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Syriza: "Não somos antieuropeus, populistas, extremistas, monstros"

05 fev, 2015 • Vasco Gandra, em Bruxelas

"Não acredito que o verdadeiro sentimento do povo português e espanhol seja contra o governo grego", diz Dimitrios Papadimoulis, eurodeputado do Syriza, em entrevista à Renascença.

Syriza: "Não somos antieuropeus, populistas, extremistas, monstros"
"Os nossos opositores apresentam-nos como antieuropeus, populistas, extremistas, monstros", diz Dimitrios Papadimoulis, eurodeputado do Syriza.

Em entrevista à Renascença em Bruxelas, o vice-presidente do Parlamento Europeu defende que a Grécia e a Europa precisam de uma espécie de "New Deal", o plano que repôs de pé a economia dos Estados Unidos através de grandes investimentos, após o desastre bolsista de 1929.

As actuais negociações vão trazer mudanças nas políticas económicas europeias?
Sim, penso que a economia europeia e a Zona Euro precisam de algumas mudanças. Algumas começaram antes das eleições na Grécia. Tivemos o QE ["Quantitative Easing", decisão do BCE de comprar dívida pública dos países da Zona Euro], o "plano Juncker" [de grandes investimentos], a decisão da Comissão Europeia de introduzir mais flexibilidade no Pacto de Estabilidade e Crescimento.

E agora temos o grande perigo da deflação e da recessão na Zona Euro. Por causa da crise, temos um crescimento das desigualdades nos últimos cinco anos: o aumento do desemprego e da pobreza, e das desigualdades sociais e regionais. Por isso, precisamos de um "New Deal" europeu para voltarmos a crescer economicamente, para estabilizarmos a situação, reduzirmos o desemprego, aumentarmos a coesão e a solidariedade.

Os nossos opositores apresentam-nos como antieuropeus, populistas, extremistas, monstros. Mas a nossa proposta é criar um "New Deal" europeu para ajudar ao crescimento da economia e da coesão e reinvestir nos princípios fundadores do processo de unificação europeia: crescimento, coesão, solidariedade, democracia.

O novo governo grego deve pedir uma renegociação do Pacto de Estabilidade e de Crescimento ou maior flexibilidade na sua aplicação?
Tentamos construir pontes e consensos porque é a única forma de tomar decisões na Europa. Queremos trabalhar na ideia de uma maior flexibilidade para excluir os investimentos públicos do cálculo dos défices ou para incluir a dimensão social nos critérios de selecção dos investimentos que vão ser financiados pelo "plano Juncker". Assim, estes investimentos podem ir para as regiões com elevado desemprego ou para as que registaram uma grande queda de investimentos nos últimos anos. Isto é para reforçar a dimensão da coesão. Temos uma moeda comum, mas precisamos de ter uma política económica comum. Precisamos de mais Europa, mas que defenda os interesses de uma larga maioria da população e não apenas dos banqueiros e dos ricos.

Portugal e outros países periféricos como a Irlanda e Espanha deveriam pedir o mesmo tipo de negociações sobre a dívida, como está a fazer o governo grego? Estes países deveriam fazer um bloco unido para negociar com os parceiros europeus?
É uma questão em aberto. Em todo o caso, nós não queremos fazer uma coligação contra ninguém, uma coligação do Sul contra o Norte da Europa, ou contra o Centro da Europa ou contra a Alemanha. Nós respeitamos todos os países e governos europeus, mas, ao mesmo tempo, também queremos ser respeitados. Estamos prontos para encontrar soluções de compromisso para a Europa no seu todo. A necessidade urgente é criar um "New Deal" para o crescimento e a estabilidade da economia europeia porque os programas de austeridade unilateral falharam.

Obama não é do Syriza, mas fez um discurso forte contra a política dogmática e unilateral de austeridade, uma política que provocou uma mistura explosiva na Zona Euro, sobretudo no Sul. Compreendo que os interesses do governo de Espanha e provavelmente de Portugal os levem a manifestarem-se contra algumas das propostas do governo grego. Mas não acredito que o verdadeiro sentimento do povo português e espanhol seja contra o governo grego.

O novo governo em Atenas e o Syriza aqui no Parlamento Europeu opõem-se a dossiês europeus como o TTIP (Parceria Transatlântica para o Comércio e Investimento), as relações com a Nato ou as sanções à Rússia?
Sobre a Rússia, na última reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros tomámos uma decisão por unanimidade e participámos activamente na procura de uma solução. E a alta representante da União Europeia Federica Mogherini elogiou essa participação do governo grego. Queremos reduzir as tensões entre a Europa e Rússia. Queremos encontrar um caminho político e diplomático e tentar evitar mais tensões. O interesse europeu é ter a Rússia como parceiro. Não somos pró-russos, somos pró-europeus e pensamos que o interesse europeu é encontrar caminhos inteligentes para resolver os problemas.

Em relação ao TTIP, como partido temos muitos desacordos e dúvidas. Não conhecemos toda a negociação porque é feita em segredo. Estamos preparados para participar na nova fase do diálogo, mas quero ter mais informação e depois dar a minha opinião. Por agora, há informações de que parte das propostas em negociação é contra a existência de leis nacionais preservando os interesses das empresas multinacionais. Há desacordos e oposição de vários países, não estamos isolados, tentamos discutir e criar um consenso amplo para preservar os nossos interesses.

E sobre a Nato?
Não está nas nossas prioridades mudar o papel da Grécia dentro da Nato. Acreditamos num mundo sem tais estruturas, mas o mandato que recebemos do povo grego é o de encontrar soluções para a recessão, o desemprego, a pobreza, a dívida, de reformar o sistema fiscal e administrativo, de reduzir a burocracia e a corrupção, de tornar a Grécia um país respeitado e igual aos outros da Zona Euro e da UE. Não somos o Harry Potter, mas sim um dos governos dos 28 Estados-membros da UE.