Há 70 anos em clausura, Maria passa dias e noites a rezar

31 ago, 2015 • Rosário Silva

Seis irmãs vivem no Carmelo do Sagrado Coração de Jesus, em Beja. A prioresa Maria Carmelinda, quase com 95 anos, acaba de completar 70 anos de Profissão Solene. "Sou tão feliz, mas tão feliz, que só queria que esta felicidade fosse para todos os irmãos."
Há 70 anos em clausura, Maria passa dias e noites a rezar
Há 70 anos em clausura, Maria passa dias e noites a rezar

"Quando era pequena, deixava as brincadeiras e retirava-me para os lados para rezar. Fechava os olhos, ajoelhava-me e meditava. Às vezes, levava um dia a rezar o Pai Nosso". A descoberta da vocação. É por aqui que começa a conversa com a madre Maria Carmelinda do Menino Jesus. Há 70 anos disse o "sim" definitivo. Para trás ficavam seis anos de formação religiosa a cimentar o que desde tenra idade fora uma certeza no seu coração: o fascínio por Jesus Cristo.

Maria garante que é tão feliz agora como há 70 anos. "Parece que entrei esta manhã. Se tivesse de optar, optava pelo mesmo: viver só para Cristo e para os irmãos. Sou tão feliz, mas tão feliz, que só queria que esta felicidade fosse para todos os irmãos", conta à Renascença.

Oriunda de uma família humilde do concelho de Pampilhosa da Serra, com mais cinco irmãos, Carmelinda ficou sem pai aos dez anos. Saiu da terra com 17 para trabalhar em Lisboa e foi nesta cidade que contactou com diversas congregações. "Elas queriam que eu ficasse, mas cá dentro tinha uma voz que dizia: não é esta", conta.

Saiu de Portugal e foi no Mosteiro de Sant'Ana em Sevilha, que realizou sua vocação para o Carmelo. Regressou em 1954 para ajudar a restaurar na cidade alentejana, o Carmelo feminino. D. José do Patrocínio Dias, um devoto do Sagrado Coração de Jesus, era o bispo da diocese de Beja.

O bispo acolheu o pedido das irmãs, alegrando-se por ter na diocese um mosteiro de monjas carmelitas, o primeiro da Ordem do Carmo em Portugal.

Destes tempos, recorda um acolhimento generoso de uma região marcada por condições adversas e por gente obrigada à dureza do campo para sobreviver. "Aqui, os irmãos [alentejanos] são muito bons. Enquanto não conhecem a pessoa ficam de pé atrás, mas quando conhecem o coração entregam-se todos. Diziam que isto era terra de comunistas, mas todos somos comunistas pois todos queremos o céu", acrescenta, sorrindo.

"Dia e noite a rezar"
Maria Carmelinda levanta-se às quatro e meia da manhã e quando sai da cela já deixa tudo arrumado. "Tomo banho, lavo a minha roupa interior, limpo a cela e deixo a cama feita. Depois, venho para baixo".

O dia é praticamente preenchido com a oração. "Agora, passo dia e noite a rezar pelos meus irmãos. Levo-os todos no meu coração."

A cidade, as pessoas, os amigos, os governantes ou o país, tudo e todos estão presentes na oração da madre. Garante que não está desligada da realidade. Entre as muitas intenções que tem presentes, há uma que lhe causa algum sofrimento: a família e as dificuldades por que passa.

"Nós vamos perdendo os valores. Em Portugal, os nossos lares estão em baixo. Temos de ajudar as famílias. Todas deviam ter uma casinha", diz. Lamenta que sejam "as crianças que sofrem mais". "A criança que recebe amor tem para dar; se não recebe, não tem capacidade para dar amor."

Para si mesma, a madre apenas deseja poder continuar a cumprir o mandamento "Amai-vos como Eu vos amei". "Nosso Senhor dizia isto aos Apóstolos", recorda.

"E como é que ele nos amou?" prossegue. "Deu-nos todo este Universo e deixou-nos duas mesas: a mesa da Eucaristia e a mesa da divina palavra. Todos temos dons e devemos usá-los para ajudar os irmãos."