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Tudo o que precisa saber sobre a Crimeia

02 Mar, 2014 • Filipe d'Avillez

Quem é quem neste conflito, porque é que a Rússia está a intervir na Crimeia e quais têm sido as posições dos Governo ocidentais perante a invasão russa? Encontre aqui todas as respostas para as suas dúvidas.
A Renascença preparou uma série de tópicos para o ajudar a compreender o que se está a passar na actual crise na Crimeia.

Qual é a situação no terreno? 
O ocidente tem obrigação de intervir para ajudar a Ucrânia?
Quais têm sido as reacções internacionais à invasão da Crimeia?
Quem vive na Crimeia?
Porque é que há militares russos na Crimeia? 
Como é que se chegou a este ponto?
E agora?
Quem é quem nesta disputa?


Qual é a situação no terreno?
Actualmente a Rússia controla totalmente a situação na Crimeia.

No dia 16 de Março, em referendo cuja legalidade é contestada pela Ucrânia e os seus aliados internacionais, os cidadãos daquela península votaram a favor da integração na Rússia. No dia 17 o pedido foi formalizado e ainda essa semana Vladimir Putin assinou um decreto aceitando a integração da Crimeia na Federação Russa.

No dia 24 de Março, após algumas semanas de resistência não armada, a Crimeia ordenou a retirada de todos os seus soldados da Crimeia, reconhecendo com isso a soberania russa de facto, se não de jure. Durante as semanas em que os militares de aguentaram nas bases várias foram ocupadas à força pelos russos e pelo menos um soldado ucraniano foi morto num desses assaltos.

O Governo interino tem apelado à ajuda dos seus aliados ocidentais, que até agora responderam apenas com palavras condenatórias e algumas medidas diplomáticas, incluindo sanções direccionadas a algumas figuras.

No dia 4 de Março, em conferência de imprensa, Vladimir Putin disse que o recurso à força na Ucrânia será um último recurso, mas que a Rússia se reserva ao direito de o fazer caso seja necessário socorrer as populações das zonas oriental e do sul da Ucrânia. Putin argumenta que Yanukovich é o presidente legítimo da Ucrânia e que o seu pedido de intervenção russa justifica a intervenção do ponto de vista do direito internacional. Contudo, numa medida mais apaziguadora, a Rússia mandou de volta para as bases as tropas que se encontravam em estado de alerta junto à fronteira com a Ucrânia, apesar de as forças na Crimeia se manterem.

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O ocidente tem obrigação de intervir para ajudar a Ucrânia? 
Através de um acordo de 1994 os Estados Unidos e o Reino Unido garantiram proteger a soberania e integridade territorial da Ucrânia, em troca do seu total desarmamento nuclear. Ironicamente a Rússia também faz parte deste acordo.

Contudo, nada indica que esses dois países tenham intenções de agir militarmente, considerando que isso apenas pioraria a situação, tornando-a um conflito em larga escala. 

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Quais têm sido as reacções internacionais à invasão da Crimeia?
Os países ocidentais têm repudiado a intervenção militar russa na Crimeia.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Rui Machete, deu conta da sua preocupação com a acção da Rússia.

Barack Obama conversou durante 90 minutos com Vladimir Putin, exigindo que o presidente da Rússia mande os seus soldados de volta para as bases, mas Putin terá dito que fará tudo para defender os interesses da Rússia na região, incluindo a maioria da população que se considera russa. John Kerry, secretário de Estado da administração Obama, fala na possibilidade de isolar a Rússia e impôr sanções económicas. Moscovo reagiu furiosamente, acusando Kerry de fazer ameaças inaceitáveis. Os EUA vieram mais tarde suspender todas as relações militares e operações conjuntas com a Rússia, bem como conversações comerciais e financeiras. No dia 4 de Março, à chegada a Kiev, John Kerry prometeu apoio financeiro e logístico à Ucrânia e disse que o seu país está pronto para avançar com sanções contra Moscovo numa questão de dias e não de semanas, ignorando assim os avisos que tinham sido feitos horas antes por Putin de que quaisquer sanções seriam contraproducentes. Mais tarde, em conferência de imprensa, Kerry disse que os EUA e os seus aliados estão preparados para isolar a Rússia politica, diplomática e economicamente.

França e o Reino Unido já anunciaram a suspensão das suas participações nas reuniões preparatórias do encontro do G8 que se vai realizar em Sochi, na Rússia, com os Estados Unidos a dizer que também estão dispostos a boicotar o encontro. A Rússia respondeu dizendo que não há razões para boicotar a reunião e que isso apenas prejudica a comunidade internacional. Na terça-feira, dia 4 de Março, Vladimir Putin disse que a Rússia está preparada para organizar o encontro e que se os países ocidentais não quiserem vir, ninguém os obriga.

O Canadá, até agora, tomou a medida diplomática mais severa, chamando o seu embaixador em Moscovo e dizendo também que poderá boicotar o encontro do G8.

A NATO acusou a Rússia de ameaçar a paz na região e na Europa e de estar a violar a carta das Nações Unidas com as suas acções.

A maioria dos países da União Europeia condenou severamente a invasão russa e suspendeu as negociações com Moscovo sobre emissão de vistos. Foi ainda agendada uma cimeira para discutir a situação na quinta-feira dia 6 de Março. Apenas a Alemanha tem evitado usar um tom mais aceso. Berlim tem ligações económicas e diplomáticas próximas com Moscovo e continua apostada em procurar uma solução política para o problema.

