"Sócrates considera-se uma figura ao nível de Napoleão, Soares e Mandela"

21 mai, 2015 • João Carlos Malta

Foi há seis meses. A 21 de Novembro de 2014, o ex-primeiro-ministro José Sócrates era detido no aeroporto. Há agora um livro que conta os dias decisivos para esta detenção histórica. "Cercado" entra também na prisão de Évora: o jornalista Fernando Esteves põe Sócrates a falar (em discurso indirecto).

"Sócrates considera-se uma figura ao nível de Napoleão, Soares e Mandela"
Um homem obcecado com o lugar que ocupará na História. Um homem que julga ter uma narrativa vencedora. Decide vir de novo a jogo depois de liderar o país durante seis anos e, ao invés de reescrever os acontecimentos, vê-se no meio do turbilhão de um facto que tudo vai mudar.

O homem é José Sócrates e o facto é a sua detenção. Aconteceu há seis meses, 21 de Novembro de 2014. Um ultraje, que um homem como ele, “que se julga maior do que o mundo", nunca pensou que pudesse acontecer.

Mas aconteceu. O que para outros seria o fim da linha, para Sócrates, “pelo menos na forma como ele vê o mundo", isso pode engrandecer a sua imagem e fazer com que se possa comparar a outras personagens históricas.

É o que nos conta o editor de Política e Mundo da revista Sábado e autor do livro “Cercado". Fernando Esteves escreveu um livro que tem Sócrates no centro da acção. É o herói e o anti-herói.

O Foram quatro meses a trabalhar para escrever "Cercado". Acompanhaste ao longo dos últimos anos a carreira política de José Sócrates. Houve ainda assim algo que te tenha surpreendido em absoluto?
Sim, o que me surpreendeu mais em toda a investigação foi que, sendo ele uma pessoa absolutamente colérica, que não tem problema em penalizar – do ponto de vista verbal, evidentemente – as pessoas que trabalham com ele, sendo alguém que exerce um domínio avassalador sobre as pessoas com quem trabalha, ainda assim as pessoas prestam-lhe uma reverência total e absoluta.

Mesmo agora que está na cadeia e que é uma altura em que o podiam deixar cair, a verdade é que não o fazem, continuam a fazer-lhe romarias até Évora, o que de alguma forma reforça o estatuto que ganhou, que é o de alguma divindade à volta de José Sócrates. Ele tem uma aura, uma "gravitas", que lhe vem do exercício do poder, que contamina aqueles que com ele trabalham.

Essa foi talvez a maior surpresa. As pessoas que com ele trabalharam relatam que as relações, sobretudo no campo pessoal, eram tão fortes, intensas e violentas que me custava a perceber como é que figuras como Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva e Jorge Lacão estavam disponíveis para lidar com aquela irascibilidade permanente de forma quase pacífica.

Não alinhas com outra tese de que este medo de deixar Sócrates cair é também medo de que se ele cair outros se lhe sigam?
Penso que não. Penso que tem mesmo a ver com o facto de José Sócrates ter convencido aqueles com quem trabalhava de que eles tinham uma missão patriótica a cumprir. José Sócrates tem um magnetismo especial, tem a aura que distingue os líderes das pessoas comuns. Conseguiu convencer estas pessoas, pessoas desta qualidade, que elas tinham uma missão, tornar Portugal um país melhor, que se veio a revelar falhada. As pessoas ainda assim continuam a defendê-lo.

Não me parece que haja receio, nomeadamente por parte destas figuras que agora mencionei, que me parecem razoavelmente impolutas, de exposição pública decorrente do envolvimento em escândalos menos lícitos. Parece-me que é uma questão política e pessoal. Isso diz alguma coisa sobre eles e diz muito sobre José Sócrates, que é uma pessoa com muitos defeitos, mas também com algumas virtudes que caracterizam os grandes líderes. Se as suas enormes qualidades políticas e pessoais fossem canalizadas para um bem maior, Portugal poderia hoje ser um país diferente.

Depois de um pico noticioso voraz na sequência da detenção, que durou semanas, depois de um corrupio de visitas a Évora, que durou meses, o processo não está morto mediaticamente, mas encontra-se numa fase morna. É um risco para Sócrates? Entrar num esquecimento latente…
O caso já teve vários picos de atenção. Primeiro, o da detenção a que se seguiu a reacção violenta dele no espaço público através do envio de cartas para os jornais, de entrevistas por escrito às televisões. José Sócrates quis transformar esta detenção num problema político. A estratégia dele passa não tanto pela defesa estritamente jurídica: quer convencer a opinião pública que há razões políticas por detrás da sua detenção.

