Os sete dias alucinantes para os média no caso Sócrates

28 nov, 2014 • João Carlos Malta

Como se comportaram os jornalistas no tratamento da detenção do ex-PM? A relação crispada de Sócrates com a comunicação social condicionou o tratamento noticioso? Falta regulação? Três especialistas respondem à Renascença.

Os sete dias alucinantes para os média no caso Sócrates
O facto não tinha antecedentes. Nunca antes um primeiro-ministro tinha sido detido. Os órgãos de comunicação social e os jornalistas foram espectadores, mas também actores de um acontecimento judicial que se transformou automaticamente em mediático. Sem terem qualquer lastro passado.

Muitos acusaram os jornalistas de seguirem a pulsão justicialista que argumentam pulular em Portugal e de fazerem julgamentos em praça pública, em tom de “linchamento”.

Outros saíram em defesa dos média, “recentrando” o debate, para “que não se mate o mensageiro”, ou alertando para a necessidade de não limitar a liberdade de imprensa. Afinal, a notícia é José Sócrates e os alegados crimes de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

Uma semana depois, a Renascença falou com três especialistas em jornalismo para fazer uma primeira análise ao comportamento da Imprensa numa semana que ameaça mudar Portugal.

A avaliação aos média
O especialista em média Joaquim Vieira pensa que, de uma forma “global”, o tratamento noticioso à detenção de Sócrates está a ser o expectável, num caso “único” do ponto de vista histórico e que causa um natural interesse da opinião pública.

“Os média tentam de todas as formas ter informação, opiniões e depoimentos”, sinaliza.

Mas o antigo provedor do leitor do “Público” não exclui que haja alguns excessos (“O comportamento não é uniforme da parte dos média”) e alerta para a possibilidade de “haver alguns casos em que se saltou para conclusões demasiado depressa”.

Ainda assim, alerta para que se separe o essencial do acessório: “É preciso dizer que o facto de José Sócrates estar em prisão preventiva não é uma invenção dos jornalistas. É um dado da vida real, e não há nada a fazer a não ser dar o máximo de informação possível”.

Felisbela Lopes, professora de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho e comentadora televisiva para assuntos de média, também faz uma avaliação globalmente positiva. Mas é lesta a deixar alguns reparos. “É verdade que essa cobertura mediática está a ser pautada por alguns exageros, mas é inevitável porque foram várias horas em directo, de vários pontos, sem rede”.
Ainda assim, a especialista enquadra os erros. “Não havia informação por parte da justiça que pontuasse e que contextualizasse aquilo que estava em causa”.

A comentadora diz que é incompreensível que num caso destes o tribunal não dê informação aos jornalistas para que eles possam trabalhar. E argumenta que no espaço mediático, quando o discurso oficial dos tribunais não aparece, há campo aberto para o “rumor” e a “especulação”.


Jornalistas passaram longas horas junto do Tribunal Central de Instrução Criminal. Foto: Lusa

Separa o que diz ter de ser separado e assinala que os meios de comunicação que usaram com termos como “toda a verdade” ou “saiba tudo” “não são obviamente [casos de] bom jornalismo”.

Ainda assim, Felisbela Lopes alerta que os jornalistas não sabem, neste momento, o que está em segredo de justiça ou não”. O que abre uma questão: “Se os jornalistas respeitassem escrupulosamente o que está afixado por segredo de justiça podiam falar sobre este caso?”

O professor de sociologia dos média José Rebelo segue esta linha argumentativa. “Quando a informação não é suficientemente abundante e esclarecedora, a imprensa, através dos ‘onlines’, é obrigada a preencher os seus tempos e os seus espaços. A falta de informação leva a especular e ‘inventar’ conteúdos”, argumentou.

Mas também há semanários e diários que põem de parte toda e “qualquer preocupação deontológica”.

A avidez de novidades faz com que nem sempre a informação seja bem tratada, diz o docente do ISCTE. E justifica-o através de uma argumentação com três pilares.

Primeiro: a necessidade de novos conteúdos que aumentem as audiências, pressão que aumentou, diz, com o aparecimento dos canais de televisão privados e a proliferação de “sites” noticiosos.

Segundo: a busca da “pequena diferença marginal”, que em “jornalês” se traduz por “cacha”, ou seja, a novidade que cada jornalista quer trazer. Mesmo quando o novo facto não existe, afirma o professor, a informação redunda em “espectacularização”.

Por fim, as fugas de informação que alimentam todo o ciclo que Rebelo descreveu.

