|

 Casos Ativos

 Suspeitos Atuais

 Recuperados

 Mortes

Início da Quaresma

Precisa-se: corações fortes para combater a indiferença

18 fev, 2015 • Filipe d'Avillez

Três católicos e um não crente comentam a mensagem do Papa. Guilherme d'Oliveira Martins, Catarina Martins, Henrique Pinto e Pedro Adão e Silva reflectem sobre o desafio colocado por Francisco.

Precisa-se: corações fortes para combater a indiferença
No dia em que começa a Quaresma, a Renascença pediu a quatro figuras da sociedade portuguesa (três católicos e um não crente) para comentarem a mensagem do Papa para estes 40 dias de penitência que antecedem a Páscoa. Francisco convidou a sociedade a superar o "mar da indiferença".

"Quando estamos bem e comodamente instalados esquecemo-nos facilmente dos outros, não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem. Assim, o nosso coração cai na indiferença", escreveu o Papa na mensagem para a quaresma. A "atitude egoísta de indiferença" atingiu "uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença", lamenta.

A caridade enquanto exigência perante o nosso próximo
Guilherme d' Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas e do Centro Nacional de Cultura, católico



Foto: Lusa

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2015 é muito forte e articula-se com o que o Papa nos tem dito sobre o combate à indiferença e a necessidade de nos empenharmos na ajuda aos outros, na compreensão dos outros, e por isso o título é: "Fortalecei os vossos corações".

Falar da necessidade de fortalecer os nossos corações é, antes de mais, perceber aquilo que São Paulo nos diz, de que se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros. A crise é o pano de fundo desta mensagem. O Papa não usa a palavra crise, mas fala da necessidade de estarmos atentos e de cuidarmos daquilo que nos rodeia. Há profundas injustiças que a crise gerou e agravou e é por isso que esta mensagem deve ser lida em paralelo com a exortação apostólica "Evangelii Gaudium", designadamente quando o Papa muito claramente diz: "Cuidado, aqueles que pensam que o mercado só por si vai resolver as injustiças estão profundamente enganados, porque o mercado nesse particular é cego e, sendo cego, é indispensável que nós, cristãos, possamos contrapor a atenção e o cuidado."

Falar de cuidado é falar da caridade. A virtude da caridade é hoje mais importante que nunca, e não é uma virtude defensiva, é uma virtude afirmativa. Se alguém sofre ao nosso lado, muitas vezes não o exprimindo, porque a pobreza pode ser encoberta, todos sofrem, pelo que é indispensável termos respostas adequadas.

Há um segundo ponto em que o Papa nos pergunta: "Onde está o teu irmão?". É uma afirmação muito forte, que vem a propósito da relação entre Caim e Abel. A morte de Abel obriga a perceber que descurámos o cuidado do nosso irmão, mas de facto a caridade é um dever, uma responsabilidade, uma exigência, perante o nosso próximo.

A terceira ideia tem a ver justamente com o título: "Fortalecei os vossos Corações".
Temos de combater a tentação da indiferença. Diz o Papa que estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência? É um apelo a todos nós que abrimos as televisões, que vemos na internet, tudo aquilo que se passa, sendo que o nosso coração fica de algum modo indiferente. Tanta é a dificuldade, tanto é o terror, que dizemos que nada podemos fazer.

O Papa vem dizer: fortalecei os vossos corações e estai atentos para garantir que afinal os outros não são algo de distante e indiferente, relativamente àquilo que devemos fazer.

Contra a "nova normalidade"
Pedro Adão e Silva, professor universitário, não crente


Foto: DR

A força da voz depende sempre da capacidade, por um lado de mobilizar os crentes e, por outro, de interpelar os não-crentes. Aliás, há uma passagem em que o Papa diz mesmo que a Igreja não pode viver fechada sobre si mesma.

Esta mensagem em particular interpela os não crentes, como é o meu caso, porque tenta ter uma resposta para as questões que se nos colocam e que se colocam hoje na nossa vida quotidiana.