Depois dessa fase inicial de pico, surgiram outras que coincidiram com as decisões por parte das instâncias judiciais relativamente à sua prisão preventiva, o que acontecerá de três em três meses até ao limite previsto na lei [um ano]. Na semana anterior e posterior a estas datas, a especulação será sempre maior em relação àquilo que será a decisão do Tribunal da Relação. Os picos de atenção serão sempre estes. Agora houve este, que não estava previsto, que foi o lançamento do [meu] livro e que teve uma repercussão especial porque o livro esmiuça os contornos da prisão, mas vai também aos grandes escândalos em que ele esteve envolvido ou pelo menos associado. Daí que tenha havido muita atenção em relação ao seu conteúdo…

Escreves que Sócrates sempre quis evitar a detenção. Era um ponto de honra. Quando percebe que não há nada a fazer para evitar a detenção?
O mundo cai-lhe em cima. Ele nunca pensou que isso poderia acontecer. José Sócrates é um personagem muito particular. Ele vive num universo muito próprio. Considera que tem a força das grandes figuras da história. Uma das conversas mais estimulantes que tive ao longo da investigação foi com um companheiro dele de cadeia, João de Sousa, inspector da Polícia Judiciária, que está detido em Évora por suspeitas de corrupção. Por ser uma pessoa muito culta, é o companheiro preferencial de Sócrates na prisão. E ele disse-me algo que muito me impressionou. Diz que Sócrates se considera uma personagem ao nível de um Napoleão, de um Mário Soares e de um Nelson Mandela. [Sócrates] Diz-lhe que todos esses personagens passaram por muitas dificuldades. Mandela e Soares estiveram presos e depois foram quem foram, ele considera que com ele pode acontecer o mesmo.

Estamos a falar de um personagem que se julga maior do que o mundo. Uma pessoa destas julga-se inimputável. Nunca pensou que isto pudesse acontecer. Assim que tem a visão, a percepção de que pode cair no abismo, fica sem tapete, sem rede. Era uma circunstância para a qual nunca tinha preparado um plano. Nunca pensou que pudesse passar por ela. José Sócrates encara a vida como uma relação de poder e na forma como ele a encara, nessa relação, ele está sempre na posição dominante. Isso condiciona toda a perspectiva dele sobre a vida, sobre as relações e sobre a forma como o mundo o pode tratar.

Essa conversa com inspector da Judiciária João Sousa é de facto dos pontos mais altos de "Cercado". Daquilo que conheces da figura política, pensas que onde outros veriam um fim ele vê uma possibilidade de capitalizar para futuramente ter uma carreira política?
Na cabeça dele, parece-me que sim. Na cabeça dele ainda pode ganhar o processo, ser ilibado, e nessas condições ganhar uma força pública que lhe permite continuar uma carreira política ao mais alto nível. Penso que é uma ilusão, que a carreira política de José Sócrates está acabada. Não tem condições para exercer nenhum cargo político ao mais alto nível e mesmo ao mais baixo nível. A carreira está acabada.

Mas julgo conhecer razoavelmente bem a cabeça do personagem para acreditar que de facto isto [para ele] não é o fim da linha. É um lutador, que se definiu como animal feroz. É um lutador compulsivo e um homem extremamente competitivo e até na cadeia, com os companheiros dele de cárcere, isso se nota.

Neste momento, parece altamente improvável face às decisões que foram sendo tomadas pelas instituições judiciais, mas no caso de ele sair limpo deste processo, acredito que ele crê que pode capitalizar politicamente a sua ilibação.

Que consequências teria para a justiça portuguesa uma não condenação?
Seria uma calamidade, uma tragédia para o sistema judicial. As pessoas começam a acreditar novamente no sistema judicial. Estamos a passar por um período histórico muito interessante em que já não existem os privilegiados que nunca são apanhados pela Justiça. O facto de esta procuradora-geral da República não olhar à conta bancária na hora de deter e de investigar os poderosos conferiu à sociedade portuguesa uma espécie de higiene democrática, que até agora ela não tinha. Se no caso em concreto a condenação não existir, todo o trabalho que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos vai por água abaixo, pelo menos do ponto de vista da percepção pública.

Mas isso também é um risco para este caso, deixar de se discutir o caso e os alegados crimes, em concreto, e passar a estar em causa algo de maior, que é a credibilidade do sistema judicial...
Claro, e isto pode ter um efeito pernicioso. Mais do que ninguém, o sistema judicial sabe que a sua credibilidade depende em grande parte do desfecho deste processo. E isso pode ser prejudicial para José Sócrates. Temos de ser justos. É evidente que acredito na independência dos juízes que vão julgar o caso se houver lugar a uma acusação, mas é uma situação complicada para José Sócrates porque parece-me a mim que só por milagre. Não acredito em Deus, sou ateu, mas se isso acontecesse reconsideraria a minha posição. Parece-me que só por intervenção divina é que ele pode não ser condenado, uma vez que a sua condenação é também uma defesa por parte do sistema judicial.