Entretanto a bolsa russa ressentiu-se duramente da intervenção, caindo 10 pontos percentuais na segunda-feira 3 de Março, apesar de uma ligeira recuperação no dia 4. O isolamento económico de Moscovo poderá ser uma das "armas" escolhidas pelo Ocidente neste conflito.

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Quem vive na Crimeia?
A república autónoma da Crimeia, junto ao Mar Negro, é sede de um porto naval russo de extrema importância para Moscovo e é a única região da Ucrânia em que a maioria da população é de etnia russa.

A península tem sido disputada ao longo dos séculos. Foi invadida pelos nazis, na II Guerra Mundial, e, depois, integrou o regime Soviético. Contudo, em 1954, foi transferida por Nikita Kruschev para a Ucrânia.

A população nativa não é ucraniana nem russa: os tártaros são, actualmente, minoritários na Crimeia, tendo sido expulsos em massa pelos sucessivos governos russos, em particular, pelo regime soviético, por suspeita de simpatias e colaboração com os Nazis.

Actualmente quase 60% da população é de etnia russa; 24% ucraniana e cerca de 12% tártaros. Os tártaros são tradicionalmente muçulmanos. Com a instabilidade muitos dos cidadãos de etnia ucraniana abandonaram a península, pelo que as estatísticas poderão já não reflectir a realidade.

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Porque é que há militares russos na Crimeia?
Depois do desmantelamento da União Soviética, a Rússia manteve algumas bases militares na Crimeia, incluindo o porto naval que alberga a sua frota do Mar Negro. Esta presença é regulamentada por um acordo com a Ucrânia, em troca da qual a Rússia fornece Kiev com gás natural a preços especiais.

A esmagadora maioria dos soldados russos no terreno são destas bases, mas há indícios que alguns terão sido transferidos mais recentemente, directamente da Rússia.

Há ainda alguns relatos de soldados russos em cidades do leste da Ucrânia que também são maioritariamente habitadas por pessoas de etnia russa, incluindo Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia.

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Como é que se chegou a este ponto?
Na raiz desta situação estão as manifestações de mais de dois meses na Praça da Independência, em Kiev, que acabaram por destituir o presidente pró-russo Alexander Yanukovich.

Essas manifestações foram feitas sobretudo por ucranianos do ocidente do país, que é tradicionalmente mais próximo da Europa, mas contavam com pouco apoio no leste do país, onde muitos dos cidadãos se identificam mais com a Rússia ou são mesmo etnicamente russos.

Com a queda de Yanukovich realizaram-se algumas manifestações pró e contra o novo Governo de Kiev frente ao parlamento regional da Crimeia, mas cedo se percebeu que a esmagadora maioria dos manifestantes eram contra o novo Governo.

Bandos de homens de etnia russa formaram “brigadas de auto-defesa” e ocuparam alguns dos principais edifícios públicos da capital, Simferopol e de outras cidades. No dia seguinte começaram a surgir homens fardados e muito bem armados em vários pontos estratégicos, como o aeroporto e o parlamento. Apesar de não estarem identificados, tudo indica que se trata de militares russos.

No parlamento regional os deputados pró-ucranianos foram expulsos e um novo primeiro-ministro da região autónoma foi nomeado. Sergei Aksenov afirmou que a partir daquele momento todas as forças ucranianas na Crimeia respondiam directamente perante ele e apelou a Vladimir Putin que interviesse para assegurar a estabilidade na região.

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E agora?
Tudo indica que a Crimeia passará a fazer parte, de facto, da Federação Russa, mesmo que a anexação não seja reconhecida internacionalmente.

Não é natural que haja uma resistência armada à ocupação militar da Rússia, mas o Ocidente impôs sanções contra algumas figuras da Rússia. 

Como esperado, a Crimeia aprovou em referendo a anexação à Rússia, que já foi aceite por Putin. 

A situação na Crimeia assemelha-se cada vez mais ao cenário que se passou em 2008 com a Ossétia do Sul e a Abkhazia, regiões pró-russas da Georgia que a Rússia apoiou durante uma curta guerra que terminou com a separação de facto das regiões, apesar de não reconhecida pela Geórgia nem pela maior parte da comunidade internacional. 

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Quem é quem nesta disputa?
Há vários actores a ter em atenção neste conflito.

Vladimir Putin é o principal. O presidente da Rússia é quem está directamente por detrás das acções militares do seu país na Crimeia.

Oleksander Turchinov é o presidente interino da Ucrânia e tem, em conjunto com o primeiro-ministro Arseniyi Yatsenyuk, condenado a violação da soberania e integridade territorial do seu país por parte da Rússia. Turchinov e Yatsenyuk falam numa “declaração de guerra” por parte da Rússia e apelam a “acções concretas” por parte dos seus aliados ocidentais.

No terreno um dos homens mais influentes é Sergei Aksenov, o líder pró-russo da República Autónoma da Crimeia, que convidou Vladimir Putin a intervir para estabilizar a região e declarou-se directamente responsável por todas as forças policiais e militares ucranianas na Crimeia.

[Actualizado dia 24 de Março às 12h29]