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Reportagem

Vitória de costa a Costa. "Vamos para o Marquês comemorar?"

29 set, 2014 • João Carlos Malta (texto) e Joana Bourgard (imagem)

Houve doces, salgados, apelos à união e uma marcha triunfal. Esta segunda-feira é o primeiro dia do resto da vida de António Costa, mas, antes, houve tempo, como o próprio disse, para "beber uma imperial".

Vitória de costa a Costa. "Vamos para o Marquês comemorar?"
Vitória de costa a Costa. "Vamos para o Marquês comemorar?"
Esta segunda-feira é o primeiro dia do resto da vida de António Costa. A vitória de António Costa e a consequente demissão de António José Seguro nas primárias de domingo abrem as portas a um processo de mudança no PS que ainda só começou e que só deve terminar quase no fim do ano.
"Já se demitiu", solta um apoiante de António Costa enquanto olha para as imagens das televisões que chegam de Seguro no Largo do Rato, sem som. A informação corre, já confirmada, como um rastilho para detonar a primeira explosão de alegria no Fórum Lisboa, quartel-general do presidente da Câmara de Lisboa. Acto reflexo: gritos de júbilo. "Costa, Costa, Costa!", "vitória, vitória, vitória!".

Até aí, no ar nunca chegou a haver tensão. Entre os apoiantes de Costa não havia dúvidas. Ainda não eram muitos os que se juntavam perto da lisboeta Avenida de Roma, talvez porque a noite eleitoral prometia ser muito longa.

Era a primeira vez que um partido abria uma eleição à sociedade civil. Mas, afinal, em três horas tudo ficou resolvido. A onda Costa arrebatou o PS e a vitória foi arrasadora.

Minutos depois, Costa faria um discurso de união, mas os apoiantes, extasiados com a confirmação do triunfo, não perderam tempo para dar um recado ao adversário da noite. "A ver se ele aproveita e arruma já a secretária", atirou um adepto em êxtase.

Uma figura de proa do PS e apoiante acérrimo de Costa atira também uma daquelas frases irrepetíveis em "on": "Acaba agora uma fase negra da história do PS".

Docinhos, salgadinhos e uma "ganda abada"
Antes, já os telemóveis fervilhavam em mensagens e em ligações à internet na procura de mais informações sobre os resultados finais.

Mas as vitórias precisam de força. E a campanha de Costa preparou uns "docinhos" e um "salgadinhos" regados com copo de vinho, uma cerveja ou uma Coca-Cola, mediante o gosto do apoiante socialista.

"Eh pá! De cada vez que passo há mais comida", diz uma mulher entusiasmada. Um jovem atira para um amigo: "Estás sempre onde há comida". E ri-se.


Foto: Joana Bourgard/RR

Junto ao balcão do bar, o ambiente era animado e sentindo que o adversário tinha ido ao tapete houve quem quisesse fazer um autêntico "finish him". "‘Ca ganda’ abada pá: 90 a 10. 'Jasus'!", gritava um amigo para outro, enquanto metia mais um salgado à boca.

O resultado final foi muito menos desequilibrado. Mas àquela hora ninguém queria saber.

A marcha triunfal
O número de pessoas que chegam ao local onde ocorreria o discurso de vitória não pára de aumentar. Já é certa a vitória. Ana Catarina Mendes, directora nacional da campanha, vai ao púlpito e avisa as hostes: "Daqui a 15 minutos haverá o discurso no anfiteatro".

O povo socialista começa a ocupar a sala. Sorrisos para todos os lados, abraços sem término, e fotos, muitas fotos, para mais tarde recordar. Os notáveis começam a chegar: Fernando Medina, Vieira da Silva, Costa Pina, Ana Paula Vitorino e muitos outros.

As pessoas já lá estavam e a boa moldura humana assegurada, mas era preciso criar a imagem televisiva. Faltavam as bandeiras para o folclore que estes momentos exigem. Um, dois, três, quatro elementos do "staff" da campanha tratam do assunto. Pouco tempo depois, não havia quem não segurasse um pau com a bandeira do PS ou de Portugal.

Poucos minutos depois começa o burburinho: Costa é vencedor, o agora candidato socialista a primeiro-ministro vai entrar no palco.

Um momento de suspense, até que soa uma marcha triunfal. É o sinal: vem aí o vencedor. Já longe das mangas de camisa e das sapatilhas que tinha mostrado às televisões quando votava de manhã, Costa entra em palco com um cravo ao peito, braços levantados, punho cerrado. "PS, PS, PS" ecoa mecânico e grandiloquente em toda a sala.

O mestre-de-cerimónias está no palco e atira o cravo para o público. Já ninguém se deve lembrar daquele momento que a campanha de Seguro tinha feito um "spot" de promoção da campanha em que se via alguém, que se intuía ser Costa, cortar a dita flor abrilista.

