O que vale uma promessa? "Nas promessas dos políticos não confio", diz um português ouvido pela Renascença na baixa de Lisboa. "Há quem faça promessas a Nossa Senhora de Fátima e só ela é que nos pode salvar", acrescenta outro transeunte.
"Promessa" é uma das 222 entradas do novo "Dicionário das Crises e das Alternativas", que vai ser lançado esta segunda-feira. O director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Boaventura Sousa Santos, diz que esta é a forma que encontrou para explicar aos cidadãos os inúmeros conceitos com os quais "são bombardeados" pela comunicação social.
E se acreditar em promessas não está fácil, os portugueses também pouco ou nada confiam, sobretudo nos políticos. O que, segundo o "Dicionário", é mau, porque a confiança é entendida como um valor moral que alicerça toda a sociedade e é a base da democracia. Ainda assim, há quem pense que é preciso confiar no futuro para fazer face à crise.
O que é a crise, que é uma das palavras analisadas pelo "Dicionário"? "Ah, essa é a palavra da moda", responde um dos inquiridos pela Renascença nas ruas de Lisboa. E o que é que crise provoca? "Mudança de hábitos, insegurança, medo... Medo de tudo", desabafa alguém aos microfones da Renascença. "Medo de não ter trabalho quando acabar a faculdade", receia uma jovem.
"O luxo" de ter trabalho
Quanto a trabalho, o "Dicionário" explica que é um elemento central da sociedade, de dinamização da economia e de dignificação do Homem. "Se há trabalho, não há crise; se há trabalho, não há medo de se perder o que se conquistou", defende um jovem imigrante brasileiro.
Com as taxas de desemprego a subir, para muitos "trabalho" é um "luxo" - termo que devia significar algo raro e quase inacessível, mas que hoje em dia já vale para dizer que "é um luxo ter trabalho". Talvez por isso mesmo alguns dos inquiridos pela Renascença mostrem um sorriso amarelado face à palavra.
Se não dá para luxos, será que dá para poupar (outro dos termos do "Dicionário") alguma coisa? “Como, se não há dinheiro?”, questionam uns, ao mesmo tempo que outros insistem na necessidade de controlar mais as despesas.
Há quem diga que os portugueses nem sempre mostram a sua revolta (outra das palavras do "Dicionário") perante tantas dificuldades. Apesar de insatisfeitos, boa parte dos entrevistados da Renascença mostrou-se conformado. A maioria dos inquiridos argumenta que a revolta "não leva a lado nenhum".