71 anos numa infografia. Secas são cada vez mais frequentes e intensas

05 dez, 2017 - 10:18 • Rui Barros

É normal Portugal enfrentar uma seca, mas as alterações climáticas tornam estas situações mais graves e habituais. “Os padrões do que era normal estão a mudar", avisa especialista.
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Secas mais frequentes e mais intensas, num cenário de alterações climáticas com temperaturas mais altas. No momento em que Portugal atravessa uma das piores secas desde que há registo, os dados históricos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) apontam para um futuro em que o país terá que estar habituado a gerir bem a sua água.

Entre 1941 e 2012 (os últimos dados disponíveis), as 36 estações meteorológicas analisadas por três meteorologistas do IPMA registaram 11 situações de seca.

Os episódios concentram-se, sobretudo, a partir da década de 1970, momento em que o país registou uma subida das temperaturas médias. Só entre 1970 e 2012 três quartos das estações meteorológicas em Portugal registaram oito situações de seca, com a mais grave a acontecer entre 2004 e 2006, pela severidade, duração ou extensão territorial. Durante esse período, 34% do território esteve mais de nove meses consecutivos em seca severa e extrema.

Essa não foi, no entanto, a seca mais prolongada. A seca de 1943-1946 foi o período mais longo registado nos 71 anos analisados. Nessa altura, as populações de Castelo Branco e Porto viveram quase três anos sem que os níveis de água retomassem à normalidade.

“Temos um clima bastante susceptível a situações de seca”, explica à Renascença uma das autoras do estudo do IPMA, Vanda Pires, que aponta a influência do anticiclone dos Açores como uma das principais causas para os períodos de seca a que a Península Ibérica está habituada.

O maior problema não está, por isso, na ocorrência de episódios de maior seca, mas sim na frequência e intensidade com que ocorrem, que começam a preocupar os investigadores.

“Os padrões do que era normal, no que toca à precipitação e variação da temperatura, têm-se estado a alterar”, defende a meteorologista.

Mais calor, menos chuva

Vanda Pires registou e analisou a evolução dos índices de seca em Portugal em 71 anos, através dos dados das estações meteorológicas do IPMA. Aos dados de precipitação, a investigadora aliou os valores de evapotranspiração e quantidade de água no solo para calcular o Índice de Palmer, que mede a severidade da seca.

Ao padrão que os dados revelam somam-se as projecções do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que apontam para ondas de calor e situações de seca mais frequentes em Portugal até 2100.

“Existem vários cenários: uns que apontam para situações um bocado mais extremas, outras menos, mas todas apontam na direcção do aumento da temperatura e de uma diminuição da precipitação” em Portugal, explica Vanda Pires, do IPMA, que não tem dúvidas no momento de atribuir estas consequências das alterações climáticas à actividade humana.

Na impossibilidade de conseguir reverter as consequências de um planeta cada vez mais quente e com o clima em constante mudança, Vanda Pires lembra as lições que estes períodos longos de seca nos podem ensinar.

“Felizmente hoje estamos um pouco mais alerta, sobretudo depois da seca de 2005-2006, que foi a mais grave e mais recente que tivemos em Portugal. Passámos a estar um bocado mais alerta para a situação”, defende a cientista do IPMA, que acredita que esta é uma forma de “mitigar um pouco estas situações extremas”.

Comentários
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  • Nelson Soares
    05 dez, 2017 13:16
    @João Oliveira: Tem de ler melhor o artigo! As alterações climáticas não são a causa das secas, apenas tornam este fenómeno mais frequente e intenso. Como se lê no artigo, das 11 situações de seca desde 1941, 8 ocorreram desde 1970! Ou seja desde 1970 tornaram-se mais frequentes! A climatologia não trata de casos isolados mas de estatísticas ao longo de séries longas de tempo. As alterações climáticas de origem humana (ou a sua inexistência) também só podem ser provadas ou refutadas tendo em conta o que acontece num período temporal extenso (décadas/séculos) e não em episódios isolados.
  • Bento Fidalgo
    05 dez, 2017 Agualva 11:45
    Há que pensar no aproveitamento da humidade marítima que durante a noite entra em terra e percorre as cordilheiras montanhosas, concentra-la de modo a que possa ser recolhida ou através de qualquer gás refrigerante acelerar o processo de chuva. Fazer a ligação entre rios de modo a standardizar a cota de água em todos durante chuvas intensas em qualquer região, evitando, ao mesmo tempo, as cheias nesses licais. Aproveitar a água das chuvas que cai dos telhados e vai para o mar pelas sargetas ou, não conseguindo escoar provoca cheias e muitos prejuízos.
  • joao oliveira
    05 dez, 2017 viseu 11:16
    tretas!!! de certeza que em 44 e 45 também foram as "alterações climáticas"...
  • Zé das Coves
    05 dez, 2017 Alverca 11:12
    Adoramos choradeira, porque não fazemos o nosso trabalho ? os Holandeses mudam a agua de um lado para o outro quando precisam e lhes apete-se , porque não fazemos o mesmo ? os Sres Autarcas quando estão a gastar o nosso dinheiro nunca se lembram do que faz falta, mas como estas necessidades não dão votos, ficam para quem vier a seguir !!!
  • ap
    05 dez, 2017 portugal 11:11
    Podem inventar as barragens que quiserem. Se ela não cair do céu, vão simplesmente estar a gastar milhões para fazer enormes rampas de skate.
  • Rodrigues
    05 dez, 2017 Aveiro 10:52
    E irá piorar sem dúvida. O aumento de área ide solo impermeabilizado (asfalto e demais materiais utilizados) e a crescente edificação com materiais claros e reflectores da luz solar contribui para a diminuição de água nos aquíferos (impermeabilização) e a um aumento de temperatura ambiente (caso da luz reflectida). As demais acções que promovem efeito de estufa somam-se agravando a situação. Solução imediata quem tem??? Eu não seguramente.
  • mini Mendes
    05 dez, 2017 Queluz 10:40
    o que falta em Portugal e chuva ☔ em contra partida temos especialistas para dar e vender em qualquer matéria somos privilegiados
  • Filipe
    05 dez, 2017 évora 10:28
    E , mesmo assim não se vê ninguém a limpar os leitos dos rios nem as margens das barragens quanto mais alargar a capacidade . Para o Verão que vem é que vão ser elas !