Voltemos ao Fórum Lisboa e a Costa claro. Tem o seu estado-maior ao lado: Manuel Alegre, Ferro Rodrigues, Carlos César e Ana Catarina Mendes.

O discurso é curto, tem dez minutos divididos em três pontos: elogiar a mobilização que o PS conseguiu, unir o partido dizendo que não há derrotados e apontar baterias ao Governo: "Este é o primeiro dia dos últimos do actual Governo", dispara Costa.

O administrador da EDP "cidadão"
O agora candidato a primeiro-ministro do PS, e muito provável futuro secretário-geral, sai de palco depois de dizer que quer devolver a Portugal "confiança no futuro". Acabam as palavras de consagração e começa o hino nacional. O vitorioso candidato sai de palco ao ritmo dos abraços dos camaradas.

São esses camaradas que ficam para fazer agora os comentários às televisões, às rádios e aos jornais. Encontramos entre eles João Marques da Cruz, membro comissão executiva da EDP, que, com a bandeira do PS em punho, fala à Renascença.

"Estas eleições são a prova de que quando os partidos se abrem às pessoas a adesão é sempre boa", diz. "Nasce um novo ciclo para o PS e para o país".

A conversa prossegue até à pergunta inevitável: "Numa campanha em que as acusações de promiscuidade entre negócios e política foram feitos a António Costa, nomeando apoiantes que o personificam, sendo Marques da Cruz administrador da EDP, não se sentiu atingido?".

"Separo totalmente as minhas responsabilidades como cidadão e profissionais. Estou cá como cidadão", dispara Marques da Cruz. Insistência: "Não o ofendeu?" "Nas campanhas eleitorais dizem-se coisas que as pessoas, posteriormente, e a frio não se revêem", responde.

Um partido "muito unido"
Se o dia foi marcante para António Costa, também para Fernando Medina marcará a sua história pessoal. Ele é o número dois de Costa na Câmara de Lisboa.

"É um dia muito especial e de esperança", avança de imediato Fernando Medina à Renascença. Não acha que o PS saia enfraquecido de uma campanha com muitos ataques pessoais – "o PS provou que é maior do que si próprio".

E Fernando Medina já se sente futuro presidente da Câmara? Nada disso, afirma ele. "Hoje estou só a comemorar um grande dia para o qual lutei muito".

Nesta altura, já o anfiteatro do Fórum Lisboa começava a esvaziar-se. Não sem antes de dois jovens de menos de 20 anos passarem em corrida e gritarem entre gargalhadas: "Agora é para o Marquês, não é?".

Os apoiantes seguiram para a entrada daquele espaço que pertence a autarquia lisboeta. Um deles, o deputado João Galamba. Alinha no discurso de Medina. "O PS sai reforçado, e internamente muito unido", avança.

Costa sai diminuído de uma batalha desgastante? "Não, este é um resultado muito forte". A pergunta que se segue é quando espera que Costa comece a apresentar propostas concretas. "Isso é o que se diz", diz Galamba apressado. E, de seguida, diz: "Leia a moção e veja as propostas".

Camané presente, mas o fado foi triunfal
Outros notáveis do PS continuam as reacções sobre reacções. O momento exige e os directos das televisões também. Mário Lino, ex-ministro de Sócrates, desmultiplica-se. Mas também há vozes da cultura: Camané ou António Pedro Vasconcelos.

Nisto, um vendedor da revista "Cais" passa pela reportagem da Renascença. "É um bom local para vender?", atiramos. "Ó homem, eu não falo com jornalistas, vocês só querem fotografias", responde. "Vende-se sempre qualquer coisa". Segue de imediato, sem parar, na tentativa de vender mais um exemplar.

Foto: Joana Bourgard/RR

Mais à frente no palco da vitória e, apesar das acusações de que só tinha as elites com ele, Beatriz Vaz, professora reformada, e Albina Fonseca, doméstica, não quiseram perder o momento da saída de Costa. Estão com ele e estas coisas são para a posteridade. Não chegaram a tempo de ver o discurso, mas queriam vê-lo ainda assim. "Queremos apoiá-lo a mudar de política. Ele foi um bom presidente da Câmara", justificam.

Mas o que é que o distingue de Seguro? Aí entram numa análise mais pessoal: "Tem mais conhecimentos e é mais maduro".

O pano começava a cair na noite em que o Fórum Lisboa foi um fórum iniciático daquilo que Costa quer que seja um tubo de ensaio para a vitória nacional daqui a um ano.

Esta segunda-feira é o primeiro dia do resto da vida de António Costa, mas antes houve tempo, como o próprio disse, para "beber uma imperial".