosto traído do desemprego feminino

29 mar, 2012 • Catarina Santos

Mais de metade das mulheres desempregadas em 2011 estavam nesta situação há um ano ou mais. Apesar da revolta e da frustração que emergem na contrariedade, há assomos de coragem que são lições de carácter. Na semana em que a Renascença olha para a realidade do desemprego, esta é uma história que os números não contam.
O rosto traído do desemprego feminino
O rosto traído do desemprego feminino
Lurdes Martins tem 47 anos e está desempregada há um mês e meio, mas já passou pela mesma situação várias vezes. Numa noite de Fevereiro, decidiu dar utilidade às insónias, resumiu o currículo num papel e espalhou-o por Santarém, a pedir "trabalho com urgência”. Choveram telefonemas e, já depois de falar com a Renascença, decidiu aceitar um trabalho que lhe vai pagar menos que o subsídio de desemprego de 430 euros. Mas Lurdes prefere receber menos do que continuar desempregada.

Tem entre 35 e 54 anos, escolaridade inferior ao 3º ciclo do ensino básico, está à procura de novo trabalho, inscreveu-se no centro de emprego há menos de um ano e é mulher. De acordo com o Instutito do Emprego e Formação Profissional (IEFP), é o retrato-tipo do português desempregado em 2011 e podia muito bem ter sido tirado em Santarém.

Lurdes Martins tem 47 anos e está desempregada desde Fevereiro, mas já passou pela mesma situação várias vezes. Vai saltando entre empregos que lhe dão "óptimas cartas de recomendação", mas que a mandam embora quando os contratos a termo se esgotam.

Anda nisto desde que há 10 anos tomou uma decisão de risco. Farta do emprego de 16 anos no jornal "O Ribatejo", como administrativa e comercial, lançou-se numa "nova experiência" no estrangeiro. Partiu para separar sementes num laboratório holandês e voltou passados seis meses, quando os problemas de saúde da mãe lhe cortaram as asas.

"Começou aí a minha odisseia de emprego/desemprego", diz. Lurdes Martins acumulou experiências como empregada de consultórios, gerente de loja e auxiliar em lares.

Pelo meio ficou um divórcio, que precipitou a perda da casa para o banco quando faltavam sete anos para acabar de a pagar. Tem dois filhos, de 22 e 30 anos, que já não atrapalham na procura de emprego.

"As empresas estão mais receptivas agora a escolher pessoas que já têm os filhos criados, que já não faltam por maternidade e porque o filho está doente."

"Amanhã pode ser você a precisar"
Mesmo assim, Lurdes sabe que a idade é um peso e que ficar parada não é solução. Por isso, decidiu dar utilidade às insónias e, numa noite de Fevereiro, resumiu o currículo num papel e espalhou-o por Santarém a pedir "trabalho com urgência".

"Imprimi 250 folhinhas, peguei num rolo de fita-cola, pus um carapuço na cabeça, um cachecol, umas sapatilhas e toca de ir para a cidade durante a noite colar os meus papéis", conta com o sorriso de quem sabe que "parecia uma ideia maluca".

Alguns papéis foram arrancados e Lurdes reforçou a dose com mais 100, acrescentando-lhe uma pequena nota onde se podia ler: "A quem não interessar este apelo, agradeço que não o retire do local. Amanhã pode ser você a precisar". Nunca mais desapareceu nenhum.

Revoltada com o país
O desemprego feminino tem várias caras e há outra bem representativa a Norte. Na freguesia de Aver-o-Mar, na Póvoa de Varzim, Carla Cunha espera por uma mudança de maré há 22 meses consecutivos. Sobra-lhe um mês de subsídio de desemprego.

Foi costureira durante 20 anos na Maconde, uma empresa de referência na área do têxtil. Entrou em 1990, aos 14 anos. Saiu em 2010, quando a empresa fechou portas. Foi colocada noutra fábrica, que ao fim de quatro meses também fechou, e ficou "outra vez desempregada", lamenta, com o tom de quem já gastou o termo de tanto o proferir.

Carla está revoltada com "este país". Todos os dias varre a internet à procura de ofertas, mas aparecem-lhe sobretudo trabalhos em "part-time" ou a recibos verdes, que não chegam para pagar as contas.

O relatório anual de 2011 do IEFP diz que mais de metade das mulheres desempregadas em 2011 estavam nesta situação há um ano ou mais e é no Norte que o desemprego de longa duração tem um maior peso relativo. Aos 38 anos, Carla Cunha alimenta essa e outra estatística: a dos sete mil casais em que ambos os cônjuges estão desempregados. O marido não tem direito a subsídio de desemprego e já pediram "o social [Rendimento Social de Inserção]", mas ainda não tiveram resposta.

Com uma filha de cinco anos, os 419,10 euros que Carla recebe do subsídio de desemprego são o único rendimento de uma família com 300 euros da casa para pagar todos os meses. A vida deste casal da Póvoa de Varzim vai chegando a uma encruzilhada, que pode levá-los a virar as costas ao mar da Póvoa e a emigrar para França, à procura de "uma vida decente".

Falhar como mãe
Já para Lurdes Martins, a sorte pode estar a mudar. Começaram a nascer chamadas após os apelos que espalhou por Santarém.

Nas primeiras semanas, recusou ofertas que não compensavam em termos de distância ou salário, mas acabou por aceitar uma proposta inferior aos 430 euros que recebe de subsídio de desemprego - e aos quais ainda teria direito durante 750 dias. Lurdes não aguenta mais a pressão psicológica de estar desempregada e, em Abril, vai iniciar-se como gestora de condomínio.

Não há alívio na voz trémula que conta este desfecho. Lurdes está sobretudo resignada e sente-se traída pelo mercado de trabalho quando olha para trás. "Falhei como mãe, porque dei mais importância ao trabalho do que a estar mais tempo com os meus filhos. E isso eu hoje lamento."

Em Abril, quando começar o novo trabalho, Lurdes apaga o seu rosto do retrato-tipo do desempregado português.