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Na Casa Grande aprende-se a rotina e vive-se com a diferença

05 jun, 2014 • Filomena Barros

Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger construiu, em Lisboa, um projecto pioneiro para garantir futuro a jovens que são especiais.

Piedade Líbano Monteiro sempre soube que o seu filho era diferente, mas tudo mudou quando teve a certeza. Confrontar-se com a confirmação de que o filho tem síndrome de Asperger não se esquece.

Trata-se de uma disfunção neuro-comportamental de base genética, uma forma leve de autismo, "que não se vê na cara".

"Foi uma tremenda viagem ao futuro porque o que eu senti foi olhar para o meu filho, ainda na cadeirinha de bebé, e pensar: como é que vai ser o futuro deste meu rapaz? E depois é outra viagem ao presente, e dizer: pois, mas agora está cá. E agora?".

A preocupação com o futuro levou a Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) a construir a Casa Grande, em Lisboa, um projecto pioneiro para garantir futuro a jovens que são especiais. 

Aprender a rotina
A APSA dá duas respostas sociais: o Centro de Actividades Ocupacionais ("Das 9h30 às 17h30, estão a fazer treino de competências sociais e funcionais") e a Casa Autónoma.

Na Casa Autónoma podem viver cinco jovens que estão mais longe de casa para estudar ou ter acompanhamento médico. Nesta altura, é lá que reside um jovem do Algarve.

O Centro de Actividades Ocupacionais tem capacidade para 18 pessoas. Neste momento, acolhe 13, com idades entre os 19 e os 29 anos.

Todos aprendem coisas da rotina diária, como ir ao banco, ao correio, fazer a lista dos lanches, pôr e levantar a mesa, lavar a loiça.

"Quem nos ouve falar acha que isto é ridículo, porque pensa que toda a gente sabe fazer isto... Não, não sabe!", desabafa Piedade Líbano Monteiro.

"Colo aos pais"
Para construir a Casa Grande foi preciso angariar 350 mil euros, valor investido na recuperação do edifício cedido pela Câmara de Lisboa, na Quinta da Granja, em Benfica.

Além das obras, é preciso financiar a equipa técnica, formada por três psicólogas (uma é directora técnica), uma assistente social e quatro auxiliares.

O projecto tem o apoio da Segurança Social, mas as famílias pagam uma parte das despesas: um jovem na Casa Autónoma custa à volta de 1.800 euros; nas Actividades de Integração na Comunidade, cerca de 1.200 euros.

No futuro, a associação pretende apostar em negócios sociais, para obter receitas, mas também para abrir as portas à comunidade.

O projecto da Casa Grande serve de "colo aos pais", acompanha e desenvolve as competências dos jovens e pretende ser um complemento ao trabalho feito nas escolas, mas quer também chegar até às empresas.

Em Portugal, há cerca de 40 mil portadores da Síndrome de Asperger, sobretudo rapazes.

Para melhor conhecer esta realidade, a APSA vai fazer um estudo nas zonas de Lisboa e do Porto.