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Pedrógão, um mês depois do inferno

Sandra, a gestora a quem os apoios ainda não chegaram. E há 50 pessoas que dependem deles

17 jul, 2017 - 08:00 • João Carlos Malta , Joana Bourgard

Ti Rosalina da Figueira ficou sem casa, Sandra tenta aguentar os 50 postos de trabalho de uma fábrica em escombros, Maximiano perdeu o pai e a mãe. Um mês depois do fogo que transformou em negro o verde de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e de Figueiró dos Vinhos, o que mudou na vida das pessoas? Quase tudo.
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Sandra, a gestora a quem os apoios ainda não chegaram. E há 50 pessoas que dependem deles

Pedrógão, um mês depois do inferno:


Já passou um mês. São 30 dias em que a Serração Progresso Castanheirense, em Castanheira de Pera, não laborou, não vendeu, não facturou. Ao longo de centenas de metros, estende-se um cemitério de máquinas e de material. Tudo derretido ou pintado de negro. Ali trabalham 50 pessoas com contas para pagar e vidas para resolver. E sem dinheiro nada feito. Apesar de todas as promessas, até agora, ainda não chegou nenhum apoio àquela que é uma das maiores empregadoras da região.

As autarquias e o Governo apressaram-se a dizer que iam centrar esforços na recuperação das empresas, as poucas que existem, e que dão o raro emprego que ali há. O ministro do Planeamento e Infra-estruturas, Pedro Marques, disse, no final de Junho, que, independentemente de haver ou não fundos europeus, não faltaria apoio às empresas.

“Tudo isso se pode dizer, tudo isso se diz, mas onde é que está? [pausa]. Até agora nada. Houve muita solidariedade, houve muitos donativos. Há pessoas que vão ligando até com alguma revolta porque parece que nada chega. Os portugueses uniram-se em prol de uma causa e é de louvar. Ninguém está desalojado, mas nós aqui não conseguimos fazer as coisas sem dinheiro e sem a nossa força”, afiança a gestora da serração, Sandra Carvalho.

Há um mês, a jovem empresária, quando questionada sobre os apoios que se anunciavam já, preferia ver para crer. "O pobre desconfia, tudo o que temos é do nosso trabalho, mas temos de ter fé", sublinhava.

O futuro, até agora, provou que tinha razões para estar de pé atrás. “Estamos por nossa conta. Já houve várias reuniões e visitas, mas nada de concreto”, refere.

No dia do funeral do bombeiro Gonçalo Conceição, uma das 64 vítimas mortais dos incêndios, uma comitiva que veio para as exéquias, com vários secretários de Estado e entidades, visitou as instalações. “Depois disso, mais nada. Nada nos foi prometido”, enfatiza.

E os apoios? Onde estão?

Numa visita guiada pela fábrica, Sandra recorda o barulho ensurdecedor que antes se ouvia. Foi substituído por um “silêncio irritante”. “Estávamos habituados a que tudo estivesse a trabalhar, ao riso das pessoas, ao barulho, ao falar alto. Havia vida, coisa que agora não há.”

As lembranças do passado aumentam as queixas que vão directas à alegada inacção dos que mandam e podiam agir.

Mas sabe que não está sozinha nas queixas. A serração está a meio da cadeia de produção da fileira da floresta e tem vasos comunicantes com outros agentes no terreno. Está tudo na mesma situação.

“Falamos com alguns empresários mais pequeninos e que perderam muito, há uma oficina muito próxima, em que o dono tinha carros de clientes à volta do terreno, e deve estar na mesma situação do que eu... como é que... não é fácil”, soluça.

Cinco milhões à cabeça

Já passou um mês, mas o tempo passou a voar. Sandra puxa a fita atrás. A primeira semana foi de rescaldo, noite e dia nas instalações, e um olho no mato, 600 hectares de terreno onde as chamas podiam reacender-se. Na segunda semana, a limpeza; na terceira, outros problemas: orçamentos, burocracias e seguros.

Sabe que vai precisar de pelo menos cinco milhões de euros para voltar a pôr tudo como dantes. Isto sem contar com os prejuízos que decorrem de não estar a despachar encomendas.

As máquinas que ali laboram (cujos preços vão dos 50 euros aos 400 mil euros) estão na maioria inutilizadas. Em muitos dos casos são feitas à medida e já custam mais três ou quatro vezes do que quando foram compradas.

“Ainda estamos à bulha com pedidos de orçamento e quando olhamos para eles quase desfalecemos com os valores. Não vai ser fácil. Vai ser tempo que estamos parados e em que temos de pagar impostos, os salários e as obrigações fiscais”, lembra.


Pedrógão, um mês depois do inferno:


Mas até quando é que vão poder aguentar em ajudas? “Nem nós sabemos. Depende. Temos clientes que nos pagam a 60 e a 90 dias, vamos falhar com eles porque não vamos conseguir cumprir os contractos de abastecimento e eles vão ter de procurar outros fornecedores. Se calhar não vão pagar nos prazos estabelecidos. Isto é uma bola de neve.”