Sócrates e os seus perseguidos
A relação crispada de Sócrates com a comunicação social condicionou o tratamento noticioso? Felisbela Lopes responde com um meio “nim”.

“Não terá sido decisiva”, começa por responder. Mas? “Mas acho que teve um peso grande na forma como determinados jornais e um canal de informação no cabo tem feito notícias em relação a este caso”, disse, sem concretizar.

Joaquim Vieira não identifica nenhum “sentimento revanchista” dos média. E não acha que Sócrates seja diferente em nada quando comparado com outros.

“Se fosse outro primeiro-ministro [a comunicação social] teria também esta atitude”. E o facto de haver antigos jornalistas ou directores de jornais que vêm clamar razão nas acusações passadas ao ex-primeiro-ministro e reclamar o estatuto de perseguidos de Sócrates é visto por Joaquim Vieira como “natural” e que não reflecte aquilo que “é o comportamento dos jornalistas”.

Por fim, José Rebelo considera a questão complicada. Mas diz que o tempo dos órgãos de comunicação social é muito rápido e a maior parte dos jornalistas que reportou este caso muito provavelmente nem estava na profissão quando Sócrates exerceu as funções governativas.

E alerta para um perigo: “Os média andam atrás da agenda e, depois do que aconteceu com José Sócrates, o que aconteceu com os vistos ‘gold’? Não há continuidade de tratamento do acontecimento. Tudo é tratado no plano do imediato.”

As “selfies” junto à cadeia e o cozido a portuguesa
Durante os últimos sete dias, houve centenas, senão milhares de notícias, sobre Sócrates. No meio desta floresta noticiosa há algumas árvores que deixaram algum espanto. Houve adolescentes a tirarem fotos à frente do estabelecimento prisional de Évora para publicarem nas redes sociais. Houve títulos de jornais a revelar aos portugueses o que o ex-primeiro ministro comia ao almoço.

Isto tem valor noticioso?

Para o jornalista Joaquim Vieira a resposta é um “sim” a negrito. “Se as pessoas quiserem ver a informação é notícia. Há diferentes órgãos de comunicação social com diferentes linhas editoriais e aquilo que tem valor notícia para um não tem para outros”, argumenta.

Então, tudo tem valor-notícia desde que haja uma pessoa que queira saber? “Exacto, o público é que faz a sua avaliação. Se o público achar que não tem valor-notícia deixa de ler ou de consumir”, assume.

Joaquim Vieira até admite que pode fomentar o voyeurismo, mas diz que isso faz parte das regras do jogo. “Não vamos ser ingénuos e dizer que há uma forma ideal na forma como os média agem. Há um excesso de puritanismo quando olhamos para eles”, remata.


Visita da ex-mulher de Sócrates foi notícia. Foto: Lusa

A posição contrária é defendida por Felisbela Lopes. “Selfies” à frente da cadeia e cardápios de refeições “não têm qualquer valor-notícia”. E acrescenta: “Tal como nunca deveria ter acontecido vermos motas com câmaras de televisão que perseguiam a carrinha de Sócrates até Évora.”

O jornalismo deve ser mais regulado?
O caso Sócrates, até porque aparece aos olhos de todos, também é mais facilmente escrutinável. Os eventuais abusos dos média estão a ser sinalizados. A deontologia está a ser respeitada?

Felisbela Lopes é telegráfica: “Este não é o momento para essa discussão”. Já Joaquim Vieira até admite que eventualmente haja uma falta de regulamentação. Ainda assim alerta: “Não existe um mundo perfeito em que os média se comportem da mesma maneira”. “O código deontológico não é uma bíblia”, argumenta.

Vieira diz acreditar que há um certo grau de “auto-regulação” no sector e que há leis em Portugal que que protegem os cidadãos da invasão da intimidade. Ou seja, os jornalistas que violem essas leis “correm o risco de ser processados. E às vezes são”.

Notícias ao segundo e desinformação
É possível que muita informação leve à desinformação? Ou seja, à medida que saem notícias, os leitores entram numa “overdose” informativa que leva à rejeição de notícias muitas vezes contraditórias. Nada mais errado, na perspectiva de Joaquim Vieira.

“Numa sociedade livre e aberta não há nenhuma forma de fazer com que os média se disciplinem. É natural que queiram ter o máximo de informação”.

E se pode haver pessoas a quem desagrada 40 minutos de noticiários de televisão sobre este caso ou 20 páginas de um jornal numa só edição, outras “continuam a seguir o que as TVs debitam”. E a prova, diz, é que “estes casos fazem com que as audiências e as tiragens também aumentem”.