Há duas dimensões que me interpelam nesta mensagem. Uma é a forma como a compaixão e a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros surge e é enfatizada. Isso está articulado com a segunda dimensão, que é a expressão que o Papa usa: a "globalização da indiferença". A forma como estamos saturados com os relatos diários do sofrimento humano, a forma como lemos, vemos e ouvimos esses relatos com alguma indiferença, é uma nova normalidade, que é talvez o principal mal dos nossos dias.

O que o Papa aqui sugere é que a solidariedade e a compaixão podem ser uma resposta aos egoísmos e à fragmentação e a esta anomia social. Isto é particularmente premente nos nossos dias.

A última nota que gostava de salientar é a forma como o Papa de certa forma tenta materializar um princípio espiritual, que é o compromisso com o mundo de que fala. Ou seja, isto não é apenas uma mensagem espiritual, pelo contrário, é uma tentativa de transpor um princípio numa prática e materializá-lo.

O poder da oração
Catarina Martins, directora da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, católica

Foto: DR

Na sua mensagem da Quaresma, o Papa Francisco pede-nos para não subestimarmos a força da oração e deixa também uma ideia muito clara que para nós, na Ajuda à Igreja que Sofre, tem muito sentido: se um membro está a sofrer, todos os membros sofrem com ele.

Estas duas imagens que o Papa Francisco deixa na sua mensagem são muito importantes para nós na Ajuda à Igreja que Sofre. A oração, nós sabemos que é fundamental. A primeira coisa que nos pedem todas as pessoas que nos ligam, que nos telefonam e escrevem e-mails a contar as situações dramáticas que vivem nos seus países, são orações. Orações para continuarem a ter força, para continuarem a ter fé, para continuarem a estar e serem um testemunho de Deus naquele país.

A outra mensagem, de que se um membro sofre, todos os membros sofrem, é também muito importante para nós porque é nesta citação que se baseia o nosso trabalho. Se temos alguém no mundo que está a sofrer porque é cristão, porque está a ser perseguido pela sua fé, nós, cristãos do Ocidente, também estamos a sofrer e com eles vamos aprender que neste sofrimento também há muita alegria. Eles dão-nos um exemplo de fé que para nós, que vivemos aqui na Europa, é muito importante receber.

Esta é uma mensagem que nos mostra o poder da oração, que é um valor imenso, incalculável, e tão importante para quem está no terreno e necessita dela.

A necessidade de nos sentirmos comunidade
Henrique Pinto, fundador da Impossible – Passionate Happenings e responsável pela campanha "Movimento Pobreza Ilegal", católico

Foto: DR

Esta mensagem está na linha de uma Igreja que o Papa quer pobre, para os pobres. É um texto que toca num ponto que no meu entender é principal factor para tantas assimetrias, tanta pobreza e empobrecimento, do qual todos os dias muita gente se lamenta: a globalização da indiferença.

Hoje vivemos tremendamente indiferentes em relação à história dos outros. Vivemos como se a história e o destino dos outros não nos diz respeito. O Papa contesta isso e contesta-o a partir da própria revelação, quando diz que Deus não é um Deus indiferente, porque se O fosse não teria encarnado, não teria Ele mesmo vivido um abandono de Si mesmo, a favor da humanidade, da criação, de tudo quanto é, obra querida e amada por Deus.

E é à imagem de um Deus que não é indiferente, em Jesus, que ele convida todas as paróquias e comunidades a serem missionárias, para poderem ser ilhas de misericórdia que vão para fora de si mesmas e vão ao encontro dos outros, porque a mensagem do Evangelho não é uma mensagem apenas para um pequeno grupo, um grupo de crentes, de cristãos, mas para toda a humanidade.

Creio que o Papa se dá conta que actualmente, sobretudo no Ocidente, vivemos uma experiência remota de comunidade, porque combater a indiferença, esta globalização da indiferença, exige que nos sintamos e vivamos como comunidade.

Como o Papa diz, sendo todos parte de um todo, havendo quem no todo esteja mal todos os outros membros se devem sentir mal e devem preocupar-se com esse membro da comunidade que está mal, sendo ele eventualmente pobre, desempregado, imigrante, marginalizado, abandonado.