Quantos trabalhadores ficam?

O futuro dos trabalhadores está em suspenso. Quando avalia como é que eles têm reagido, Sandra suspira antes de começar a falar. Faz uma pausa e depois avança. Diz que tem havido de tudo: alguns têm ajudado nas limpezas na empresa e na mata, outros tiraram férias e outros estão de baixa.

Não sabe se poderá manter toda a gente. Aliás, sabe pouco sobre o que lhe reservam os próximos meses, mas gostava de ficar com todos os trabalhadores.

Diz que já lhe propuseram o “layoff”, mas questiona várias vezes a opção: “Por que é que vamos manter as pessoas em casa a receber se precisamos delas para reconstruir a fábrica? Porque é que vamos dispensá-las se precisamos delas? Não faz muito sentido. Se o Estado está disposto a ajudar através de um subsídio de desemprego ou de um ‘layoff’, porque não fazê-lo com as pessoas a trabalhar?”

Se há um mês calculava em apenas alguns meses o retomar da laboração a 100%, agora estende o prazo para mais de ano. Ainda assim, pelo meio há formas de parcialmente começar a vender.

“Queremos ter uma parte a trabalhar para irmos facturando, porque temos matéria-prima e mão-de-obra, só nos falta as máquinas para concretizar o produto final”, explica.

No entanto, de seguida, sai-lhe novo lamento: “Mas já se passou um mês e olhamos à volta e praticamente nada se fez.”

Isto só está a começar

Quando olha para um cenário pós-reconstrução, os desafios não vão terminar. Aí surgirá nova missão: procurar clientes novos ou velhos. “Vamos ter de os conquistar porque eles tiveram de desenrascar a sua vida e têm os seus compromissos e os seus contratos”, sustenta.

Se o mal que lhes chegou das chamas já seria suficiente para que não precisassem de mais dores de cabeça, foram agora os homens, e não a natureza, a trazer mais um desgosto. Há cerca de uma semana, a fábrica foi assaltada. Os roubos têm acontecido na zona, a particulares e a empresas. Os que se aproveitam das tragédias não poupam estas vítimas dos fogos.

“Vieram roubar-nos os computadores, as impressoras e o programa que tínhamos numa das estufas. Os computadores já não eram novos, mas temos de comprar novo, e o programa de gestão é muito mais caro, cerca de cinco mil euros cada licença. Mais uma despesa”, identifica.

“Entraram por um buraquinho na zona de abastecimento da estufa, mas os computadores estavam numa cabine fechada que eles arrombaram”, conta. A videovigilância ficou destruída pelas chamas. “Em cima de todo o prejuízo, o pouco que sobrou ainda acaba por ser roubado.”

Os eucaliptos da discórdia

De saída da fábrica, num passeio num 4x4 pelas propriedades em que a empresa tem plantadas centenas de hectares de árvores, Sandra desabafa sobre algumas críticas que tem ouvido de outros.

“Dizem as pessoas que só plantamos eucaliptos. Não é de todo mentira, mas também não é 100% verdade. Também plantamos e preservamos outras espécies. Mas há outra árvore que seja possível rentabilizar da mesma forma? Não”, pergunta e responde a gestora.

E o risco? “Se formos a avaliar um incêndio como este, onde tudo ardeu desde o carvalho, ao sobreiro, ao eucalipto….Vimos matas bem planeadas onde não ardeu eucalipto e os carvalhos junto à linha de água ficaram destruídos”, ilustra enquanto passeia pelas encostas de um dos muitos terrenos que tem no concelho de Castanheira de Pera, Pedrógão Grande e Figueiró.

Muita da madeira que tem naqueles terrenos está inutilizada, seja de eucalipto ou de pinheiro. E se esse prejuízo directo é mais um para somar, há ainda outro: o preço da madeira já desceu.

“Há um ‘boom’ na oferta. Para podermos comprar ao particular, vamos fazê-lo mais barato porque também vamos vender por um preço mais baixo. No prazo de 15 dias, o valor desceu três euros na madeira de pinho.”

Já passou um mês, mas para Sandra ainda está tudo muito presente. O fogo mudou-lhe a vida e dos que lhe estão próximos. Fala mais dos outros do que dela própria, mas quando o faz não se esquece do horror que sentiu.

“Achava que isto era o fim do mundo. A minha avó dizia que o mundo já tinha acabado com água e de que agora ia acabar com o fogo e foi o que me veio à cabeça. Pensámos que ia acabar tudo e que não ia sobrar nada.”


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Comentários
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  • Maria Santos
    17 jul, 2017 Fig.Foz 23:50
    O Papa Francisco colocou na porta do seu gabinete um sinal que diz que é “Proibido lamentar-se”.
  • Bela
    17 jul, 2017 Coimbra 23:45
    O problema talvez não esteja no plantio de eucalipto, mas sim na forma desordenada como foi efectuado, junto das propriedades e sem regras apesar de a lei ser bastante clara sobre o assunto. É típico do português, quer fazer tudo à sua vontade, se corre de feição são heróis, se corre mal, coitadinhos...